O que te pertence…

26 09 2009

Se você vê, você tem.

Pra que a necessidade das mãos? Pra que a necessidade de ninguém além de você poder possuir o que você vê e quer e deseja?

Ninguém vai possuir algo que você vê.

Está na sua mente, está em você.
Você vê, é seu.
Você pensou, então lhe pertence e a mais ninguém.

E nenhuma outra pessoa irá pensar como você pensou aquilo que quer possuir.

Se você percebe isso, então você percebe o quão solitária é a vida.

E tudo o que você viu, ouviu, pensou, aprendeu, pertence a você e a mais ninguém e isso dói, pois ninguém saberá os sabores que você provou, ou verá as cores que você viu.
Tudo que viu e sentiu é seu e somente seu.

E ai, então, você quer compartilhar pra ser compreendido.

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Esses dias eu estava pensando de novo na ilusão do homem de que possui as coisas. O homem não possui coisa alguma. Possui a idéia da coisa.
Primeiro que o que ele vê, na verdade, é uma imagem. É luz. É alguma coisa como uma pintura bem feita pela organização da matéria da coisa. E além de tudo essa imagem é revestida por uma cama a mais de simbolismo inconsciente, pois o ser humano tende a se questionar sobre origens, sobre mistério, sobre coisas que ele não compreende e que nunca vai compreender.
Então ele deseja aquela coisa estranha. Deseja por N motivos, mas deseja.
Precisa sentir aquilo entre as suas mãos, sentir seu cheiro, conhecer cada detalhe da textura, cada pedacinho de cor…
Então ele pega aquilo pra si e diz: É meu!
Como se aquilo não estivesse ali antes dele sequer pensar em existir.
Como se aquilo não fosse estar lá depois dele deixar de existir.
Aquilo que ele acha que possui está apenas em sua mente. É apenas uma ilusão de uma coisa que ele acha que compreende…
Quando se percebe isso, percebe que você não é dono. Não é senhor.
Não é senhor de coisa alguma.





Como eu me vejo

19 09 2009

A Grande Reunião

Rafael Rabelo


Reuniu-se então todo o mundo-eu. Todas as coisas que me formavam dirigiram-se ao Castelo Coração para tomarmos uma posição sobre um certo assunto, sobre uma certa mulher e o retorno dela – ou do sentimento dela. Reunimo-nos todos, pernas, mãos, braços, pêlos, barbas e até as casas foram, o próprio castelo daria a opinião dele, que seria o consenso da opinião dos seus tijolos e das suas vigas. Os cabelos quiseram opinar, também, olhos queriam se fazer ouvir ao passo que os ouvidos queriam mesmo é fazer fofoca com as bocas que, sozinhas, não sabiam o que estava acontecendo. Iam também as pessoas ilustres que tenho em mim, que eram o Rei, a Princesa, O Trovador, a Mente (que nada mais era do que um grande computador) e todo um séqüito de personalidades famosas, como O Sade (Que era sádico, obviamente), tinha um gay, uma lésbica, que não eram assim tão ilustres mas chamavam a atenção, haviam os filhos que nunca tive e que sonhava ter.

Reuniu-se a matéria toda. O meu mundo de sonho parou de girar e de repente era só o castelo, já que alguma coisa deveria existir para que se houvesse um lugar onde se fazer tal reunião. Veio até o Sol e fez questão de sentar-se na mesa principal, motivo: Não era do reino, foi convidado. No Reino não há sol. O Rei não gostava dele. Vieram astros intergalácticos também, a Lua, e a grande maioria das estrelas, outras ficaram no céu de preguiçosas, as nuvens quiseram vir todas, pois o vento viria, e é de conhecimento público que são inseparáveis. Os átomos estavam agitados e vibravam de emoção. Só havia tido outro grande conselho destes e já se faziam uns bons dois anos, que se sabe, quando é no mundo de sonho, viram milênios.

