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Uma história de Traição II

A primeira coisa que eu fiz foi o que eu sempre faço primeiro: pesquisar.
Me enfiei em sites pornôs gratuitos e pagos, procurando os vídeos mais inescrupulosos possíveis. Uma mulher sendo estuprada em um metrô. Um marido obrigando sua mulher a ficar com seu melhor amigo. Pornografia infantil. Sadomasoquismo do mais extremo. Voyeurismo. Exibicionismo. Vídeos amadores e profissionais. Quando eu achei que não era o suficiente, fui ver ao vivo. Existem clubes para todos os tipos de tarados nas capitais e eu felizmente morava em uma imensa capital.
Me enterrei nesse tipo de sujeira, imundice e perversidade por duas semanas que bem poderiam terem sido dois anos. Você não acreditaria. O que sobrou de mim no final? Nada, provavelmente. Somente um personagem com uma maldade em mente, e uma ideia.
Nessas duas semanas eu me fiz de bobo. Disse para minha mulher que tinha uma ideia ótima para um livro e que eu precisava fazer muita pesquisa, o que não era de todo mentira. Como eu esperava, ela resistiu bem menos à ideia de eu me ausentar novamente. Pude vê-la até sorrir quando disse que no final do mês eu viajaria de novo. Precisei me convencer de que não senti nada.
Enquanto eu deixava eles se preparem para o show, eu preparava o palco. Minha ideia era simples, praticamente um clichê: precisava de um salvo conduto. Algo que eu pudesse usar para que, não importasse o que acontecesse, ela não me deixasse.
Então tranquilamente entrei em sites de compra chineses e pedi um conjunto de câmeras wireless para serem entregues com urgência. Pagos com depósito.
Instalei as câmeras pela minha casa enquanto minha esposa não estava, verifiquei as conexões, testei a duração das baterias. Tudo tão perfeito que algumas, principalmente as que ficavam no quarto, filmavam em HD e outras filmavam no escuro.
Criei uma conexão remota do PC em casa para meu notebook novo, comprado com esse propósito, seguro. Me instalei em um quarto de hotel e esperei o que eu sabia que aconteceria. Me forcei a sorrir.
O “demônio” entrou pela porta da frente da minha casa como eu sabia que faria. Ele sabe que eu sei, ele não vai tentar se esconder, muito pelo contrário. Tenho certeza de que eles nunca tinham ficado na minha casa. Agora a sugestão deve ter vindo dele. Ele quer me ferir mais, quer me destruir mais, quer me humilhar, quer que eu sinta o cheiro dele nos lençóis, no sofá, na casa inteira. Idiota, pensei.
Me forcei a assistir e quando doía demais, quando os gemidos eram muito altos, eu pensava: nada mais do que uma mulher ordinária e seu amante. Eu já não era o marido daquela mulher. Este havia morrido.
Devo dar crédito ao cafajeste, ele sabe como dar prazer a uma mulher. Coisas que nunca tinha visto minha mulher fazer, tons de voz que ela nunca tinha usado, gritos, berros, tapas, arranhões. Definitivamente coisas que eu nunca ouvi ela dizer. “Isso com certeza vai deixar meu trabalho mais fácil”.
Vejam bem, minha esposa sempre foi inocente, fiel e submissa. Sempre muito preocupada com a imagem dela e a imagem que os outros tem dela, com sua integridade. O que o cafajeste fez foi quebrar essa integridade, eu só vou terminar o trabalho.
Quando eles terminaram, eu liguei para uma amiga. Todo homem tem uma amiga safada, uma amiga atirada, e se o homem é fiel, como eu era, essa amiga puta sempre vai ambicionar esse homem, desejando ele pra si.
Pedi um encontro. Ela disse sim, com malícia.
Nos encontramos e eu expliquei a situação, basicamente, frio. Novamente, um personagem previsível quando se sabe qual persona ela é. Topou ajudar com a condição de que eu transaria com ela e ficaria devendo um favor e eu concordei absolutamente.
O passo a seguir era mais delicado.
Minha amiga puta teria de ser minha voz e minha atriz, minha testa de ferro, papel que ela aceitou com prazer indescritível. Eu confirmei que ela teria o prêmio dela da maneira mais deliciosa que ela poderia imaginar, e eu não estava brincando.
Voltei para casa no dia seguinte, tentando não sentir nojo e manter o papel de marido distante, mas os sinais eram tão claros! O embaraço dela, seus sorrisos escondidos, a maneira que a cama estava bagunçada, o cheiro, tudo. Ele realmente queria que eu soubesse. Bom, eu sabia.
Eu teria de ser cego para não ver. Talvez o pior erro da minha mulher foi achar que eu não prestava atenção nela e que eu não a amava mais. Até agora eu a amava e era justamente isso que me impulsionava. Eu reparava nos detalhes, sempre reparei. Nas unhas roídas, no cabelo bagunçado, eu sempre soube que para cada coisinha nela havia um motivo por trás que eu conhecia bem e eu não vi a traição antes porque não quis ver, era só… Impensável demais.
Me recuperei dos meus pensamento e ela me olhava assustada enquanto percebia que eu estava olhando para ela. Ela se cobriu e saiu do meu campo de visão e eu fiquei encarando o vazio, fingindo que não tinha visto as marcas de unha em sua coxa.
Eu disse que iria sair para ver meu editor, sorri e lhe dei um beijo. Complementei dizendo que, depois do meu próximo livro nós iríamos viajar juntos pra Holanda, que ela gostava tanto. Não precisei olhar o vídeo das câmeras pra saber que ela estava chorando depois que eu sai.

