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Eu choro enquanto escrevo isso. Me dói, como os antigos textos que escrevia na adolescência, so que pior, hoje estou adulto. Eu fico aqui fingindo que estou bem, ótimo, mas tudo desmorona. Nada sobrevive.
Minha mãe, doente. Os outros da família, infelizes. Os estudos andam difíceis e o dinheiro, pouco.
É como se eu tivesse feito todas as escolhas certas no tempo errado, e tudo cai como num castelo de cartas. Sinto até um pouco de falta da época em que pouco importava.
E como de todos sou o mais forte, não posso contar pra ninguém, além de você, caro desconhecido que lê, pois ninguém o faz além de você.

No fim, sei que não vou aguentar, muitos projetos meus vão morrer ou nem existirão, tudo por que o mundo não facilitou pra mim e praqueles que eu amo. E como um adolescente, me permito dizer: que doce será o derradeiro fim.


Um ótimo monstro

Eu jamais serei tão bom quanto vocês, afinal, eu sempre terei meu pé na escuridão e essa mancha no meu passado. Mas quer saber? Vocês também jamais serão tão bons quanto eu. Não verão as coisas como eu vejo, nem serão capaz do que eu sou capaz, de se entregar por completo a um ideal no qual ninguém mais acredita. Fazer o que ninguém mais faz.
Vocês são um bom par de Príncipe e Princesa. Eu sou um ótimo monstro.


Medieval

Nunca escondi, nem nunca esconderei, minha admiração pelos romances medievais. Pelas histórias de dragões, pelos castelos, pelas espadas. O primeiro livro que li, As Batalhas do Castelo, de Domingos Pellegrini, inunda meus pensamentos até hoje. Era mais honrado um homem viver pela sua espada e a vida mais dificil nos tornava talvez não melhores, mas mais merecedores.
Não atoa, hoje nos sentimos vazios e débeis, sem rumo, não existem mais obrigações que sejam necessarias para que sobrivevamos. Até as guerras eram melhores, os homens se olharam nos olhos antes de morrer defendendo ou atacando para sobreviver, era preciso ser forte pra puxar um arco, se enfrentava o inverno com relativamente pouca roupa e comiam comida que podiam, mesmo suja, mesmo estragada – passar mal era melhor que morrer de fome.
Sei que talvez seja errado pensar assim, mas o ser humano é melhor quando está próximo da miséria e da ruína, pois é quando se esforça e quando brilha, quando tem coragem, ou então morre.
Não acho que as pessoas deveriam morrer, mas talvez nos lembrar que a morte existe e está sempre tão próxima que podemos ouvir sua respiração no silêncio, para que nos faça aproveitar melhor a vida.


A pequena flor

A flor é pequena e nova
Vagorosa, não tem pressa
Mas também não se demora
Tem seu tempo, sua hora
Rompe o bulbo e se flora

Lentamente espledorosa
Diminuta, não se apavora
Não há quem apresse a flor
Ainda é miuda agora
Luta, florzinha, luta!

De uma cor a outra, se supera
à pequena flor,  aquerela
Ganhando vida, se embeleza
Teu tamanho é tua  promessa
De serena doçura e ternura
Num mundo enorme de amargura.


Simples assim

- Então você me pertence – Perguntei
- Sim – Ela respondeu, simples.
Cocei a barba, ponderando a situação até que consegui formular uma pergunta mais complexa
- Você tem consciência de que se eu acreditar em você, e você me ferir, vai me machucar como ninguém machucou outra pessoa na história das pessoas feridas?
- Tenho, completamente – Permaneceu enfática
Não havia muito mais o que fazer. Ela tinha aquele brilho no olhar, que só as pessoas apaixonadas possuem, e apesar de eu saber que ia doer, eu acreditei nela.
Na pior das hipoteses, renderia uma bela poesia, pensei.


