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O Rato

Lá estava eu, escrevendo, como sempre, e um barulho me incomodava. Sempre este barulho. No começo, pensei que o estivesse imaginando, mas agora eu duvidava. De alguma maneira, tal barulho existia alheio a minha vontade onde nada poderia existir se eu não desejasse que existisse. Ergui uma sobrancelha e apurei os ouvidos: estava vindo de trás do sofá. Num pulo, agarrei o sofá e o virei, mas não encontrei a origem do tal som, então passeei pelo quarto, ouvidos ainda atentos e o escutei de novo atrás de uma pilha de livros encostados na perna de uma mesa e dessa vez me aproximei silencioso. Já havia feito isso dezenas de vezes, não importava como me esgueirasse, pulasse ou me atirasse, o som fugia. Era rápido demais. Ou não existia e eu o estava imaginando. Mas a questão é: Se eu o imaginava, e eu era capaz de criar qualquer coisa que eu imaginasse naquele lugar que era MEU, ele não se criaria? Arrumei o sofá em seu lugar e sentei, pensativo. Examinei de longe uma coisa que chamou minha atenção, os livros que eu derrubara para constatar que o som não estava vindo deles estavam todos marcados com pequenas mordidas nas capas e nas folhas. Fiquei chocado. Me aproximei e analisei o que pareciam ser mordidas de um roedor. Talvez um rato? O resto de alguma poesia que fora escrita a muito tempo? Como teria parado ali? Sentei de novo no sofá. Era desconfortável, estava ficando velho, mas me trazia muitas recordações para jogá-lo fora, mas já era hora. Ratos, quem diria. Tirei as almoçadas pensando em usá-las no novo sofá que eu fosse trazer e para meu espanto ali estava um enorme buraco que exalava um certo mal-cheiro, iluminei seu interior com uma antiga lanterna e vi um rato muito gordo, que parecia estar sofrendo e cansado. Provavelmente tinha feito um enorme esforço para se enfiar pelo buraco pequeno de baixo do sofá, ofegando da provavel corrida que tinha feito para fugir de mim. Fiquei intrigado. Desfiz o sofá e o rato permaneceu, tentando se afastar de mim, mas estava muito exausto e eu sorri triunfante, embora confuso e curioso. O rato não desaparecia por mais que eu desejasse que se fosse e o que poderia ser isso? Aqui era o reino onde eu imperava, um lugar que não existia para onde eu fugi quando minha antiga morada foi destruída por um coração partido. Eu havia criado este lugar do nada, da não-existência. Teria vindo comigo, este rato? Sobrevivido como eu? Teria vivido das minhas poesias? Dos meu livros e contos? O rato soltou um guincho de dor e tive a impressão de que sua barriga se inchara um pouquinho mais, mas afastei o pensamento, pois de repente ele pareceu desfalecer. Ousei me aproximar um pouco, mas recuei quando vi, novamente, sua barriga inchar um pouco mais. Tive a leva impressa de que ia explodir quando… Poff, explodiu. Fui invadido por cores e sons em uma turbulência violenta de imagens passando muito rápido. Senti sabores que havia esquecido com uma intensidade que poderia deixar um homem louco, vi cores que não existiam, soterrado por imagens e palavras que lutava para ocupar um espaço. Fiquei espremido entre sons que se gritavam. Violentado por toques e arrepios e dores inimagináveis, agarrei meu próprio corpo em uma tentativa desesperada de me proteger: grande erro. Aquela realidade se aproveitou de minha fraqueza para tomar todo o lugar e eu fechei os olhos para não ver meus livros serem devorados pela matéria que precisava de espaço para existir. Resisti por que era eu. Recobrei a consciência em um Bosque que eu conhecia muito bem. Eu nascera ali. Acompanhei civilizações crescerem e morrerem através de eras que passavam em minutos, vi arvores crescerem e estas eram mais antigas que as sementes que as geraram, mas nada destas coisas estavam ali naquele momento. Tudo deserto, nada além de um bosque. O bosque da solidão. Me lembrei de repente. O rato comeu o retrato que sobrara do reino que antes era a minha casa. O rato que sobrara. E agora, de alguma maneira, o reino voltara a existir a partir daquele rato, a partir daquele resto, daquela lembrança irrisível. Da sobra.

