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Roubando minhas ideias

Nunca me importei, nem nunca me importarei, com o fato de roubarem minhas ideias depois que as expressei. Afinal de contas, depois que fiz isso, elas pertence ao mundo. Eu doo elas à ele. Mas uma coisa que jamais aceitarei é que as usem antes que eu as expresse, antes que eu as fale ou escreva, odeio quando a tiram da minha mente ou da minha boca. Quando falam aquela palavra que estava na ponta da minha língua… Ah! Que sensação angustiante! “Eu que ia dizer isso”, nada me dói mais. Minto, claro que dói mais roubar não só a palavra, mas toda a frase, todo o sentido e no pior dos casos, toda a história, o enredo inteiro. Inteirinho. Aquela coisa assim, “eu já tinha pensado nisso”. E quando é justo no dia que eu pensei, então? “Nossa, tive uma ideia tão legal…” e quando você vê, está lá, escrita em um jornal de quinze anos atrás, que você acabou de ler no escritório daquele médico novo da sua mãe. Sempre esteve lá e você pomposo achando que tinha criado um pensamento novo, mas roubaram de você quinze anos antes mesmo de você pensá-lo e chamá-lo de seu. Eu que senti isso, eu que pensei nisso, eu que elaborei! Essas palavras são minhas, eu usei elas primeiro. Pode parecer infantil, mas é a verdade. Tudo o que eu tenho, que realmente é meu, são os pensamentos e as ideias que guardo pra mim, as coisas que não disse e que talvez nunca vá dizer, os sentimentos que nunca expressei, e vê-los ali, impresso em papel jornal amarelado, é descobrir que roubaram algo diretamente da sua alma, e você nem reparou.

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Um pouco de contexto, sim? Ninguém sabe disso, porque poucas pessoas se importam e, creio, nenhuma delas tem o contexto. Sou um grande fã de Neil Gaiman, mas não pelo motivo que pensam (e quais seriam eles?). A verdade é muito mais narcisista. Sempre vi uma semelhança incrível entre o trabalho dele e o meu… Bem, não o trabalho, mas a ideia por trás do trabalho, tendo em vista que ele escreve e se expressa infinitamente melhor. E isso é SÉRIO. Eu era o Rei no Castelo bem antes de ler Sandman e ver o Sonho no Sonhar, e as semelhanças no contexto inteiro são incríveis. Mas divago, o contexto do pensamento acima é bem mais recente, diga-se de passagem: hoje (15/12/2013). Fui escrever algo nesta madrugada insone de segunda-feira e decidi, antes, ver um episódio de Dr Who, que acabou sendo o episódio premiado, escrito por Neil Gaiman, que me motivou a ver a série inteira, e que juro, nunca tinha visto antes. De repente, no meio do episódio, escuto uma frase, um pensamento solto que era uma das ideias centrais do episódio e era exatamente sobre aquilo que eu pretendia escrever! Exatamente a mesma ideia! Escrita à anos atrás… Se isso não é um roubo, não sei o que poderia ser….


Sandman

Lhes apresento Sandman

Sandman é uma obra-prima.
Entenda.
Obra-prima.

“Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.”

Foi publicado de 1988 a 1996 e conta com 75 edições. 75 lindas edições.

Escrita por Neil Gaiman, consagrou o autor como um mestre na arte dos quadrinhões, e é vista como uma das séries mais cults, com tantas referências à outras obras que seria insano citar as diversas obras de shakespeare, de goethe, as várias releituras de vários mitos e histórias.

Porque Sandman é isso. Uma história sobre histórias.

A história de Sonho.

O diferencial é que Sonho, nesse caso, é um personagem. Esse Sonho é um dos sete perpétuos, uma personalização de um aspecto do universo, a capacidade de sonhar coisas boas ou ruins que toda criatura viva possui.
Ele também pode ser conhecido por Sandman ou Morpheus em diversas fábulas no universo da HQ, é o protagonista na maiora das histórias, então tente ver o quadrinho como um emaranhado de histórias que se relacionam de diversas maneiras diferentes, com diversos ângulos e pontos de vista diferentes, pois a HQ parte do príncipio que Sandman e o seu aspecto (o sonho) é a origem de todas as histórias, é o suprassumo da imaginação humana: Portanto contar a história de Morpheus é contar diversas histórias.

Os outros perpetuos, Destino, Morte, Desejo, Destruição, Desespero e Delírio também contam com algumas histórias nas quais protagonizam, assim como os diversos personagens que acompanham O Senhor dos Sonhos em suas aventuras no mundo mortal (ou não), como o corvo reencarnado Mathew ou Lucien, bibliotecario de uma biblioteca de livros que os escritores pensaram em escrever, mas jamais escreveram.

Enfim…

Gaiman não criou um quadrinho, ele REINVENTOU a realidade.

Eu não preciso dizer que sou completamente subjetivo no que se diz a respeito de Sandman, é o quadrinho com que mais me identifico. Mas veja bem, a influência dele no que eu escrevo é mínima, foi irrisória, por que SEMPRE esteve lá.

Acho que não existe personagem com que eu me identificasse mais do Morpheus, o senhor de Sonhar.

Uma figura sombria, de cabelo revoltoso, pálido, magro, extremamente comprometido com seu trabalho e romanticamente frustrado. Poderoso ao mesmo tempo frágil. De temperamente difícil e incompreendido.

Várias cenas nesse HQ são clássicas, como o encontro de Sandman com sua irmã mais velha e super cool Morte, ou a batalha de Sandman contra um demônio, ou ainda quando Sandman ‘resolve’ enfrentar Lúcifer no inferno.

Sandman (que pode ser traduzido como “Homem de Areia”) vem do mito que existe uma criatura que visita as crianças a noite espalhando areia em seus olhos para fazê-las dormir. Esse personagem (Sandman) existe MESMO no folclore inglês, e algumas de suas facetas (como Morpheus, grego) também existem. Aliás, a imensa maioria das criaturas citadas nas HQ existem nos folclores de diversos países, e a genialidade de Sandman não é só criar o personagem e coloca-lo num mundo “concreto” e sim relacionar todos esses mitos de uma maneira que faça sentido de alguma forma insana.
Sem contar que Sandman revolucionou o conceito de Morte. 😀