Banho

Eu saio puro de um banho bem tomado. Iluminado, limpo, novo. Porém, ao me enxugar com a toalha da realidade, me preparando para voltar ao mundo, me sujo e me inundo de suor e ranho de outras pessoas que usaram também essa já desgastada toalha, perco todo o frescor e volto a ser o que eu era antes: humano, imperfeito e impuro.


No fim…

Estamos todos sozinhos, sempre.


Poesia d’Amore Perfetto

Princesa, princesa minha,
Doce amada e desejada.
Teu cabelo, minha barba
Teus olhos de mel lambusada.

Doce sorriso terno e gentil:
Tenra inocência infantil.
Minha pequena, meu tesouro
Meu amor e meu ouro.

Teu cavaleiro aqui jurado
pra lhe salvar de teus amargos medos
E proteger de teus receios.
Roubar teu coracao e enamorá-lo

Os dias com morangos gelados,
As noites com o calor abafado.
Os toques secretos, olhares roubados:
Segredos jamais revelados.

Minha confidente, minha sina
Pequena Princesa amada minha,
De terrível bravura determinada,
Cheia de raiva e furia, se provocada

De triste beleza tocada
Carente, desajeitada,
Deslocada: pelo mundo ignorada
Mas jamais por ele derrotada.

E no calor de teu forte espírito
Me encontro bem aquecido,
Nas noites de frio, desprotegido
Teu toque sincero está comigo.

Caminha comigo pela vida, princesa
Te protejo, e do mal te  resguardo,
Serena donzela para mim perfeita,
Senhora do meu triste coração quebrado,
Por ti conquistado e consertado.

.

.

.

Claro, pra minha namorada linda que eu amo tanto, Lais Mastelari.
Faz muito tempo que não escrevo algo exclusivamente dedicado, ahco que quer dizer alguma coisa neh?
Ela fez mais do que me trazer do fundo do poço negro e úmido, ela cuidou de mim e me aceitou.
Me aceita.
Eh amor. 
E eu a amo mais do que tudo.


Abandonar

Desmerecedor do sorriso de qualquer pessoa, ele seguiu seu rumo. Não era algo pessoal, as coisas não chegavam a esse nível de intimidade há muito tempo, era simplesmente inevitável. Era óbvio que era assim que as coisas deveriam ser.
Ele abandonava as pessoas, ou ela as abandonaria.
Não que elas fugissem dele, como ele fugia delas, não… Longe disso. Algumas sentiam verdadeira amizade por ele, verdadeiro carinho, mas o abandonavam.
Abandonavam por que carinho e amizade não eram as coisas que ele queria, vejam bem: amigos eles já tinha DEMAIS.
Ele queria algo diferente, novo, e ao suprir somente essa amizade por ele, caiam na mesmice e no comum e o abandonavam.
Claro que a grande maioria simplesmente jamais o procurava de novo. Esses o abandonavam no sentido mais literal.
Para evitar que o abandonassem, em qualquer sentido que fosse, ele ia embora.
Quem visse do jeito que é agora, jamais diria como ele já tinha sido um dia. Praticamente viva dos outros, se alimentando da conexão que se formava quando se conheciam e se nutrindo de cada palavra, sorriso e gesto de carinho. Mas então o abandonavam, o jogavam às traças da continuidade da vida.
Ele queria formar um laço e nele permanecer pra sempre, mas era contra o espirito de sua época, forjado de relações superficiais e sem sentido, cheio de “Olá! tudo bem? Tudo bem comigo também. Novidades? Não tenho nenhuma também.”
Ele partia para evitar que suas relações chegassem ao poço da estagnação, que do seu ponto de vista era quando o abandonavam.
Abandonava para não ser abandonado.
Claro que ele pensava nas pessoas que talvez, somente talvez, não o abandoriam.
Pensava demais nelas, e era elas que faziam ele continuar seguindo seu rumo.
Um dia, em seu sonho, ele encontraria alguém que se recusaria a ser abandonado. Alguém que lutaria por sua presença e por seus laços.
E somente essa pessoa valeria todos os que ele havia deixado pra trás. E valeria mesmo.


