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Ressurgir do Rei

O céu negro de tempestade deixou escapar um raio de luz, que tocou a grama em um morro perto do castelo.

Um evento efêmero, dirão uns, mas não ali onde quase tudo já havia morrido e onde quase nada mais existia. As pessoas eram pobres e suas coisas eram frágeis, seus lares, sombrios, e seus pastos de grama rala e fraca. O castelo, outrora esplendoroso, não era mais do que um monte de pedras sujas e cobertas de limo mau-cheiroso por centenas de anos e no centro do salão principal, nada mais do que espaço retangular delimitado por esboços de paredes de rocha semi empilhadas, um esqueleto sentado em um trono, não um Rei.

Por isso, a grama silenciosamente agradeceu ao raio de luz que tão arduamente lutou para tocar o chão, e o negrume do céu empalideceu com tal visão. Naquele exato lugar, nasceu uma flor. Não muito grande, não muito bonita, mas ainda assim uma flor.
E uma flor muito vaidosa e corajosa. Cresceu até onde pôde e se esforçou até onde podia, sem poder se mover e utilizando daquele solo pobre e estéril.
Uma menina, passando descuidada por este lugar evitou por pouco a tragédia de pisar em tal flor diminuta, no último instante, reparando-a com curiosidade. Apesar de tudo que significava não chamava muita atenção dado o seu tamanho.
A menina colheu a flor e a cheirou e vendo quão cheirosa era, levou-a consigo para brincar. A corajosa menina foi para o castelo pois os meninos não queriam brincar com ela. Queria trazer a coroa do rei morto para mostrar pra eles que podia, que era corajosa e digna, mas se esqueceu do desafio, completamente, maravilhada com a flor.
Começou a procurar por mais daquela planta estranha – ela era jovem e jamais havia visto uma flor, somente as secas que cresciam em volta de sua vila – e queria mostrar várias para seus pais. Mas antes de continuar procurando deu de frente com o trono real e sentado nele o antigo rei com sua coroa, e com isso se lembrou de seu intento e caminhou vagarosamente em direção à figura esquelética.
Ainda vestia alguns trapos mas quase não havia carne em seus ossos e estava sentado como um verdadeiro rei, pomposo apesar de decrépito. A menina caminhou em direção ao trono e teve muita pena do Rei, que era retratado em vários poemas de sua vila como grandioso e heroico.

Achou correto prestar uma homenagem ao rei colocando sob seu colo a pequena flor. Não estava assustada pois estava em um local aberto, bem iluminado e podia ver sua vila morro a baixo, e além de tudo porque era verdadeiramente corajosa. Fez aquilo por respeito, talvez, e se ajoelhou em frente do Rei e recitou um poema muito conhecido, que se referia ao rei morto. (aqui)
Ao erguer os olhos, ela congelou.
A flor, ao perceber onde estava soube imediatamente o que fazer, e com tremendo esforço cedeu ao rei um pouco da luz que havia lhe dado a vida e o Rei não poderia ignorar tal sacrifício, mesmo morto.
O Grande Rei recolheu a flor, sorriu amavelmente e olhou em volta. Estava inteiro, vivo e limpo, sem um arranhão ou cicatriz. Estava novo. Não poderia dizer que esteve morto, apesar de suas roupas continuarem em trapos dignos de um morto. Ele fitou a flor por um tempo e agradeceu a ela, que, para surpresa da menina, pareceu honrada. Então desceu do trono, abaixou próximo a menina e lhe estendeu a flor, colocando-a em seus cabelos.
A flor lhe acariciou os cabelos sujos e disse em voz alta três vezes: vida longa ao Rei.
Por que o rei estava vivo de novo.
Na última viva da flor, a menina a acompanhou. Vida longa ao Rei. Fez sol de novo no Reino.

