De tempos em tempos

De tempos em tempos me pego pensando no por quê faço, ou deixo de fazer, certas coisas. Por exemplo, por que parei de escrever?
Não estou triste, muito pelo contrário, mas me pergunto o por quê mesmo, no sentido de me compreender melhor. Eu gostava, e gosto ainda, de escrever.
Será que me tornei tão mecânico a ponto de não ver mais valor técnico nisso, não escrevo por que não acrescenta nada no meu trabalho? Eu realmente não quero acreditar em coisas assim, mas me pego nesses pensamentos e sinto que a única maneira de me livrar deles é entende-los por completo.
Eu sinto que perdi a inspiração pra escrever. A verdade é que grande parte da minha vontade por expressão veio de sofrimento e angustia, da tristeza inerente de ser solitário, de pensamentos sombrios e estranhos em noites escuras. Eram desses sentimentos que eu tirava a maior parte das palavras e das frases, que jorravam em rascunhos na maioria das vezes nunca digitalizados e agora, portanto, perdidos para sempre. Mas o fato é que hoje estou feliz e a felicidade me inebria. Me deixa bobo, sem ação. Mas feliz. Fico pensando “eu poderia viver o resto dos meus dias desse mesmo jeito, sem mudar nada” e o pensamento trás um sorriso leve ao meu rosto, mas em raros momentos de sobriedade eu me pergunto “o que que eu estou fazendo?” e então me lembro que faz alguns anos que já não escrevo nada, até que a felicidade volta e esqueço tudo isso. Como se fosse um Éden ou um País das Fadas no qual eu perco a noção do tempo, comendo e bebendo, rindo e gozando a vida, mas envelhecendo. Não me entenda errado, não é nem um pouco ruim, mas talvez por isso mesmo seja, de fato, ruim?
Eu sempre tive a noção de que se eu fosse realmente feliz, eu não escreveria mais. Que a tristeza era sobriedade, era racionalidade. Não se pensa bem quando se está feliz, justamente por que se está feliz. Não existe desejo por mudança, não existe ambição, não existe desafio. Todas essas coisas exigem um estado de inquietação que é inerente de que está descontente. Insatisfeito.
Eu estou completamente satisfeito.
Mas eis o ponto.
Sabendo exatamente pra onde eu vou, a que velocidade estou, e qual caminho vou percorrer, o que resta da viagem? Para que ler uma história que já se conhece? Se você traça todos os planos, então o que sobra, além da inércia? E como se tirar da inércia se não há justificativa?
Estou feliz assim e, por mim, poderia continuar nessa situação pra sempre, e isso não é um eufemismo. Tenho consciência hoje, da mesma maneira que tinha consciência de que não escreveria mais se fosse verdadeiramente feliz, de que vou sentir saudades desses dias preguiçosos e de pequenas coisas simples. De histórias simples. Eu entendo a escolha de certas pessoas pra viver assim pra sempre.
Mas acredito que para isso que existe a aleatoriedade. Eventos imprevistos e inesperados, perturbando a paz de todos nós, nos forçando a sair da nossa zona de conforto. Nos forçando a seguir em frente ao invés de nos contentarmos com simplesmente estarmos felizes.
Coisas inesperadas como decidir a voltar a escrever num dia chuvoso, apesar de não ter nada sobre o que falar.

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"Porque eu sou do tamanho daquilo que sinto, que vejo e que faço, não do tamanho que os outros me enxergam" Carlos Drummond de Andrade, meu Mentor Ver todos os artigos de Trovador

Uma resposta para “De tempos em tempos

  • Daniel

    Te entendo, Rafa.

    Escrever das emoções é trabalho do exorcista. Quando o espírito se cansa e vai embora, ele leva a caneta do escritor e a pena do poeta junto com ele.

    Conversamos tantas vezes disso nos tempos de MSN, mas hoje em dia, cada vez mais vejo que isso é verdade. Se a inspiração era pelo lamento e a fonte dos lamentos se foi, deve-se ficar feliz que o poeta calou-se.

    Au Revoir!

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