Uma História de Traição I

“Eu comi ela”, me disse o bastardo maldito com um sorriso galanteador e eu juro que nunca três palavras doeram tanto, pois eu sabia que eram verdade. Quando ele me disse isso, um infinito de detalhes dos últimos dias invadiram minha mente, coisas que eu achei serem irrelevantes, coisas ínfimas que fogem ao seu contexto natural e por isso saltam aos olhos de um escritor experiente como eu. Tudo fez sentido. Todas as pontas soltas da trama que até então eu desconhecia se encaixaram perfeitamente e soube que era verdade.
Minha esposa estava muito sorridente quando retornei, porém seus olhos não se encontravam com os meus, ela já não procurava meus toques discretos, as poucas vezes que fazíamos amor eu não me sentia suficiente para agradá-la e eu culpava a minha ausência, que me deixava ansioso e a deixava carente, as vezes me parecia grossa como se estivesse irritada com algo mas sempre dizia que estava tudo bem e sorria. Ah, aquele sorriso! Eu devia ter visto a tristeza e a culpa através dele como eu vejo agora…
“Eu comi ela”, essas palavras! Malditas sejam, por sua vulgaridade, por seu peso enorme, por seu significado e mais importante: pelas imagens que me trouxeram a mente, pois eu, como bom escritor que sou e há muito exerço o que amo como profissão, fui imerso em uma sequência de imagens e sensações no momento em que me encontrei sozinho. Eu não queria ficar sozinho, mas eu tinha que ficar sozinho, mas não sei se qualquer leitor é capaz de entender.
As cenas vieram a minha mente como uma torrente inesperada e eu estava completamente afogado pelas lágrimas que escorriam dos meus olhos e mesmo assim, eu podia ver claramente o que se passava, eu era o expectador de uma alucinação terrível que eu sabia ter acontecido em algum momento.
Soube que eles haviam se conhecido em um bar, então o cenário foi montado e eu estava sentado ao lado da mesa de amigos dela, onde o canalha acabava de ser introduzido, provavelmente amigo de uma amiga da mesa. Vi o sorriso dele para ela e a negativa dela em resposta, ela me amava e era digna e eu sei que não cederia ao primeiro sorriso sedutor.
O que se seguiu foi uma constante perseguição, ele sempre a procurando, ligando incessantemente nos horários que eu não estava em casa, nos momentos que eu não estava com ela, e ela disfarçava por que não queria me preocupar já que eu estava concentrado em um livro que estava escrevendo na época, imerso numa história de assassinato de um amante. Irônico, mas eu não pude sorrir. As cenas prosseguiram alheias a minha vontade, pois tudo o que eu queria era sentar em algum canto escuro e gritar a plenos pulmões, mas só pude ficar ali, deitado na cama chorando e sendo levado embora pelos meus pensamentos.
Ele deve ter sido insistente e sedutor por algumas semanas, e com certeza deve ter tido ajuda de alguma amiga que não gostasse de mim, ajudando com encontros nomeados como obras do destino e santificando aquele homem que deveria ser um demônio das camadas mais baixas do inferno.
Em algum momento, provavelmente enquanto eu estava fazendo a turnê de lançamento, ele se aproximou derradeiramente. Com ela sozinha, vulnerável e carente de atenção, uma pequena brecha com certeza se abriu. E ele aproveitou.
Pude ver enquanto eles se beijavam, ela hesitante no começo, mas cada vez mais sedenta e ansiosa. Seu corpo me traiu e se entregou a ele, enquanto a mente tentava ver uma imagem de mim que esvaia em meio aos braços e pernas cada vez mais desnudos e quentes. Agora, cheia de luxúria e carência, só o queria, pedia por ele, desejava-o mais do que qualquer coisa, e o arranhava a cada gemido, a cada grito contido e eu espectador disso tudo tentava fechar os olhos inutilmente, tapar os ouvidos, tentava não sentir o gosto, mas estava tudo dentro dos meus próprios pensamentos dos quais ninguém podia me salvar. Fui imaginando cada detalhe e observando a cena de vários ângulos, tentando tirar minha mente daquele lugar imundo mas não consegui, o costume de um escritor que usa muito a imaginação.
Por fim, ao ultimo som de prazer, o último grito, ela foi preenchida de culpa e angustia, mas o diabo a consolou e a convenceu de que eu jamais saberia, de que eu permaneceria ignorante e talvez até de que eles pudessem se ver de novo, quando eu viajasse mais uma vez, então ela jamais ficaria sozinha novamente, ninguém sairia machucado.
Convencida e cansada, ela provavelmente adormeceu em seus braços, aconchegada, enquanto ele sorria se vangloriando de seu triunfo.
Quando eu retornei da viagem, ela estava feliz e radiante por que eu estava de volta, por que não precisava mais me esperar. Ela estava infinitamente mais fogosa e eu não fui capaz de satisfazê-la, ela queria uma emoção nova que experimentara e eu não podia proporcionar: Se entregar ao proibido.
Sei que ela me amava ainda, que ela estava realmente feliz de me ver de volta, que seu sorriso era sincero a cada vez que me via, mas secretamente ela desejava algo que não era eu, algo que não podia ser eu, que ela queria sinceramente que fosse, mas não era. Não mais.
Fora das minhas lembranças eu estava encolhido na cama, soluçando como uma criança, mas tentando manter o pouco de dignidade que imaginar involuntariamente aquelas cenas me deixaram.