Uma hora depois que eu saí, enquanto ela preparava o almoço, a minha pequena agente da vingança ligou para ela comigo do seu lado. Ela falou exatamente o que escrevi para ela, com o exato mesmo tom que eu esperava que ela usasse – a poderosa a combinação de duas pessoas inspiradas e motivadas.
A ameaça saiu perfeita e eu pude ver as reações da minha esposa pelas câmeras, seu terror enquanto ela via o vídeo dela com o amante em seu celular. Minha amiga completou:

– Não procure as câmeras, não saia da sua casa, não se comunique com ninguém. Eu estou vendo você e em breve você vai receber uma visita.

Não me senti bem vendo seu terror e ansiedade. A verdade é que era exatamente o que eu esperava. Ameaçar expor seu caso para o marido fiel e apaixonado, para sua família, para seus amigos, no seu trabalho, impedi-la de se comunicar com qualquer pessoa enquanto espera algo, com certeza deixaria qualquer pessoa em frangalhos, e para minha mulher eram todos seus pontos fracos, sozinha, ameaçada e completamente indefesa contra uma enorme ameaça desconhecida.
Me vesti apropriadamente, máscaras de borracha, roupas pretas lisas, luvas. E tomei uma pílula de Viagra antes de entrar na casa, só para garantir.
Ela estava deitada, apática no sofá e se levantou muito rapidamente com o susto da porta se abrindo. Não poderia ser mais conveniente quando ela desmaiou, talvez pelo estresse e a pressão baixa.
Ela acordou amarrada na cama, uma série de brinquedos sexuais espalhados em volta dela, ela estava com uma mordaça que não a impedia de salivar. Quando ela acordou eu estava recebendo um belo de um boquete da minha amiga, só com o pau para fora da minha armadura de roupa negra. Ela se desesperou, gritou, se debateu e depois parou horrorizada quando eu gozei e minha companheira, também mascarada, engoliu.
Eu sorri por debaixo da máscara.

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Sempre bom deixar claro novamente, isto é uma obra de ficção.