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A Arte de Sonhar (Segundo Fernardo Pessoa e Dummond)

Primeiro: Eu sei que eu prometi post’s a cada dois dias, mas estava ocupado atualizando umas informações daqui mesmo, que vocês podem ver em “Galerias” e vai haver MUITAS outras atualizações assim que a minha primeira ressaca passar…

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Até lá, contentem-se com isto aqui:

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A Arte de Sonhar (Segundo Fernardo Pessoa e Dummond)

em “As Artes”

Rafael Rabelo

Sou sempre dois ou três nas minhas opiniões, me apoio, me discordo e me ignoro, sou português e brasileiro, sou homem de sonhar e de tentar realizar o sonho, posto que sonho é, por definição, inalcançável, mas não de certo modo, intentável.
Podemos contradizer-nos e alcançar um sonho, sonhando-o ainda. Deixemos de lado o mérito de “Como sonhar”, pensemos no porque sonhar.
-Então, por que sonhas? Digo eu a mim.
-Sonho porque sinto necessidade do sonho, sem ele me sinto vazio e frio. E tu? Porque sonhas?
-Ora, deixa de lado o sofismo, que somos ambos mesma linha do pensamento. (Há aqui uma pausa) Sonho porque quero algo que satisfaça meu orgulho. – Respondo-me.
-Ah tens então um orgulho escondido por detrás do sonho?
-Claro que tem, não sonhamos senão com intuito -ainda que desesperançado- de realizar o sonho, realizar algo grandioso é então, de fato, motivo de orgulho e o orgulho se procura, como sabemos ambos.

Resulta que todos sonhamos por realizar o sonho, e as vezes nem nos importa o que seja, o importante é realizar, mas há quem saiba sonhar e nisso se vence, não se “engana” se enganando, sonha coisas impossiveis o suficiente pra que o sentimento que vem do sonho seja algo absurdo e não se sinta impelido a realiza-lo.

O sonho. Ele, pra mim, é simplesmente desejar algo imaginário. Simples, não? Mas eis o grande mal e o grande poder da humanidade, tentar tornar o imaginário real.
Simplesmente se sonho uma maçã, não haverá no mundo maçã que possa ser igual e se um dia encontro uma queira, já não é mais sonho e tento agora obter outra coisa.

Verdade que o sonho perde seu sentido quando é realizavel, mas nunca o é, verdadeiramente.
Se sonho um amor, ir atrás desse amor só me fará ignora-lo, caso o encontre e se um dia encontro esse amor do jeito que queria, me parece fosco diante do que sonhei ou ainda perde o brilho quando percebo que o tenho agora, realizado.

Na maçã, se sonhei com ela, me satisfaço e esqueço-me enquanto digiro-a. Eis que pra evitar tal frustação, sonhamos coisas impossiveis, como eu disse, ou coisas bem pequenas, do cotidiano, que posso sonhar a vontade e não terei dor ao vê-la partir em sonho, desfocando-se.

Mas que fazer com o sonho, quando se realiza? Desfruta-lo, me dirão uns. Sonhar outros, me dirão outros ainda. Mas se é para desfrutar o sonho, por que simplesmente não desfrutar o sonhar, ao invés de matar o sonhar, trocá-lo por objetivar e gozar do sonho realizado?

E por que Essa-Divindade-Suprema-Que-Desconheço-O-Nome sonhar vários sonhos, se posso gozar infinitamente uns poucos, vendo-lhes a beleza e a poesia e vivendo-os melhor e não realizando-os, talvez, mas simplesmente sonhando.

E isto é digno de Fernando Pessoa, que diz em seu “Livro do Desassossego” que não devemos tentar realizar o sonho, já que isto é algo intimo e subjetivo o suficiente pra ser impossivel de ser realizado.