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O Rato

Lá estava eu, escrevendo, como sempre, e um barulho me incomodava. Sempre este barulho. No começo, pensei que o estivesse imaginando, mas agora eu duvidava. De alguma maneira, tal barulho existia alheio a minha vontade onde nada poderia existir se eu não desejasse que existisse. Ergui uma sobrancelha e apurei os ouvidos: estava vindo de trás do sofá. Num pulo, agarrei o sofá e o virei, mas não encontrei a origem do tal som, então passeei pelo quarto, ouvidos ainda atentos e o escutei de novo atrás de uma pilha de livros encostados na perna de uma mesa e dessa vez me aproximei silencioso. Já havia feito isso dezenas de vezes, não importava como me esgueirasse, pulasse ou me atirasse, o som fugia. Era rápido demais. Ou não existia e eu o estava imaginando. Mas a questão é: Se eu o imaginava, e eu era capaz de criar qualquer coisa que eu imaginasse naquele lugar que era MEU, ele não se criaria? Arrumei o sofá em seu lugar e sentei, pensativo. Examinei de longe uma coisa que chamou minha atenção, os livros que eu derrubara para constatar que o som não estava vindo deles estavam todos marcados com pequenas mordidas nas capas e nas folhas. Fiquei chocado. Me aproximei e analisei o que pareciam ser mordidas de um roedor. Talvez um rato? O resto de alguma poesia que fora escrita a muito tempo? Como teria parado ali? Sentei de novo no sofá. Era desconfortável, estava ficando velho, mas me trazia muitas recordações para jogá-lo fora, mas já era hora. Ratos, quem diria. Tirei as almoçadas pensando em usá-las no novo sofá que eu fosse trazer e para meu espanto ali estava um enorme buraco que exalava um certo mal-cheiro, iluminei seu interior com uma antiga lanterna e vi um rato muito gordo, que parecia estar sofrendo e cansado. Provavelmente tinha feito um enorme esforço para se enfiar pelo buraco pequeno de baixo do sofá, ofegando da provavel corrida que tinha feito para fugir de mim. Fiquei intrigado. Desfiz o sofá e o rato permaneceu, tentando se afastar de mim, mas estava muito exausto e eu sorri triunfante, embora confuso e curioso. O rato não desaparecia por mais que eu desejasse que se fosse e o que poderia ser isso? Aqui era o reino onde eu imperava, um lugar que não existia para onde eu fugi quando minha antiga morada foi destruída por um coração partido. Eu havia criado este lugar do nada, da não-existência. Teria vindo comigo, este rato? Sobrevivido como eu? Teria vivido das minhas poesias? Dos meu livros e contos? O rato soltou um guincho de dor e tive a impressão de que sua barriga se inchara um pouquinho mais, mas afastei o pensamento, pois de repente ele pareceu desfalecer. Ousei me aproximar um pouco, mas recuei quando vi, novamente, sua barriga inchar um pouco mais. Tive a leva impressa de que ia explodir quando… Poff, explodiu. Fui invadido por cores e sons em uma turbulência violenta de imagens passando muito rápido. Senti sabores que havia esquecido com uma intensidade que poderia deixar um homem louco, vi cores que não existiam, soterrado por imagens e palavras que lutava para ocupar um espaço. Fiquei espremido entre sons que se gritavam. Violentado por toques e arrepios e dores inimagináveis, agarrei meu próprio corpo em uma tentativa desesperada de me proteger: grande erro. Aquela realidade se aproveitou de minha fraqueza para tomar todo o lugar e eu fechei os olhos para não ver meus livros serem devorados pela matéria que precisava de espaço para existir. Resisti por que era eu. Recobrei a consciência em um Bosque que eu conhecia muito bem. Eu nascera ali. Acompanhei civilizações crescerem e morrerem através de eras que passavam em minutos, vi arvores crescerem e estas eram mais antigas que as sementes que as geraram, mas nada destas coisas estavam ali naquele momento. Tudo deserto, nada além de um bosque. O bosque da solidão. Me lembrei de repente. O rato comeu o retrato que sobrara do reino que antes era a minha casa. O rato que sobrara. E agora, de alguma maneira, o reino voltara a existir a partir daquele rato, a partir daquele resto, daquela lembrança irrisível. Da sobra.