Enfim, haviam chegado todos. O Trovador cumprimentou cada um que veio e levou-se aí alguns anos. Houve um burburinho que logo foi calado pelo Rei. Mas não tardou (tanto) e teve inicio o debate. Quem abriu-o foi o Trovador, dizendo que era de suma importância a decisão de mais aquele conselho e que não era somente uma opinião, era tomar uma frente, uma posição, então o assunto deveria ser levado com seriedade, e por um instante olhou para os palhaços, que fizeram não ver a encarada.

Então começaram as bocas, disseram que os dentes estavam pouco se importando e que os lábios gostavam dos beijos dela, a moça em questão, e a língua também, e era então a favor da volta dela, os cabelos até se arrepiaram quando lhes contaram os ouvidos.

Os pêlos pouco se importavam, uma vez que ela não os arrancava, mas votaram não, pois sabiam que isso, com efeito, os fariam arrepiar-se. As unhas não chegaram a conhecê-la bem, mas agora estavam compridas e curiosas, votaram sim. Disseram as bocas que os ouvidos haviam sido menosprezados por ela antes e por isso votaram não. As mãos e os pés não a queriam, necessariamente, queriam qualquer uma, então votaram sim e os braços os acompanharam, as pernas estavam cansadas e cochilaram. O Rei ordenou que as deixassem dormir. Os olhos disseram que iam votar depois. Começaram as idéias a votar. As palavras votaram sim, adoravam ler-se nos textos daquela menina. A Mente era ferrenhamente contra. Apesar de não ser contra a maioria, era extremamente nociva a presença daquela menina, escutou-se nessa hora um suspiro do Masoquista que havia acabado de chegar. Tinha se matado e tinha ainda a faca ao peito. Uma risada percorreu o grande salão, e logo ela foi mandada presa e é uma pena, não ia poder votar.

Enfim, todo o julgo intelecto de escritores famosos e intelectuais votaram não, eram do partido da Mente, e sabiam do mal que a menina causaria. O Rei falou que ia abster-se do voto por enquanto, queria saber a opinião do povo. Disse que as personas de mim votariam depois e o Trovador quase gemeu alto demais, pois era tudo um grande drama e ele adorava.

A camisa era contra, porque era branca e, portanto, pura, não queria sujar-se e todas as camisas eram brancas, só haviam algumas pretas que estavam ausentes, a Rede de balançar-se não podia falar nada, era branca também mas estava suja, absteu-se de votar.

As calças cruzaram as pernas, porque não tinham braços, sabiam que seriam tiradas antes do sexo, mesmo, mas seriam tiradas também antes do banho, e as vezes antes de dormir, quando me dava de dormir pelado.

As casas fizeram um grande discurso e acompanhou-as um ilustre, que era o próprio Castelo, defendiam que se resistir a vinda daquela garota, haveria guerra e, como de praxe, as casas seriam as mais destruídas, logo, eram a favor da vinda pacifica da garota.

O Exercito se dividiu, eram aqueles mesmo que morreriam por nós e aqueles que tinham medo. As armas tinham sede e votaram não.

Queriam sangue. Já os escudos e armaduras disseram sim, pois estavam cansados e desgastados, mesmos os mais novos. Fora difícil expulsá-la, seria mais difícil ainda mantê-la longe. O Povo todo votou não. Não gostavam de ver o Rei sofrer. Era um bom povo, esse.

E também só chovia e tudo se destruía quando o Rei estava triste. Já os ministros! Esses votaram sim, queriam mudanças, a grande maioria, queriam reformas, republicas e dividir o Reino e o Rei só os atrapalhava, que saísse de seus caminhos tortos.

O chão em si votou não. Gostava de ser campo de batalha, as nuvens e a maioria dos astros e coisas naturais votaram que sim pois achavam belo ver o drama se desenrolando. As lágrimas disseram que não queriam mais rolar e descer pelo rosto e todos se comoveram, alguns até mudaram seus votos para não. Os olhos apoiaram-se nas lágrimas e nem necessitou de justificativa. Só um olhar.