Porém, Drummond sonhou uma pedra, Sonhou uma Lua-Satélite, sonhou bundas, seios e sexo e toas essa coisas-comuns. Há como realiza-las, com certeza, mas fez disso objetivo? Por acaso planejou o sexo? Ou sonhou com ele depois de consumado?

Drummond foi um poeta sonhador quando sonhava algo tão fugaz que nem se percebia quando o sonho se realizava.

Sonha teus sonhos e faz dos teus objetivos coisas pra serem objetivadas.

Faz daquele exercício um objetivo, faz daquela mudança de jeito um objetivo, faz largar do vicio um objetivo! Mas não objetiva o amor! Nem a profissão (Naturalmente sonhada), nem a mulher, nem a casa ou país. Isto é a arte de sonhar.

Sonha tua esposa quando olhares pra ela ao luzir da lua, sonha teu emprego de Soberano do Mundo, que é impossivel. Teremos então mais Drummond’s e mais Pessoas no mundo, o que o tornará deveras mais agradável e mais comum a Arte de Sonhar.

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Tá ae Daniel, mais uma “Arte”, rsrsrs

Tou deixando elas pra quando não tiver mais NADA pra publicar…

Bom, talvez eu esteja me mudando pra Londrina nessa segunda-feira, então talvez eu não publique nada nessa semana, nem na próxima… Talvez. Não sei ainda, depende de quando instalarem internet lá e tudo mais.

Recomendo aos Leitores Assiduos (tá, exagero, eu sei…), como o Daniel, o Les, a Yv, a Emblemática, a Poetriz, a Taís, a Canela (que eu sei que anda sem tempo, entendo completamente), a Lyani, a M.Luísa Adães e a Oriona (que anda meio sumida, mas eu tb ando então eu entendo) a ler as alterações que eu fizer nas minhas páginas, que prometem ser mto bons e a ler tb uns post’s mais antigos que não tenham lido ainda.

Prometo postar coisas quentes (ui) quando eu voltar!

Abraços!

Au revoir!

“Vou-me embora pra Londrina
Lá sou amigo da Fer
Lá tenho a faculdade que quero
na cidade que escolhelerei.”

– Trecho de um poema infame que não escrevi, parodiando Vou-me embora pra Pasárgada, de Manuel Bandeira


Poema da Desnecessidade

Rafael Rabelo

não é preciso ler poemas
não é preciso escreve-los
não é preciso fazer exercícios
não é preciso ficar sozinho
desnecessário saber disso

não é preciso ter amigos
reais, virtuais, imaginários
não é preciso saber chorar
todos choram, exagerados
desnecessário ter arte na alma

não é preciso ler Drummond
não é preciso saber das coisas
não é preciso fazer ter paz
não é preciso saber lutar
Desnecessario estudar mais

não é preciso ser sábio
não é preciso levar boa vida
(só se precisa de dinheiro)
não é preciso meios, só fins
desnecessário tê-los

não é preciso casar ninguém
não é preciso se apaixonar
não é preciso encontrar nenhum
grande amor ou paixão
Desnecessário é amar.

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É preciso fazer alguma coisa.


Ahh, Drummond, Drummond!

Tem sido os dias de Drummond.

Postado pela doce e adoravel Yvanna!

Beijos a Todos!


Meu Melhor Amigo.

POEMA DAS SETE FACES

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

(Carlos Drummond de Andre em “Alguma Poesia”)

Ao desafio proposto pela Canela.

E deixo claro que é honra ter um poema de Drummond escolhido por mim em seu Blog, minha Doce Canela! E que o poema que escolho é o maior em sentidos, tanto pra mim quanto para Drummond, creio.

Beijos e teadoro (parafraseando a Canela, que parafraseou Manuel Bandeira)

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Drummond é meu Mestre, é meu Pai, meu Mentor, meu Melhor amigo de infância… Lia eu Drummond e nem sabia. Achava lindo e não entendia. Pois agora que entendo (ou julgo entender) já não é mais lindo. É algo sem palavras. É a alma das palavras em cada poema.