O Cavaleiro Sombrio

O Cavaleiro chegou à cidade envolto em trevas e em mistérios, pois ninguém nunca antes o havia visto ou ouvido falar de tal figura. Soturnamente ganhou as ruas, de andar vagoroso e arrastado, iluminado somente pelo luar pálido de uma noite morna e que trazia promessas de chuvas, e a escuridão não parecia incomodá-lo. Pelo contrário: Era como se estivesse confortável com ela.
Permaneceu nas sombras enquanto os que caminhavam pelo -já não tão movimentado- centro da cidade o evitavam como se fosse um demônio, e talvez fosse.
Sua veste pesada, meio metálica, meia de couro, as vezes produzia um rangido alto e logo desaparecia como uma máquina velha que tinha vontade própria, e seus longos cabelos pretos lhe davam um ar realmente maligno. Ninguém ousou falar com ele e todos se afastavam. Ninguém ousou olhar em seus olhos. Logo, como era de se esperar, desapareceu.
Foi visto várias vezes durante as noites seguintes e logo se espalhou o boato de um fantasma ou espírito amaldiçoado de um cavaleiro morto passeando pelas ruas mais suspeitas da cidade. O que ele queria ali? O que procurava? E mais importante, por que ‘aquela’ cidade? Simples, por que era a única.
Aquela era a única cidade que havia, o resto não passava de vilarejos espalhados e salpicados, resultados de uma tentativa do povo de restaurar a dignidade, afinal, aquela cidade havia “morrido”. Deve ter sido por isso que apesar do medo ninguém daquela cidade havia feito algo com relação àquele cavaleiro, afinal, o que é um fantasma para uma cidade morta?
Combinava com o castelo cadavérico em ruinas que dominava o horizonte.
A noite cumpriu sua promessa, e choveu.
Aos sinais das primeiras gotas de chuva, o cavaleiro acordou em seu quarto quente e vestiu serena sua armadura e apanhou a espada já desgastada, seu corpo era magro, branco, pálido e com cicratrizes horrorosas que traçavam sua história ao longo dos anos. Tinha o odor característico daqueles que não tomam banho há vários dias.
Ele saiu do quarto não sem antes pôr três moedas no balcão, meio ocupado pelo gordo bêbado que era dono do hotel e roncova alto. Devia ser a única pessoa no reino que não se importaria com um hospede assim.
O cavaleiro foi para a rua, indiferente à chuva que tomava a cidade e apertou forte o cabo da espada. Ao som do primeiro rugido, ele já estava lá desferindo o primeiro golpe. A fera, que não poderia estar mais surpresa, cambaleou para trás tentando ver de onde veio o ataque mas não conseguiu, ficou confusa por três ou quatro segundos antes de ouvir o silvo da espada vindo por trás perfurando o corpo peito por trás. Meio-homem, meio-animal. Uma besta. Seu corpo já inerte caiu pra frente com um baque que foi abafado pela chuva e as arfadas foram interrompidas por sangue, até um último suspiro levar embora a vida daquele grande quase-animal. Se alguém pudesse ver de perto os olhos daquela criatura, se pudesse ver o momento em que perderam o brilho, se pudessem ver o alívio que eles expressavam…
O cavaleiro limpou a arma suja de sangue na capa e mas não a embainhou.
Vários uivos se seguiram, vindo de todos os lugares, acompanhados de vários passos pesados em poças de água.
O Cavaleiro se viu cercado.
Esboçou um sorriso leve e tirou o cabelo da frente dos olhos. Afinal, o cabelo sempre atrapalhava. Pensou que depois de hoje, poderia cortar o cabelo, mas se lembrou de uma valiosa lição: nunca fazer planos muito longos. Eles costumam ser inúteis pra ele.


O nascimento de um Grande-Rei

Por Rafael Rabelo

Seu coração estava vazio. Fora assim toda sua vida, até aquele momento. Criado sozinho, entre enormes paredes de pedras frias e pessoas claramente vazias, não havia nada com que pudesse preencher seu coração. Não havia felicidade, tristeza ou mágoa. A vida passava regada a horas e horas de pensamento introspectivo, como que se olhando no espelho para ver a alma e pintá-la, e nada que dissessem ou fizessem poderia tira-lo de si mesmo. As histórias eram as únicas coisas que poderiam tirar-lhe de sua introspecção e leva-lo a situações socias com certa profundidade, de maneira que passava horas a lê-las e devora-las e até mesmo invanta-las.
Um belo dia, enquanto passeava, viu uma de suas histórias tornando-se real. Viu uma garota exatamente da mesma maneira que a imaginou uma vez e ficou ali, pasmo, enquanto os adultos discutiam assuntos superfulos. Por alguns instantes, seu mundo correu vagoroso e arrastado, tanto que ele pensou estar sonhando ou algo do tipo.
Mas não estava.
Seu coração se preencheu naquela hora, exata, por completo.
E um Grande-Rei nasceu aquele dia, no coração daquele menino.
E uma história se iniciou.