 


Uma História de Traição I

“Eu comi ela”, me disse o bastardo maldito com um sorriso galanteador e eu juro que nunca três palavras doeram tanto, pois eu sabia que eram verdade. Quando ele me disse isso, um infinito de detalhes dos últimos dias invadiram minha mente, coisas que eu achei serem irrelevantes, coisas ínfimas que fogem ao seu contexto natural e por isso saltam aos olhos de um escritor experiente como eu. Tudo fez sentido. Todas as pontas soltas da trama que até então eu desconhecia se encaixaram perfeitamente e soube que era verdade.
Minha esposa estava muito sorridente quando retornei, porém seus olhos não se encontravam com os meus, ela já não procurava meus toques discretos, as poucas vezes que fazíamos amor eu não me sentia suficiente para agradá-la e eu culpava a minha ausência, que me deixava ansioso e a deixava carente, as vezes me parecia grossa como se estivesse irritada com algo mas sempre dizia que estava tudo bem e sorria. Ah, aquele sorriso! Eu devia ter visto a tristeza e a culpa através dele como eu vejo agora…
“Eu comi ela”, essas palavras! Malditas sejam, por sua vulgaridade, por seu peso enorme, por seu significado e mais importante: pelas imagens que me trouxeram a mente, pois eu, como bom escritor que sou e há muito exerço o que amo como profissão, fui imerso em uma sequência de imagens e sensações no momento em que me encontrei sozinho. Eu não queria ficar sozinho, mas eu tinha que ficar sozinho, mas não sei se qualquer leitor é capaz de entender.
As cenas vieram a minha mente como uma torrente inesperada e eu estava completamente afogado pelas lágrimas que escorriam dos meus olhos e mesmo assim, eu podia ver claramente o que se passava, eu era o expectador de uma alucinação terrível que eu sabia ter acontecido em algum momento.
Soube que eles haviam se conhecido em um bar, então o cenário foi montado e eu estava sentado ao lado da mesa de amigos dela, onde o canalha acabava de ser introduzido, provavelmente amigo de uma amiga da mesa. Vi o sorriso dele para ela e a negativa dela em resposta, ela me amava e era digna e eu sei que não cederia ao primeiro sorriso sedutor.
O que se seguiu foi uma constante perseguição, ele sempre a procurando, ligando incessantemente nos horários que eu não estava em casa, nos momentos que eu não estava com ela, e ela disfarçava por que não queria me preocupar já que eu estava concentrado em um livro que estava escrevendo na época, imerso numa história de assassinato de um amante. Irônico, mas eu não pude sorrir. As cenas prosseguiram alheias a minha vontade, pois tudo o que eu queria era sentar em algum canto escuro e gritar a plenos pulmões, mas só pude ficar ali, deitado na cama chorando e sendo levado embora pelos meus pensamentos.
Ele deve ter sido insistente e sedutor por algumas semanas, e com certeza deve ter tido ajuda de alguma amiga que não gostasse de mim, ajudando com encontros nomeados como obras do destino e santificando aquele homem que deveria ser um demônio das camadas mais baixas do inferno.
Em algum momento, provavelmente enquanto eu estava fazendo a turnê de lançamento, ele se aproximou derradeiramente. Com ela sozinha, vulnerável e carente de atenção, uma pequena brecha com certeza se abriu. E ele aproveitou.
Pude ver enquanto eles se beijavam, ela hesitante no começo, mas cada vez mais sedenta e ansiosa. Seu corpo me traiu e se entregou a ele, enquanto a mente tentava ver uma imagem de mim que esvaia em meio aos braços e pernas cada vez mais desnudos e quentes. Agora, cheia de luxúria e carência, só o queria, pedia por ele, desejava-o mais do que qualquer coisa, e o arranhava a cada gemido, a cada grito contido e eu espectador disso tudo tentava fechar os olhos inutilmente, tapar os ouvidos, tentava não sentir o gosto, mas estava tudo dentro dos meus próprios pensamentos dos quais ninguém podia me salvar. Fui imaginando cada detalhe e observando a cena de vários ângulos, tentando tirar minha mente daquele lugar imundo mas não consegui, o costume de um escritor que usa muito a imaginação.
Por fim, ao ultimo som de prazer, o último grito, ela foi preenchida de culpa e angustia, mas o diabo a consolou e a convenceu de que eu jamais saberia, de que eu permaneceria ignorante e talvez até de que eles pudessem se ver de novo, quando eu viajasse mais uma vez, então ela jamais ficaria sozinha novamente, ninguém sairia machucado.
Convencida e cansada, ela provavelmente adormeceu em seus braços, aconchegada, enquanto ele sorria se vangloriando de seu triunfo.
Quando eu retornei da viagem, ela estava feliz e radiante por que eu estava de volta, por que não precisava mais me esperar. Ela estava infinitamente mais fogosa e eu não fui capaz de satisfazê-la, ela queria uma emoção nova que experimentara e eu não podia proporcionar: Se entregar ao proibido.
Sei que ela me amava ainda, que ela estava realmente feliz de me ver de volta, que seu sorriso era sincero a cada vez que me via, mas secretamente ela desejava algo que não era eu, algo que não podia ser eu, que ela queria sinceramente que fosse, mas não era. Não mais.
Fora das minhas lembranças eu estava encolhido na cama, soluçando como uma criança, mas tentando manter o pouco de dignidade que imaginar involuntariamente aquelas cenas me deixaram.