Sade disse que estava mais para a volta dela, e os filhos sonhados disseram que não queriam ver nela, uma mãe. Os palhaços que estavam fazendo rir as crianças do povoado disseram que eram contra a tristeza e votaram não e quando o Masoquista exclamou um sim tão sofrido e tão exultante seguido de um breve e chatíssimo discurso sobre sofrer, sofrer e sofrer começou um caos e muita gente quis bater nele e socá-lo, pela sacanagem de querer fazer todos sofrerem. Alguns quiseram mudar os votos, principalmente os astros que estavam começando a se cansarem, tanto que uns, depois dos votos, foram embora. Os lápis, borrachas e livros e os materiais desse tipo votaram que sim, pois isto resultaria em mais escrita.

Votou a Princesa e votou pelo não, implicava em guerra mas em menos sofrimento para o Rei, mesmo ele não tendo certeza de que iria sofrer com o caso. Mas era simples, havia sofrido antes, por ela, sofreria de novo. A Mulher que estava calada votou não, também. Chegou a tão esperada vez do Trovador, que votou Não. O que era raro, pois sempre adorava drama e desprezava a guerra. Fora um não tão simplista que formou-se um burburinho que nem a guarda real conseguiu impedir e calar.

Todos estavam ansiosos e agitados pelo voto do Rei que era agora o último, mas estava calado. O Trovador anunciou que ele esperava alguém especial e veio logo assim, depois do anuncio uma bela mulher ruiva, baixa e infernocelestial, a Anjo, uma doce mulher alta de cabelos lisos dourados, conhecida como Deusa e outra ainda, de cabelos castanhos encaracolados, de um olhar muito confuso e amante, A Rosa. Eram os Amores. Inimigos do Reino. As Amazonas. Houve mais caos e dessa vez a própria guarda real estava entre os indignados e escandalizados. As armas se sacaram, prontas. Mas o Rei mandou-as de volta às suas bainhas. Chegaram as três bem próximas do trono do Rei e mesmo elas não tinham coragem de se aproximar mais. Sussurraram algo que nem mesmo os ouvidos mais atentos ouviram. Nem mesmo as palavras souberam dizer o que elas diziam. O Trovador abriu um sorriso que saiu correndo pelo saguão e o Rei fez abaixar a cabeça, em aprovação. Elas viraram e saíram e fecharam-se as portas que estavam curiosas e incrédulas. O Rei sorriu triste para a Lua, que estava calada, com seus cabelos negros encaracolados, ela não havia votado, mas sabia-se seu voto, justo ela que tinha sido uma das Amazonas agora era amiga do Rei.

O Rei levantou-se e fez seu pronunciamento.

Passou-se mais de uma década até que ele terminasse de falar e explicar porque havia chegado àquela conclusão.

Havia optado por uma decisão até então inédita: A simples omissão daquilo tudo. Era o esquecer dela, ou o sentimento dela, um mandar enforcá-la… Ou antes, nem lembrar-se de enforcá-la.

Ela viria e ele a olharia nos olhos e a cumprimentaria, mas não a amaria. Não iria amá-la nunca mais. Pois a amava ainda.

Não haveria guerra, nem drama. Nada de esganar-se ou engasgar-se com nada. Não era um fim, e sim um esquecer-se do começo.

Esquecê-lo justamente por lembrá-lo demais. Era um perdão, ou antes, um esquecer-se do crime e da criminosa.

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Juro, do fundo do meu coração, que quando escrevi esse texto nem sabia da existencia de Sandman ou de Neil Gaiman. Acreditem se quiserem.
Esse é um dos meus textos antigos.
Da época da minha garotinha ruiva.
Resolvi publicar pq ela voltou de novo, então achei bem contextual. Eu poderia dizer que houve outra Grande Reunião como essa quando ela re-re-re-reapeceu, mas tudo hoje em dia é bem mais inconsciente.
É um texto bom, e poucas pessoas já leram ele.
Algumas pessoas vão se reconhecer em alguns personagens. Essa é a graça de ser meu amigo, huh? Você ganha um lugar em alguma história que eu invento por ai e um nome legal, tipo Lua, Anjo ou coisas do tipo.

9.

Sou tudo o que poderia ser, ou sou então o reflexo da minha história. Se não gosto de ervilhas é pelo seu gosto.

Mas é-o também por não ter história em meu passado que me fizesse gostar. Nenhuma historinha ou conto pra que eu

gostasse de ervilhas.