Era uma vez um Grande-Rei, que vivia em um grande castelo, num grande reino chamado Coração. Tudo o que o Grande-Rei queria, ou imaginava, tornava-se real, menos uma coisa pois havia uma amazona ruiva…

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Achei legal postar o começo da história. Quem entender, vai gostar XD
Uma ENORME intertextualidade com outros textos daqui do blog.
Útil pra tapar o buraco até eu conseguir terminar o texto que a Natt me deu a idéia de fazer.

Férias jaja e mudanças no blog virão, com direito a fotos dos meus bonsais e uma mudança de rumo sutil no blog, como quem me lê a bastante tempo vem percebendo, como a Lua.

Abraços a todos e au revoir


A morte do Grande-Rei

Por Rafael Rabelo

As paredes se calaram, chocadas. Nunca mais disseram uma única palavra. Pois elas foram as únicas que presenciaram aquela cena, que seria o começo do fim de tudo.
Naquele dia, o Grande-Rei, senhor de tudo e todos, estava como há muitos anos, imovel em seu trono: a lança da amazona trespassando o peito que sangrava sem parar numa visão tão angustiante que somente as paredes poderiam presenciar. Não era nenhuma hora especial quando a amazona que fincara a lança em seu peito num dia fatidico do passado, retornou subitamente com seus cabelos ruivos esvoaçando apesar de não haver vento, e emitir certa luz, apesar de não haver iluminação alguma. Era toda mistério ao mesmo tempo que era tão conhecida.
As paredes protestaram, mas não eram portas para não deixar que ela entrasse e nada podiam fazer a não ser guardar o segredo, como quatro paredes sempre fazem. O Rei olhou com os olhos meio mortos que tinha no rosto desde aquele dia em que ela tentara mata-lo, e ele vivia no impasse de morrer ou não. A boca, como a de um defunto, pronunciou palavras que estavam cansadas de serem repetidas: Eu te amo.
A amazona olhou demoradamente para ele. As paredes, que presenciaram o fato, sabiam que estava havendo uma conversa entre eles naquele instante. Nada se moveu, nem mesmo os elétrons. O tempo deixou de existir até que ela, a amazona, pronunciasse as palavras que calaram para sempre todas as palavras.
O sentimento que tenho, quando penso sobre aquele momento, é como quando vemos uma gota d’agua cair em um copo cheio até a boca. Ou como quando colocamos uma última carta no castelo de cartas que logo em seguida desmorona. Inesperado de uma maneira estranha, pois sabemos  que aconteceria, mas não deixa de nos chocar. Como os bons finais de boas histórias.
E como eu disse, as paredes se calaram. Sei disso porque apareci nesse exato momento. Ouvi quando as paredes tomavam um último folego para a última expressão de espanto. E só vi as palavras correrem até os ouvidos do Rei, impossiveis de serem detidas. Não estava lá quando foram ditas mas pude ve-las quando chegaram ao Rei, assim como vi sua expressão, que foi um misto de revigoramento e morte.
Mesmo para mim é dificil explicar como ele reagiu… O mais perto que posso chegar com palavras é que ele pareceu morrer no instante em que as palavras chegaram ao seu cérebro e voltou a viver na sinapse seguinte.
Uma mudança tão brusca e rápida que até mesmo a amazona se surpreendeu, antes de sumir. E dessa vez, foi ele quem a fez sumir, ela não saiu gloriosa pelos portões da frente do Castelo enquanto todos se recolhiam medrosos daquela que havia ferido o Rei, mortalmente. O Rei retirou a lança do peito com um certo desprezo e uma certa angustia, mas não hesitou. A lança sumiu antes de tocar o chão. Eu estava mudo. Sabia que era um mero espectador e era assim que o Rei queria, e eu não era ninguém para contraria-lo. Me resignei a observar os acontecimentos futuros.