Será este era o fim da história? Não, um bom livro não terminaria assim…
Eu terminaria com ela para que ela corra aos braços dele, se escravizar em troca da ilusão de um porto seguro? Ou continuaria com ela, observando a cada dia a minha figura no espelho murchar diante de súplicas de amor que não posso mais atender?
Nenhum dos dois, obviamente. Enxuguei as lágrimas, limpei meu nariz e me olhei no espelho.
Se eu fosse escrever essa história, o protagonista com certeza veria o lado mais negro de sua alma ao se olhar no espelho neste exato momento. Meu rosto refletido sorriu. E eu não chorei mais.

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Antes que me perguntem, esse texto não tem nenhuma ligação com a realidade. Só fruto de uma mente doentia. 🙂


Finais

Sempre fui fã de histórias e contos de todos os tipos, não importando a abordagem artística. Filmes, quadros, músicas, livros, toda arte conta uma história, revela um segredo simples mas que somente o artista pôde ver, como uma dor oculta do mundo de um quadro, como uma trama bem elaborada nas páginas de um livro. Se fossem bem feitas e escritas, melhor.
Mas como bom apreciador não da arte, mas da história que ela mostra e expressa, conta, eu tenho minha preferência ou gosto particular.
Toda história tem um começo, meio e fim, mesmo que não seja uma história cronológica ou particularmente clássica.
Se apresenta a idéia, ou a situação.
A desenvolve usando as impressões do criador.
Concluí-se algo.
Você pode, e provavelmente vai me questionar, mas se pensar bem nisso verá que tenho razão. Todas as produções artísticas tem essa lógica básica, faz parte do que entedemos por ‘produção’. Claro que você utilizar diversos estilos de expressão, figuras, linguagens, entre tantos outros artíficios para maquiar e deixar mais bela qualquer uma dessas três partes, mas meu gosto particularmente seco e árido, averso à maquiagens de qualquer tipo, se concentra em algo que na maioria das vezes as pessoas parecem ignorar – embora eu creia que o inconsciente delas preste bem atenção nisso.
O final. Alguns chamam de “a moral” da história ou a conclusão.
É ele e quase que somente ele que eu espero e aguardo ansiosamente, tentando absorver o que eu puder pra que no final eu entenda e compreenda a mensagem completa, capture qualquer sinal ou simbolo que o artista quis passar. É o final que muda a minha vida, é ele que me convence ou não, é ele que é a parte que eu mais gosto numa história.
Se trata daquela emoção de que somos trazidos de volta à nossa realidade, aos nossos pensamentos, depois de imersos em uma mente alheia com idéias alheias, é o realinhamento da minha mente depois de absorver tanta coisa nova.
O filme pode ser ruim em sua idéia inicial, pode ser de um desenvolvimento medíocre e modesto, mas se o final for verdadeiramente denso eu sentirei falta da história, assim como se o final for fraco, não importa o que aconteça, o filme só será uma decepção pra mim.
Digo com segurança que o final diz tudo da história, e além dela.