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Crônica 2

Rafael Rabelo

Eu acordei quando minha cabeça pendeu subitamente para o lado, batendo forte num cano de aço, como se ela já não doesse o suficiente. O cheiro forte de vômito e de conhaque me remetia a noite anterior, que me provocou um sorriso. Aquela foi uma ótima noite, cheia de strippers, alcool, sorrisos, cigarros e uma vaga lembrança de uma loira com quem havia flertado. Outro sorriso, pois me lembrei de que houveram beijos e caricias, logo ali no estacionamento.
Demorei 5 minutos pra perceber que meu carro não estava ali.
Eu lembro claramente que ele estava lá quando eu estava com aquela loira naquele beco escuro quando… Um enorme alívio. Meus amigos haviam levado ele pra casa, com algumas garotas, me pergutaram se eu estava bem indo embora de onibus mais tarde, e eu bebado como um vagabundo, concordei entre os beijos calorosos daquela loira.
O cheiro do vômito e a dor de cabeça eram quase insuportáveis e meus olhos ardiam por causa de alguma fumaça duvidosa, e lacrimejavam muito ainda.
Tou acostumando com essa vida de boemia e festas, e tudo isso por casa de uma mulher, já que até pouco tempo atrás eu era um rato de observatório, como meus amigos diziam, mas é aquele clichê: homem romantico se apaixona por mulher vadia, que o faz sofrer como um diabo e depois cai numa vida fútil e inútil.
Eu sorri uma terceira vez quando me dei conta de que estava no chão, perto de uma poça de vomito, fedendo a pinga e morrendo de dor de cabeça, mas estava feliz. Feliz, leve, tranquilo e sereno.
Tentei me levantar me apoiando em todos os lugares que podia, mas quase cai na caçamba de lixo e quando me estabeleci apoiado no mesmo cano que me acordou, olhei no relógio: três da manhã.
Cedo.
Olhei para o céu e procurei a estrela do norte e quando encontrei, sabia exatamente pra onde ir, seguindo para o norte até chegar na estrada e depois, para o leste, na direção da constelação de Escorpião, com essa latitude e longitude mas dependendo do horário eu teria que me guiar mesmo era pelo nascer-do-sol.
Então, tomei meu caminho sem olhar pra trás e tendo em mente que eu iria chegar em casa ao amanhacer ou mais tarde.
Caminhei por várias ruas tortuosas e escuras, olhando para o céu e me guiando pelos astros que eu conhecia tão bem e tão intimamente.
Conhecia melhor as estrelas que o coração de uma mulher, melhor que o coração de Laura que me deixou e fugiu com Caio. Culpa minha, que não a ouvi nem a tratei com a atenção que ela merecia e agora eu me destruia para me punir por isso.
E em minha divagação, quase esbarrei em um homem soturno que saia de uma praça bem arborizada e que admirava o nascer-do-sol. Me desculpei e ele torceu o nariz para o meu hálito e eu segui em frente, em direção ao leste agora.
E não é que é um belo nascer-do-sol, mesmo?

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E por fim, o monstro venceu a batalha e comeu a última parte de mim que ainda prestava.

O último resto de coração que eu havia guardado…


Crônica 1

Eu passeava pelo parque e já era tarde. Eu gostava de fazer isso, andar e caminhar entre as árvores a noite, sem as pessoas para poluir a paisagem e ainda ter a luz da lua como guia e apesar de ser um dia comum, eu me sentia especialmente feliz. Não sei porque, mas a alegria havia invadido minha mente desde a manhã, o que era estranho já que sou famoso em minha vizinhança por acordar todos os dias com o pé esquerdo. Quando eu era jovem a minha alegria foi roubada de mim. Digo isso pois as garotas que amei me maltrataram de tal maneira que meu pobre coração foi reduzido às cinzas e a única coisa que consegui para substitui-lo foi uma forte, densa e ritmada máquina, que eu mesma construíra.
Apesar da minha felicidade, eu ainda era uma figura sombria.
Eu estava ali, caminhando com as mãos no bolso da blusa, usando jeans e um sueter de capuz e um homem passou por mim, provavelmente um ladrão de grande porte e provavelmente carregava uma arma de calibre pesado em sua jaqueta. Ele me olhou por um instante e eu devolvi o olhar com fúria. Ele seguiu seu caminho, com medo.
Todos temos medo de tudo, alguns somente enfrentam isso bem, outros precisam de uma arma.
A minha alegria seguiu intensa e radiante. Eu quase deixei-a transparecer, mas meus olhos semi-serrados impediam que isso acontecesse.
Sentei próximo a uma arvore e deixei-me imaginar sua história, as coisas que presenciou e ouviu, e esbocei um sorriso pois certamente algum jovem casal havia escolhido aquele canto, dentre tantos outros, para se amar em uma noite como essa.
Depois de um certo tempo, recomecei meu passeio que terminou logo que o parque também havia terminado.
Lá fora, eu pensei, os homens não saberiam dizer  o que é a alegria.
Todos são monstros que não sabem o que é ser feliz, escondidos sob mascaras de sorrisos.
Olhei para trás, para ver o sol nascendo por entre as arvores, belas e serenas. Como poderia conter minha alegria ali? Como não deixa-la transparecer diante de tal beleza natural e divina, naquela mistura de vermelho, laranja, verde e branco?
Meus olhos lacrimejaram, mas pude conter as lágrimas. Seria desastroso chorar diante de tal beleza.
Voltei meus olhos para a rua estreita que levava à minha casa, que me aguardava fria e solitária e o pôr do sol ficou gravado em minha mente até eu cair no sono, e se eu lembrasse dos meus sonhos, diria que com certeza sonhei com um belo céu.