Será este era o fim da história? Não, um bom livro não terminaria assim…
Eu terminaria com ela para que ela corra aos braços dele, se escravizar em troca da ilusão de um porto seguro? Ou continuaria com ela, observando a cada dia a minha figura no espelho murchar diante de súplicas de amor que não posso mais atender?
Nenhum dos dois, obviamente. Enxuguei as lágrimas, limpei meu nariz e me olhei no espelho.
Se eu fosse escrever essa história, o protagonista com certeza veria o lado mais negro de sua alma ao se olhar no espelho neste exato momento. Meu rosto refletido sorriu. E eu não chorei mais.

.

.

.

Antes que me perguntem, esse texto não tem nenhuma ligação com a realidade. Só fruto de uma mente doentia. 🙂


Ressurgir do Rei

O céu negro de tempestade deixou escapar um raio de luz, que tocou a grama em um morro perto do castelo.

Um evento efêmero, dirão uns, mas não ali onde quase tudo já havia morrido e onde quase nada mais existia. As pessoas eram pobres e suas coisas eram frágeis, seus lares, sombrios, e seus pastos de grama rala e fraca. O castelo, outrora esplendoroso, não era mais do que um monte de pedras sujas e cobertas de limo mau-cheiroso por centenas de anos e no centro do salão principal, nada mais do que espaço retangular delimitado por esboços de paredes de rocha semi empilhadas, um esqueleto sentado em um trono, não um Rei.

Por isso, a grama silenciosamente agradeceu ao raio de luz que tão arduamente lutou para tocar o chão, e o negrume do céu empalideceu com tal visão. Naquele exato lugar, nasceu uma flor. Não muito grande, não muito bonita, mas ainda assim uma flor.
E uma flor muito vaidosa e corajosa. Cresceu até onde pôde e se esforçou até onde podia, sem poder se mover e utilizando daquele solo pobre e estéril.
Uma menina, passando descuidada por este lugar evitou por pouco a tragédia de pisar em tal flor diminuta, no último instante, reparando-a com curiosidade. Apesar de tudo que significava não chamava muita atenção dado o seu tamanho.
A menina colheu a flor e a cheirou e vendo quão cheirosa era, levou-a consigo para brincar. A corajosa menina foi para o castelo pois os meninos não queriam brincar com ela. Queria trazer a coroa do rei morto para mostrar pra eles que podia, que era corajosa e digna, mas se esqueceu do desafio, completamente, maravilhada com a flor.
Começou a procurar por mais daquela planta estranha – ela era jovem e jamais havia visto uma flor, somente as secas que cresciam em volta de sua vila – e queria mostrar várias para seus pais. Mas antes de continuar procurando deu de frente com o trono real e sentado nele o antigo rei com sua coroa, e com isso se lembrou de seu intento e caminhou vagarosamente em direção à figura esquelética.
Ainda vestia alguns trapos mas quase não havia carne em seus ossos e estava sentado como um verdadeiro rei, pomposo apesar de decrépito. A menina caminhou em direção ao trono e teve muita pena do Rei, que era retratado em vários poemas de sua vila como grandioso e heroico.