Devido ao retorno do Rei, os moradores do castelo e suas proximidades fizeram festas e comemoraram. Devido ao fim da guerra contra as amazonas, os guerreiros voltaram às suas esposas e aos seus filhos e filhas. As colheitas foram boas e os animais ficaram gordos. Havia um clima de final feliz no ar. Mas as paredes não contavam nada.
Talvez ninguém tivesse reparado, ou ao menos ninguém comentava, mas as coisas que eram tão vivas antes, ficaram caladas.
Os poços já não conversavam com aqueles que pegavam água e já não se pedia para uma porta a permissão para a entrada, pois ela nada fazia. As luzes, os risos, as palavras assim como as brisas, nuvens e tudo mais que caminhava pelo ar já não corriam livres na direção que quisessem, nem compartilhavam suas opiniões com os aldeões. As estrelas se tornaram distantes. A lua brilhava, silenciosa. A noite vinha devagar com a ida do sol e eles jamais brigavam ou se amavam como antes.
Também não era dito que certas paisagens históricas haviam sumido, como o bosque da Solidão ou a floresta das amazonas. Já não era mais possivel ver as montanhas ou cachoeiras de ninfas, o mundo ia encolhendo até se resumir à fazendas, pastos e o Castelo.
O Rei saia para passear de vez em quando apesar de uma corte extremamente preocupada com sua saude e bem-estar, mas era inutil. Ele estava febril e suava muito, mas dizia ser o calor. Quem discordaria dele?
Caminhando pelos campos, parou um momento e se sentou no chão, que não expressou nenhuma opinião, enfiou a mão na terra e pegou um punhado de areia. Ao soltar os grãos, antes negros, estes estavam brancos e se dissolviam antes de cair novamente na grama, que estava verde-escura quase negra.
O Rei, que estava sozinho nesse momento, deixou correr uma lágrima, e se as coisas fossem como antes, a própria lágrima choraria e então tudo choraria, mas ninguém viu e portanto ninguém se importou. Não choveu aquele dia.
As pessoas, então, começaram a desaparecer. Entravam em suas casas e nunca mais eram vistas. Quem quer que fosse procura-las encontraria uma casa vazia, com paredes silenciosas, sem luz e de janelas fechadas, e depois não seria mais visto também.
Estranhamente, ninguém tinha medo e a vida seguiu seu rumo normal, com as pessoas trabalhando e comendo, defecando e gritando quando bebadas, algumas sumiam quando voltavam às suas casas para dormir. Aos poucos, as ruas foram ficando desertas e silenciosas. Talvez uma janela batesse uma ultima vez ou algo caisse quando o ultimo vento soprasse, mas estes eram ecos de algo que não estava mais vivo.
Anoiteceu uma ultima vez.
O Rei, sentou-se em seu trono, ponderando, querendo conversar com as paredes, mas sabia que não podia. Retirou cuidadosamente a corou da cabeça e a deixou de lado, enquanto ela  ficava cada vez mais clara até desaparecer. A ultima luz, da ultima vela, apagou.
Tudo ficou escuro e o único que enxergava alguma coisa era eu, que como todo poeta, podia ver na escuridão.
Mas não ouso narrar o que vi ali.
O que meus olhos presenciaram na ultima sala do reino, enquanto todo o resto desaparecia serenamente, será guardado para eles.
Certas coisas não devem ser contadas.
Imagine você mesmo como o Grande-Rei fez para desaparecer, ou o que ele fez antes de, enfim, morrer. Pode pensar no final romantico, trágico ou horrendo que quiser, eu não contarei o que realmente houve.
Mas uma coisa lhes garanto: O Grande-Rei não existe mais. Assim como tudo o que ele comandava, representava, ou que fazia parte dele, todas as personagens e criaturas-coisas. Todo o reino, morto.
Só eu existo.
E quando estava tudo terminado, comi a pintura que restava de toda a estória, para que jamais fosse vista. Senti o sabor de cada coisa e pessoa do reino, saboreei cada pensamento e sentimento de cada um.
Agora havia somente um quarto para me abrigar e abrigar as minhas coisas.
Porém, restou um maldito rato que teima em roer meus poemas enquanto durmo.
Ass: Trovador.