Double hit

Bom, as pessoas que me acompanham, que não são muitas, -se é que existem, devem ter percebido que semana passada não postei nada. Por muitos motivos. Estava totalmente sem inspiração no fim de semana. Muuuuuitos trabalhos e tudo mais. Fim de ano é realmente complicado!
O blog deve ter feito dois anos! Omg! Dois anos! E eu nem percebi… Esqueci a data, completamente.
Enfim, passou em branco dessa vez, mas não é como se alguém fosse reparar XD
Da próxima vez, eu me lembrarei, promessa. Hey, isso é uma promessa ao blog.

Eu gosto dele, ele é legal (Durante muito tempo dei mais valor às coisas do que as pessoas… Coisa de gente que cresceu sozinho trancado no quarto, sabe?)

Por causa de tudo isso, venho com dois poemas novos, eu diria interessantes:

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Céu da Noite

Rafael Rabelo

Vem comigo, vem
Contar estrelas
Uma, duas, três
E perder as contas
E começar de novo

Vem procurar no céu
as constelações:
Órion, cruzeiro do sul
A gente aponta pra três marias
E se elas sorriem, não tem problema

Vem olhar a lua cheia
Brilha que parece um sol
E tão nítida e perfeita
Mesmo sem poesia, ela é linda
E como brilha!

Vem ver as nuvens!
Ah, é uma beleza as nuvens da noite
Como desenhos feitos à lápis
Usando técnicas de borrar no dedo
As vezes são umas pinceladas

E se estamos no silêncio
Dá pra ouvir a música da noite
E quem sabe caminhar nas órbitas
Por que quando a gente olha
pro céu da noite, meu amor
A gente olha pro verdadeiro infinito.

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Nós dois depois de um tempo

Rafael Rabelo

Ainda me lembro
do começo de nós dois
Tão apaixonados, tão ligados
Feitos um para o outro
Meus beijos só teus
Eu só pra você

Cheios de dengo-dengo
nhém-nhém-nhém, bilu-bilu
De carinho-escondido
De furta-fogo aqui e ali
De cenas de ciumes
De demonstrações de afeto.

Me lembro bem
Das lágrimas inseguras
E das roupas novas
Cheias de intensões travessas
Do nosso bem-estar juntos
cantar alto a música de nós dois
E assistir filme abraçadinho

Lembro de ter começado
Com pouco, muito pouco.
Um olhar azedo aqui
Não cede hoje, amanhã não cedo
Tantos sapos, tantas raivas!
E o carinho? Sei lá.

E toda vez calavamos mais
Nos aturavamos de nós mesmos
Nós dois tornou-se um fardo
Né? Agora eram coisas como:
O idiota, aquela vaca, imbecil

E tudo tornou-se tão ácido
Amargo como o gosto do anestésico
Tão áspero e vil
Que perdemos o sentido
Os sentidos e o coração

O que aconteceu com o que éramos antes?
Somos agora dois inimigos que dormem na mesma cama

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Sem imagens porque acabei de escrever… E teriam que ser duas, pra ser justo.

Andei pensando (Há!) se eu pudesse desejar algo, provavelmente não desejaria coisa alguma. As pessoas vão pensar: Oh, como isso? E a paz mundial? E o dinheiro? E o amor? E bla bla bla?
Nah, as coisas que realmente valem a pena querer, são boas só quando a gente conquista com o próprio esforço.

Enfim, só andei pensando nisso, só…


Pressa pra quê

Rafael Rabelo

Pressa pra que te quero.
Pressa pra quê?pressa
A pressa acaba com o prazer
A pressa faz você bater

Pressa inimiga da perfeição
Pressa causa pressão
Pressa causa depressão
A pressa mais rapida que você.