Achou correto prestar uma homenagem ao rei colocando sob seu colo a pequena flor. Não estava assustada pois estava em um local aberto, bem iluminado e podia ver sua vila morro a baixo, e além de tudo porque era verdadeiramente corajosa. Fez aquilo por respeito, talvez, e se ajoelhou em frente do Rei e recitou um poema muito conhecido, que se referia ao rei morto. (aqui)
Ao erguer os olhos, ela congelou.
A flor, ao perceber onde estava soube imediatamente o que fazer, e com tremendo esforço cedeu ao rei um pouco da luz que havia lhe dado a vida e o Rei não poderia ignorar tal sacrifício, mesmo morto.
O Grande Rei recolheu a flor, sorriu amavelmente e olhou em volta. Estava inteiro, vivo e limpo, sem um arranhão ou cicatriz. Estava novo. Não poderia dizer que esteve morto, apesar de suas roupas continuarem em trapos dignos de um morto. Ele fitou a flor por um tempo e agradeceu a ela, que, para surpresa da menina, pareceu honrada. Então desceu do trono, abaixou próximo a menina e lhe estendeu a flor, colocando-a em seus cabelos.
A flor lhe acariciou os cabelos sujos e disse em voz alta três vezes: vida longa ao Rei.
Por que o rei estava vivo de novo.
Na última viva da flor, a menina a acompanhou. Vida longa ao Rei. Fez sol de novo no Reino.


Por causa da Laura

Eu tento ser feliz, juro que tento, mas Laura não deixa. Laura me mastiga com sua indiferença casual e seus olhares reprovadores. Ela não permite que eu seja feliz.
Muito embora ela mesma tenha mudado e se permitido felicidade, como uma mariposa que saiu de uma lagarta. Não sei como ela fez. Não quero saber.
Ela segue atrás de mim em sonhos que me escapam ao despertar, mas que de alguma forma sei que eram sobre ela, como uma sombra, minha sombra, ela se arrasta atrás de mim incessantemente, ou talvez seja só coisa da minha cabeça como ela disse quando eu achei que a vi em uma loja qualquer no shopping com um cara qualquer. Se ainda não estivesse sozinho, seria melhor, eu acho, mas jamais terei certeza, pois sei que estarei sempre sozinho apesar de Laura sempre estar comigo.
Eu seguro um pensamento malicioso por um segundo, mas ele escapa.
Eu sorrio, mas não de felicidade, e sim de puro desdém por mim mesmo. Eu sigo a trilha e Laura me segue.
Mas Laura é feliz longe de mim e não me deixa ser. Está contente enquanto eu estou aqui definhando diante de uma prostituta e uma garrafa de vodka barata dessas que ficam muito boas com sucos de saquinho, mas estou divagando. O grande problema é a Laura. Ela se permitiu felicidade e me esqueceu. Ou antes ainda, nunca se lembrou de mim.
Vou cambaleando e pensando no pobre rapaz que estava com ela antes dela estar comigo. Que destino infeliz ele teve. Para sempre amigo dela, até depois do término derradeiro, para sempre destinado a compartilhar de sua felicidade, sem nunca fazer parte. Um destino muito mais terrível que uma vida de álcool e filosofia barata de banca de jornal e livretos de dez reais, pois pelo menos esses te dão um significado. Ele escolheu ser assombrado, e bom, talvez ele seja feliz.
Eu choro em um riso torto, e Laura me segue por vielas escuras de bairros nada saudáveis, bairros que foram esquecidos e desprezados como eu. Me sinto como a sujeira da calçada que piso violentamente tentando me manter equilibrado. Um homem me aborda tentando por as mãos em meu bolso e eu sussurro em seu ouvido: “A Laura vai ver você, ela está logo ali atrás de mim…” e ele me olha surpreso tentando decidir se confia em mim ou em meu hálito de vomito e vodka. Imagino que ele tenha decidido que, independente da verdade, aquele roubo não valia a pena pois eu não tinha nada.
Isso mesmo, nada a não ser um fantasma que me segue por esquinas tortuosas de ruas estreitas. Ri daquilo. Ri com vontade. Ri tanto que meu estômago doeu e eu finalmente perdi o equilíbrio que me sustentava apesar de minha constante luta contra a gravidade. Cai em um chão áspero e machuquei o joelho e não parei de rir, minha respiração arfando descontroladamente. ‘Fui rejeitado até mesmo pelo ladrão’, pensei, e ri mais. Me lembrei de um episódio de um programa de TV o qual dizia que se podia morrer de tanto rir, e gargalhei mais ainda.
Meus olhos lacrimejaram e me cegaram e tudo o que eu podia ouvir era minha própria risada, a última coisa da qual me lembrava. E por fim, eu estava em casa e era de manhã e Laura não estava lá, nem nunca esteve.