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Referencias intertextuais  próprias ao Castelo Coração, a Grande Reunião e ao Bosque da Solidão.
Referências também a Drummond e a Neil Gaiman. Te desafio a descobrir quais trechos.

Au revoir, mes amis


O Canto

Rafael Rabelo

O Canto das Pessoas,
estava no Canto d’Alma.
E sua forma, de alguma forma
Lembrava o Canto das Coisas,

O Canto da parede
Acolhe, nos faz compania.
E o mundo mudo,
insulta, torna a vida sombria.

O Canto de louvor ao Canto,
e seu acolher que encanta.
Engole a Terra em um abraço
E eu o engulo na garganta

O Canto é sempre um amigo
e Haviam outros Cantos
Uns anjos que nos recolhem,
E enchem os ouvidos.

Dentro de nós há um Canto
Que grita, n’alma.
Nele nos ouvimos e sentimos
Vemos nossas sombras projetadas.

O Canto enche os corações
preenche a alma e acompanha
Torna uma dor menos Solitária
enquanto eu, sozinho, a Canto

;) (65)

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As vezes, quando eu acho que esgotei os poemas que eu tinha, me surpreendo. Sempre encontro um poema perdido nas minhas coisas. E o pior, fico surpreso com quão bons eles são!
Acho que escrevi melhor antes, do que agora.
Era mais inspirado, eu acho.

Eu lembrei desse poema, foi baseado no primeiro livro que eu li a sério.
As Batalhas do Castelo.
Mto bom o livro, me surpreendi MESMO com o final.
Quem quiser, que leia o livro, talvez entenda melhor a poesia…


Como eu me vejo

A Grande Reunião

Rafael Rabelo


Reuniu-se então todo o mundo-eu. Todas as coisas que me formavam dirigiram-se ao Castelo Coração para tomarmos uma posição sobre um certo assunto, sobre uma certa mulher e o retorno dela – ou do sentimento dela. Reunimo-nos todos, pernas, mãos, braços, pêlos, barbas e até as casas foram, o próprio castelo daria a opinião dele, que seria o consenso da opinião dos seus tijolos e das suas vigas. Os cabelos quiseram opinar, também, olhos queriam se fazer ouvir ao passo que os ouvidos queriam mesmo é fazer fofoca com as bocas que, sozinhas, não sabiam o que estava acontecendo. Iam também as pessoas ilustres que tenho em mim, que eram o Rei, a Princesa, O Trovador, a Mente (que nada mais era do que um grande computador) e todo um séqüito de personalidades famosas, como O Sade (Que era sádico, obviamente), tinha um gay, uma lésbica, que não eram assim tão ilustres mas chamavam a atenção, haviam os filhos que nunca tive e que sonhava ter.

Reuniu-se a matéria toda. O meu mundo de sonho parou de girar e de repente era só o castelo, já que alguma coisa deveria existir para que se houvesse um lugar onde se fazer tal reunião. Veio até o Sol e fez questão de sentar-se na mesa principal, motivo: Não era do reino, foi convidado. No Reino não há sol. O Rei não gostava dele. Vieram astros intergalácticos também, a Lua, e a grande maioria das estrelas, outras ficaram no céu de preguiçosas, as nuvens quiseram vir todas, pois o vento viria, e é de conhecimento público que são inseparáveis. Os átomos estavam agitados e vibravam de emoção. Só havia tido outro grande conselho destes e já se faziam uns bons dois anos, que se sabe, quando é no mundo de sonho, viram milênios.

Enfim, haviam chegado todos. O Trovador cumprimentou cada um que veio e levou-se aí alguns anos. Houve um burburinho que logo foi calado pelo Rei. Mas não tardou (tanto) e teve inicio o debate. Quem abriu-o foi o Trovador, dizendo que era de suma importância a decisão de mais aquele conselho e que não era somente uma opinião, era tomar uma frente, uma posição, então o assunto deveria ser levado com seriedade, e por um instante olhou para os palhaços, que fizeram não ver a encarada.

Então começaram as bocas, disseram que os dentes estavam pouco se importando e que os lábios gostavam dos beijos dela, a moça em questão, e a língua também, e era então a favor da volta dela, os cabelos até se arrepiaram quando lhes contaram os ouvidos.