O Cavaleiro Sombrio

O Cavaleiro chegou à cidade envolto em trevas e em mistérios, pois ninguém nunca antes o havia visto ou ouvido falar de tal figura. Soturnamente ganhou as ruas, de andar vagoroso e arrastado, iluminado somente pelo luar pálido de uma noite morna e que trazia promessas de chuvas, e a escuridão não parecia incomodá-lo. Pelo contrário: Era como se estivesse confortável com ela.
Permaneceu nas sombras enquanto os que caminhavam pelo -já não tão movimentado- centro da cidade o evitavam como se fosse um demônio, e talvez fosse.
Sua veste pesada, meio metálica, meia de couro, as vezes produzia um rangido alto e logo desaparecia como uma máquina velha que tinha vontade própria, e seus longos cabelos pretos lhe davam um ar realmente maligno. Ninguém ousou falar com ele e todos se afastavam. Ninguém ousou olhar em seus olhos. Logo, como era de se esperar, desapareceu.
Foi visto várias vezes durante as noites seguintes e logo se espalhou o boato de um fantasma ou espírito amaldiçoado de um cavaleiro morto passeando pelas ruas mais suspeitas da cidade. O que ele queria ali? O que procurava? E mais importante, por que ‘aquela’ cidade? Simples, por que era a única.
Aquela era a única cidade que havia, o resto não passava de vilarejos espalhados e salpicados, resultados de uma tentativa do povo de restaurar a dignidade, afinal, aquela cidade havia “morrido”. Deve ter sido por isso que apesar do medo ninguém daquela cidade havia feito algo com relação àquele cavaleiro, afinal, o que é um fantasma para uma cidade morta?
Combinava com o castelo cadavérico em ruinas que dominava o horizonte.
A noite cumpriu sua promessa, e choveu.
Aos sinais das primeiras gotas de chuva, o cavaleiro acordou em seu quarto quente e vestiu serena sua armadura e apanhou a espada já desgastada, seu corpo era magro, branco, pálido e com cicratrizes horrorosas que traçavam sua história ao longo dos anos. Tinha o odor característico daqueles que não tomam banho há vários dias.
Ele saiu do quarto não sem antes pôr três moedas no balcão, meio ocupado pelo gordo bêbado que era dono do hotel e roncova alto. Devia ser a única pessoa no reino que não se importaria com um hospede assim.
O cavaleiro foi para a rua, indiferente à chuva que tomava a cidade e apertou forte o cabo da espada. Ao som do primeiro rugido, ele já estava lá desferindo o primeiro golpe. A fera, que não poderia estar mais surpresa, cambaleou para trás tentando ver de onde veio o ataque mas não conseguiu, ficou confusa por três ou quatro segundos antes de ouvir o silvo da espada vindo por trás perfurando o corpo peito por trás. Meio-homem, meio-animal. Uma besta. Seu corpo já inerte caiu pra frente com um baque que foi abafado pela chuva e as arfadas foram interrompidas por sangue, até um último suspiro levar embora a vida daquele grande quase-animal. Se alguém pudesse ver de perto os olhos daquela criatura, se pudesse ver o momento em que perderam o brilho, se pudessem ver o alívio que eles expressavam…
O cavaleiro limpou a arma suja de sangue na capa e mas não a embainhou.
Vários uivos se seguiram, vindo de todos os lugares, acompanhados de vários passos pesados em poças de água.
O Cavaleiro se viu cercado.
Esboçou um sorriso leve e tirou o cabelo da frente dos olhos. Afinal, o cabelo sempre atrapalhava. Pensou que depois de hoje, poderia cortar o cabelo, mas se lembrou de uma valiosa lição: nunca fazer planos muito longos. Eles costumam ser inúteis pra ele.


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