Poema da poesia

De verso em verso, eu me recrio.
De canto em canto, me levanto.
Cada palavra doce
por pior que fosse
se encaixa serenamente
neste poema que não mente.

Me torna poeta novamente:
rimas toscas, rimas pobres
uma lira linda, lira nobre.
Me inspire, me renove!

Venha a mim, ó poema,
Tão ágil quanto os dedos o escrevem.
Irrelevante, por fim, é seu tema
É de mim que teus versos bebem.

Desenhe em mim tuas estrofes.
As palavras em ti me descrevem.
Teus erros pra mim, catástrofes.
Através de ti que os olhos veem.

Caminha comigo, meu velho amigo
Por tão bem conhecidos caminhos
O segredo sempre esteve contigo
Nosso final, um só destino.

Mareje meus olhos na despedida
Faça-me tossir, faça-me chorar
A partida, desde sempre, dolorida
Volte logo, poesia, a em mim morar
Das feridas, a pior sempre foi tua ida.


A História Não Contada

Mais uma história se perdeu, deixando de ser contada por mãos habilidosas que perderam o passo, que se distraíram deixando o momento passar e ela jamais poderá ser contada novamente, como uma piada que só faria sentido para ‘quem estava lá’, exceto que não havia ninguém lá. Tal história, portanto, jamais existirá, preenchendo um pouco mais a infinita biblioteca de livros jamais escritos. Ninguém saberá dela, nem mesmo o ingênuo escritor que a deixou perecer em meio àquela noite de sereno em que decidiu não escrever para não castigar as mãos frias. Talvez tal escritor sonhe com ela uma vez ou outra, talvez ela venha o assombrar como vítima de tão cruel assassinato, perseguindo-o pelos corredores escuros de sua mente já não muito sã, ou talvez ainda ela ecoe pela rua que a inspirou, junto com as vozes daqueles que ali também pereceram entoando um cântico fúnebre através das eras, mas a voz da história se sobrepujará a qualquer outra infeliz que a acompanhe, pois com a história morrem também todos aqueles que só viveriam através dela: pássaros, árvores, pessoas, crianças, e todo aquele mundo que por ela seria moldado e definido, definhou e nunca existiu.
Mais do que a morte de uma história, se trata de um genocídio – ou pior, pois não existe palavra para o fim abrupto de um universo.
O irônico é que, em se tratando de tal escritor de renome, como um deus mimado e perverso, se criará outra história, onde nela viverão outros e acontecerão diferentes eventos. Haverão outras histórias e à algumas ele se dedicará mais e à outras, menos, indiscriminadamente rascunhando e rascunhando, diversas e diversas possibilidades de vida antes de chegar àquela que julga ideal. Esta sobrevive. Para que? Tais poucas linhas? Um livro? Uma série? Um conto? À que preço! Ao preço de incontáveis realidades despedaçadas e literalmente jogadas no lixo, como um simples pedaço de papel, intermináveis meias-vidas de pontas soltas que não se amarram no final, erros que gritam em histórias esquecidas guardadas em gavetas pois tais erros eram simplesmente complexos demais para serem consertados. E ainda assim, porém, nada grita mais alto do que a história que jamais foi contada. Nada grita mais do que aquilo que poderia, mas não existiu.