Os pêlos pouco se importavam, uma vez que ela não os arrancava, mas votaram não, pois sabiam que isso, com efeito, os fariam arrepiar-se. As unhas não chegaram a conhecê-la bem, mas agora estavam compridas e curiosas, votaram sim. Disseram as bocas que os ouvidos haviam sido menosprezados por ela antes e por isso votaram não. As mãos e os pés não a queriam, necessariamente, queriam qualquer uma, então votaram sim e os braços os acompanharam, as pernas estavam cansadas e cochilaram. O Rei ordenou que as deixassem dormir. Os olhos disseram que iam votar depois. Começaram as idéias a votar. As palavras votaram sim, adoravam ler-se nos textos daquela menina. A Mente era ferrenhamente contra. Apesar de não ser contra a maioria, era extremamente nociva a presença daquela menina, escutou-se nessa hora um suspiro do Masoquista que havia acabado de chegar. Tinha se matado e tinha ainda a faca ao peito. Uma risada percorreu o grande salão, e logo ela foi mandada presa e é uma pena, não ia poder votar.

Enfim, todo o julgo intelecto de escritores famosos e intelectuais votaram não, eram do partido da Mente, e sabiam do mal que a menina causaria. O Rei falou que ia abster-se do voto por enquanto, queria saber a opinião do povo. Disse que as personas de mim votariam depois e o Trovador quase gemeu alto demais, pois era tudo um grande drama e ele adorava.

A camisa era contra, porque era branca e, portanto, pura, não queria sujar-se e todas as camisas eram brancas, só haviam algumas pretas que estavam ausentes, a Rede de balançar-se não podia falar nada, era branca também mas estava suja, absteu-se de votar.

As calças cruzaram as pernas, porque não tinham braços, sabiam que seriam tiradas antes do sexo, mesmo, mas seriam tiradas também antes do banho, e as vezes antes de dormir, quando me dava de dormir pelado.

As casas fizeram um grande discurso e acompanhou-as um ilustre, que era o próprio Castelo, defendiam que se resistir a vinda daquela garota, haveria guerra e, como de praxe, as casas seriam as mais destruídas, logo, eram a favor da vinda pacifica da garota.

O Exercito se dividiu, eram aqueles mesmo que morreriam por nós e aqueles que tinham medo. As armas tinham sede e votaram não.

Queriam sangue. Já os escudos e armaduras disseram sim, pois estavam cansados e desgastados, mesmos os mais novos. Fora difícil expulsá-la, seria mais difícil ainda mantê-la longe. O Povo todo votou não. Não gostavam de ver o Rei sofrer. Era um bom povo, esse.

E também só chovia e tudo se destruía quando o Rei estava triste. Já os ministros! Esses votaram sim, queriam mudanças, a grande maioria, queriam reformas, republicas e dividir o Reino e o Rei só os atrapalhava, que saísse de seus caminhos tortos.

O chão em si votou não. Gostava de ser campo de batalha, as nuvens e a maioria dos astros e coisas naturais votaram que sim pois achavam belo ver o drama se desenrolando. As lágrimas disseram que não queriam mais rolar e descer pelo rosto e todos se comoveram, alguns até mudaram seus votos para não. Os olhos apoiaram-se nas lágrimas e nem necessitou de justificativa. Só um olhar.

Sade disse que estava mais para a volta dela, e os filhos sonhados disseram que não queriam ver nela, uma mãe. Os palhaços que estavam fazendo rir as crianças do povoado disseram que eram contra a tristeza e votaram não e quando o Masoquista exclamou um sim tão sofrido e tão exultante seguido de um breve e chatíssimo discurso sobre sofrer, sofrer e sofrer começou um caos e muita gente quis bater nele e socá-lo, pela sacanagem de querer fazer todos sofrerem. Alguns quiseram mudar os votos, principalmente os astros que estavam começando a se cansarem, tanto que uns, depois dos votos, foram embora. Os lápis, borrachas e livros e os materiais desse tipo votaram que sim, pois isto resultaria em mais escrita.

