Por Rafael Rabelo
Eu pedi desculpas e olhei distraídamente pro outro lado, um movimento cuidadosamente elaborado. Eu sorri enquanto fazia isso. A garota aceitou as desculpas e continuou a olhar pra bebida, me forçando a tomar uma atitude mais séria, tive que puxar assunto com uma coisa idiota do tipo “a bebida não vai se beber sozinha”, e sim, eu sei que é horrível. Mas eu não sou um cara criativo. Na verdade, eu sou bem tímido, e esse conversando com ela não sou eu.
Eu na verdade sou um astrônomo que adora observar o céu em noites limpas, contando estrelas e constelações, filmes antigos de kung-fu e livros de romance policial.
Mas faz tempo que não faço nenhuma dessas coisas, só bebo, sorrio, fumo e aposto em jogo jogos impossíveis com mulheres em festas nos finais de semana. Meu orientador de mestrado está realmente preocupado comigo, mas além de extremamente auto-destrutivo me tornei frio, então não ligo.
Ela me jogou uma conversa e eu aceitei sem pensar duas vezes, algo sobre signos, besteira. Fiquei lá, todo mistério, todo bonito e charmoso e novo e interessante.
Aposto que se ela soubesse que eu gosto de Star Trek, pisaria em mim. Mas ela não vai saber.
Levei ela no papo e na conversa até me convidar pra dançar, pra esquecer um ex e eu só aceitei gentilmente. Eu a animei um pouco, com algumas piadas ensaiadas e alguns elogios mais óbveis do que meu papo no começo.
Ela estava li, toda frágil eu quase senti vontade de abraça-la e consola-la, mas eu logo recuperei a cabeça, se eu fizesse isso ela simplesmente me abandonaria como a Laura fez. O pensamento foi mais rápido que eu e pensar nela sempre me deixa triste.
Tentei por alguns instantes afastar o pensamento, mas ele veio com tudo, como um maldito soco no coração. Eu hesitei na dança e a garota percebeu, pediu pra ir no banheiro e eu nunca mais a vi.
Típico.
Depois desse dissabor a festa foi levada pra longe e eu fiquei na sacada ao lado do bar olhando o céu, contemplativo. Eu odiava quando isso acontecia, eu pensava nela e toda a festa morria, eu sorri quando lembrei que era sexta-feira ainda e eu teria o sábado inteiro pra beber e me torturar.
Olhei ao longe e imaginei onde ela estaria e com quem, já que fiquei sabendo de histórias horriveis sobre ela depois que terminamos.
Ela fazia o tipo intensa, daqueles que se entrega e eu gostei muito disso no começo, mas não consegui acompanhar o ritmo dela e depois de alguns meses de namoro ela me cansava. Ela simplesmente não parava, não me deixava respirar com sempre os papos Freudianos, sempre Schopenhauer, sempre Nietzsche, sempre livros que eu nunca li e nunca lerei, sempre a morte, sempre a vida, sempre o mundo, a sociedade, o coração e era isso todo dia, toda hora. Ela me esmagava, sem dó ou piedade ou misericódia alguma, me esmagava com a intensidade de tudo que ela queria saber e queria entender.
Eu fazia o que era saudável pra mim: ignorava.
Me concentrava nas estrelas, nas constelações, nos meteoros e nas coisas simples, mas não era o suficiente pra ela, então ela terminou comigo e ficou com um tal de Caio, com cara franzino e claramente suicida. Mas depois dele, outro. E outro depois ainda.
Eu não ligo.
Há outras, muitas outras e alguma delas deve ser capaz de preencher o espaço que ela deixou. E se uma não puder, eu tento duas. Três, quatro, quantas forem necessárias. Eu sempre fui prático.
Um sorriso triste nasceu no meu rosto. “Prático”.
Eu olhei pra Lua, e depois pra Vênus. Pensei que seria legal se ela fosse mesmo a deusa do amor. Era meu planeta favorito e era tão bonito nessa época do ano.
Voltei para o bar e bebi. Vodka, e o que mais ele servisse.
Eu não me lembro quando cheguei em casa, mas lá estava eu e tinha essa garota desconhecida do meu lado, o rosto borrado em rimel e pinga sabor maracujá, aquela expressão de anjo que todas elas tem quando dormem, que dá vontade de abraça-las e dizer ‘eu te amo’ baixinho no ouvido. Me reservei a preparar meu café da manhã e quando voltei pro quarto ela tinha ido embora com a minha carteira, que por sinal, nunca mais vi de novo.
Conforme eu fui lembrando do resto da noite, eu achei justo ela levar a carteira. E sorri.
Fiquei feliz de ter deixado meu celular.
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Não tá tão bem escrito quanto a crônica anterior, mas tá bom.
Revisei rapidamente, então qualquer erro me fale que eu arrumo.
E semana que vem tem mais.