A pressa pressiona o botão
A pressa aperta o gatilho
A pressa faz você ficar
no meio dos trilhos

A pressa leva as pessoas embora
E nunca trás ninguém de volta
A pressa, apressa

Pressa de carro, de moto
De nove meses em sete
De oito horas em quatro
De atravessar a rua
De chegar na Lua
De descobrir a origem de tudo
Acabou o mundo.

Pressa pra produzir
Pressa pra exportar
Pressa pra consumir
Pressa pra trabalhar

Pressa, pressa, pressa.

Mas e a verde praça?
E o moço e a moça?
Cadê a pressa deles?
Tem, não.

Pressa, pra quê?

sem-pressa.

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Fazia tempo que eu não colocava post com imagem. E eu gosto tanto ^^
Há quem diga que (Fernando Pessoa, acho) uma imagem estragaria uma poesia. Deixaria ela muito objetiva, sendo que a escrita, quando mais subjetiva, melhor.
Até entendo e até concordo.
Certas poesias devem permitir que quem as leu forme na mente a imagem que quiser, mas se uma imagem ilustrativa já acompanhar o poema, então a imagem mental vai ser mto influenciada e direcionada na mesma direção da imagem ilustrativa… Tirando um gosto adicional que a poesia teria, se a imagem ilustrativa não estivesse lá.
Ah, mas nem todos os poemas são assim. Alguns ficam muito mais belos com uma imagem para chocar/surpreender/fascinar/admirar.


Viagem ao interior

Sabem, levei outro fora.

Fora n°… Ah, sei lá, perdi as contas.

E o pior, não fico mais triste com essas coisas… Quero dizer, dói, mas já virou rotina, e isso é pior do que doer. Ter a consciencia de que se está aos poucos parando de sentir dor de amor é quase que como parar de amar.

E agora, tou aqui, ouvindo música celta e com muito medo do sonho que eu vou ter quando eu dormir. Se eu dormir.

Anyway, isso me inspirou e claro, merece um texto. Mas só texto, sem imagens. Tou meio sem animo…

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Viagem ao Interior

Rafael Rabelo

O homem contabilizou tudo
tranformou tudo em numero
fez do lugar um mundo
mas o mundo está nós

Modelos matemáticos e fórmulas
tirando a beleza e fineza das coisas
meras imitações das fábulas
que se pode ver reais

a foto não se compara a paisagem
o video não chega perto da cena
passam só parte da mensagem
que só se passa com a presença

e para aqueles que não acreditam
para os céticos e cegos amigos:
Eu questiono em nome da razão
“Por vezes não se sente cheio ou vazio?”

E esse sentimento, as vezes,
com música, não se expande?
e faz as mãos quererem dançar no ar
criando pequenos movimentos
acompanhando o sentido da música
traçando um caminho
e seu corpo parece querer seguir a música
e esquecer do resto das coisas da vida
e só viver aquele segundo?

e dá vontade de voar ao corpo
e faz tudo parecer mais leve
e algo que parece estar dentro de você
faz você acreditar que tudo tem um sentido
por mais que pareça vazio…

Viaje a esse interior e
pergunte certos porquê’s
que não ousa perguntar
em voz alta

Então, você entenderá o que é a alma.

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Se perguntarem ao poeta
por que ele escreve poesia
o poeta reponderia:
“Escrevo não como quem canta,
não como quem dança,
nem como quem pinta,
muito menos como quem filma.

Escrevo porque se não escrevo
definho.”

O poeta escreve
como quem vive.


Out to life

Viver

Rafael Rabelo

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Viver é deixar-se levar

É cantar bem alto, pra todos

mesmo desafinado.

Viver é sair, é correr

sem ter rumo, sem ter vento!

Nadar contra o mar, sair em disparada

com o carro e na direção errada

viver é não saber que se vive.

Viver é sexo, é amor, é paixão

Lágrimas, risos, desilusão!

É sentar na beira de um penhasco pra ver nascer o sol.

Viver é fazer uma viagem sem motivo

ou com um motivo pequeno

ou com um motivo enorme!

Viver é ter TODOS os motivos pra viajar.

Na verdade, viver é muito dificil.

Viver é ter que se livrar de si.

Viver é tentar algo além de simplesmente existir.

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Eu tenho apenas existido. Sei lá, como existe uma pedra, ou melhor, como uma árvore. Nunca entendi tão bem o sentido de “vegetativo”, pois é isso que tenho sido. Um vegetal. Mas não quero apenas vegetar no mundo, ser seu poeta caduco, como diria meu amigo Drummond. Nem simplesmente caminhar nele. Talvez seja muita ousadia da minha parte… Mas eu quero viver.

<Quatro dias sem post’s. Fui viajar>