Votou a Princesa e votou pelo não, implicava em guerra mas em menos sofrimento para o Rei, mesmo ele não tendo certeza de que iria sofrer com o caso. Mas era simples, havia sofrido antes, por ela, sofreria de novo. A Mulher que estava calada votou não, também. Chegou a tão esperada vez do Trovador, que votou Não. O que era raro, pois sempre adorava drama e desprezava a guerra. Fora um não tão simplista que formou-se um burburinho que nem a guarda real conseguiu impedir e calar.

Todos estavam ansiosos e agitados pelo voto do Rei que era agora o último, mas estava calado. O Trovador anunciou que ele esperava alguém especial e veio logo assim, depois do anuncio uma bela mulher ruiva, baixa e infernocelestial, a Anjo, uma doce mulher alta de cabelos lisos dourados, conhecida como Deusa e outra ainda, de cabelos castanhos encaracolados, de um olhar muito confuso e amante, A Rosa. Eram os Amores. Inimigos do Reino. As Amazonas. Houve mais caos e dessa vez a própria guarda real estava entre os indignados e escandalizados. As armas se sacaram, prontas. Mas o Rei mandou-as de volta às suas bainhas. Chegaram as três bem próximas do trono do Rei e mesmo elas não tinham coragem de se aproximar mais. Sussurraram algo que nem mesmo os ouvidos mais atentos ouviram. Nem mesmo as palavras souberam dizer o que elas diziam. O Trovador abriu um sorriso que saiu correndo pelo saguão e o Rei fez abaixar a cabeça, em aprovação. Elas viraram e saíram e fecharam-se as portas que estavam curiosas e incrédulas. O Rei sorriu triste para a Lua, que estava calada, com seus cabelos negros encaracolados, ela não havia votado, mas sabia-se seu voto, justo ela que tinha sido uma das Amazonas agora era amiga do Rei.

O Rei levantou-se e fez seu pronunciamento.

Passou-se mais de uma década até que ele terminasse de falar e explicar porque havia chegado àquela conclusão.

Havia optado por uma decisão até então inédita: A simples omissão daquilo tudo. Era o esquecer dela, ou o sentimento dela, um mandar enforcá-la… Ou antes, nem lembrar-se de enforcá-la.

Ela viria e ele a olharia nos olhos e a cumprimentaria, mas não a amaria. Não iria amá-la nunca mais. Pois a amava ainda.

Não haveria guerra, nem drama. Nada de esganar-se ou engasgar-se com nada. Não era um fim, e sim um esquecer-se do começo.

Esquecê-lo justamente por lembrá-lo demais. Era um perdão, ou antes, um esquecer-se do crime e da criminosa.

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Juro, do fundo do meu coração, que quando escrevi esse texto nem sabia da existencia de Sandman ou de Neil Gaiman. Acreditem se quiserem.
Esse é um dos meus textos antigos.
Da época da minha garotinha ruiva.
Resolvi publicar pq ela voltou de novo, então achei bem contextual. Eu poderia dizer que houve outra Grande Reunião como essa quando ela re-re-re-reapeceu, mas tudo hoje em dia é bem mais inconsciente.
É um texto bom, e poucas pessoas já leram ele.
Algumas pessoas vão se reconhecer em alguns personagens. Essa é a graça de ser meu amigo, huh? Você ganha um lugar em alguma história que eu invento por ai e um nome legal, tipo Lua, Anjo ou coisas do tipo.

9.

Sou tudo o que poderia ser, ou sou então o reflexo da minha história. Se não gosto de ervilhas é pelo seu gosto.

Mas é-o também por não ter história em meu passado que me fizesse gostar. Nenhuma historinha ou conto pra que eu

gostasse de ervilhas.

No final, sou o que me fizeram de mim. Se sou rebelde é por que me forçaram a sê-lo, se sou casto, sou por que assim

me ensinaram, ou assim vi. Tudo tem um certo fundo antigo, tudo tem um aspecto que não foi decidido por nós.

Um filme que vimos, um livro que lemos, uma frase que nos dizem e nos comove, sou algo entre o que me ensinaram e o

o que o mundo me mostrou. Se tomo certas decisões é por que assim me cabe a lembrança de que aquilo é o certo, ou

o melhor a ser feito, pois assim me mostraram os meus parentes, a vida, o Destino, ou seja lá quem.

Mas não me caiu do céu a idéia. Não concebemos formas que não vimos, nem inventamos algo de verdade.

Somos frutos do mundo…