Essencial Feminino

Segui por aquele caminho mais maluco e inesperado seguindo passos de nada nem ninguém. Meus pais me acharam maluca mas eu já tinha me acostumado porque no fim eu sabia que eles confiavam em mim. Estranho, por que nem eu confiava direito. Segui esse rumo porque esse rumo me escolheu, eu senti isso desde o começo. Pareciam que as escolhas que me faziam. Dei volta e mais voltas não por que era lógico mas porque eu me sentia insegura para continuar em determinados momentos e para ser sincera, me importei e não me importei.
Caminhei muito pouco embora para os outros, talvez principalmente para minhas amigas mais comuns, eu tenha já chegado além do imaginado com a faculdade e tudo mais, mas como eu disse antes, tudo me parece tão óbvio, tão certo.
Tive muita sorte ou segui os instintos certos? Difícil dizer. Talvez um misto doido dos dois.
Mas no meio disso tudo uma coisa é certa, sempre tive uma inveja dos homens… As coisas com certeza são mais fáceis pra eles! Eles veem o caminho, sabe? Eu passei minha vida inteira em um nevoeiro de desejos dominados pelos hormônios, que embaçava o caminho e me permitia ver com clareza só dois ou três passos a frente que eu sabia que eu com certeza devia tomar mas não fazia ideia de onde ia me levar.
E para me ajudar ainda, sempre os garotos errados, os homens errados e aquela maldita cortina que não combina com o sofá e que eu secretamente tenho dó de jogar fora.
No fim, tenho medo de ficar sozinha. Sei que pareço ser forte e independente, mas morro de medo do escuro. Fico apavorada. Quero dizer, na maioria das vezes. Existem alguns momentos que ele me acolhe como um amante gentil. Mas na maioria das vezes ele simplesmente me oprime, me cega e eu sinto como se perdesse todos os sentidos e todas as escolhas são as erradas e eu estou afundando no silêncio e no esquecimento.


Bruto Masculino

Sempre fui um homem simples, direto e reto, sem curvas. Tive várias oportunidades de me engajar em várias coisas e recusei todas porque tenho total ciência de que preciso de foco. Dependo dele. Respiro um punhado de ar por vez.
Uma coisa, depois outra. Um objetivo, depois outro. Sem olhar para trás, sem olhar para os lados. Para frente, sempre.
Acendi um cigarro outro dia e o vi queimar sem fumá-lo. Observei cumprir seu destino inutilmente e achei bonito: ele fez o que se propôs a fazer.
Em um mundo de coisas inesperadas, de máquinas de propósitos duvidosos e de mentirosos vestindo roupas bonitas, é ótimo saber que coisas simples ainda funcionam e que ainda existe um certo propósito a ser cumprido.
Meu trabalho duro não é mais o mesmo, minhas coisas favoritas já não estão mais a venda. Sou obrigado a olhar com desprezo para as lojas de música, para as locadoras, para os mercados (que se tornaram super e depois hyper) e principalmente para a TV, com seus shows fajutos de pessoas que batem em si mesmas como se fosse engraçado, olho seriamente por detrás dos meus óculos para filmes vulgares ou muito femininos ou simplesmente gays.
Caminho por trilhas obscuras e traiçoeiras, tentando me encaixar num mundo que teima em me rejeitar, clamando pelo novo moderno e por atualizações, enquanto eu teimo em propor minha maneira e meus antigos hábitos por que sei que estou certo, porque se não estiver, estarei indo em direção ao vazio e isso é algo que eu não posso suportar.
A morte me espreita a cada passo, a cada degrau vou ficando velho, vou ficando fraco, vou ficando ultrapassado por jovens que são mais eficientes e mais adaptados, por isso tento me impor e forçar meu modo para que todos falhem junto comigo, ou que eu tenha sucesso.
No final, estou balançando no precipício, tentando me agarrar à um apoio a minha direita, torcendo para que não exista outro pois não procurei e sou orgulhoso demais para procurar.