No final, sou o que me fizeram de mim. Se sou rebelde é por que me forçaram a sê-lo, se sou casto, sou por que assim

me ensinaram, ou assim vi. Tudo tem um certo fundo antigo, tudo tem um aspecto que não foi decidido por nós.

Um filme que vimos, um livro que lemos, uma frase que nos dizem e nos comove, sou algo entre o que me ensinaram e o

o que o mundo me mostrou. Se tomo certas decisões é por que assim me cabe a lembrança de que aquilo é o certo, ou

o melhor a ser feito, pois assim me mostraram os meus parentes, a vida, o Destino, ou seja lá quem.

Mas não me caiu do céu a idéia. Não concebemos formas que não vimos, nem inventamos algo de verdade.

Somos frutos do mundo…





Se amavam demais

12 09 2009

Rafael Rabelo

Não ficaram juntos porque se amavam. Amavam demais um ao outro. Duvido que outras pessoas tenham se amado tanto. Mas jamais ficariam juntos, não aquele casal, não naquela vida.
Era simples, se você prestar bastante atenção, vai entender como era simples. Não foram feitos um para o outro. Ambos tinham defeitos insuportáveis.
Ele era um garoto frio que sumia as vezes. Acostumado a ser abandonado e a viver sozinho, teve um pai que fora iludido muitas vezes por muitas mulheres, então ele se comprometeu a não seguir o mesmo rumo, tornando-se ele mesmo o fim de todos os namoros que tivera.
Amava aquela menina. Não entendia como, nem porque, mas a amava. A amava demais. Mas não ficaria com ela, sabia que iria feri-la. Era só isso que ele sabia fazer: feri-las. Mesmo que no fundo, não admitisse isso.
Ela, por sua vez, não sabia fazer outra coisa se não amar… Amava sempre. Claro que, quase sempre, sufocava quem amava. Sentia-se insegura e frágil. Precisava saber onde ele estava. Precisava saber com quem estava. Precisava conhecer todas as amigas e chingar as que ela via que davam em cima dele.
Era isso o que fazia com todos os namorados. Amava-os tanto que queria absorver cada parte deles, estar com eles a cada instante.
E amava aquele rapaz. Amava como jamais amara na vida qualquer outro garoto. E não ficaria com ele, porque o amava. Sabia que seu amor, sendo imenso, o sufocaria até a morte, ela não era tola.
E se conhecendo bem, não ousavam ficar juntos. Mantinham uma certa amizade cheia de respeito. Tomavam cuidado para não ferir o outro.
E sabiam que não iam mudar.
Ele jamais deixaria de ser frio, por medo, talvez, de que ela o ferisse.
Ela era insegura demais pra acreditar que ele não trairia se ficasse um dia sem se falar por pelo menos uma hora.
Uma situação inevitável.
Talvez, se não se amassem, pudessem ficar juntos. Se não se importassem tanto um com o outro, poderiam até ser felizes. Talvez os defeitos que viam um no outro não os machucassem tanto.
Talvez não doesse tanto e fosse suportável, simplesmente se não amassem demais.

separados.

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Quanto tempo não faço um post com imagem o.o
Enfim, mais um texto em prosa. Crônica? Não… Só texto em prosa. Talvez uma idéia ou filosofia.





Hum…

6 09 2009

Fiquei aqui pensando que texto publicar essa semana. Eu já tinha um em mente, desde segunda-feira, um daqueles que eu escrevi recentemente. Mas quando sentei na frente do PC pra publicar o post comecei a escrever um texto que vim ruminando a semana inteira. E acabei de terminar de escreve-lo.
Achei legal publicar ele agora, é um texto muito bom, apesar de grande. Tenho certeza que não vão se arrepender de ler.

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A história do gato cinza-preto

Rafael Rabelo

Não é mistério que eu imagino demais as coisas. Não há segundo ocioso na minha mente, todos trabalham. Procuro novas rimas, novas historias, novos problemas, soluções para contas interminaveis. Faço calculos e poemas enquanto espero um onibus passar, pra que eu possa atravessar a rua.
É uma dessas historias que imagino nos momentos vagos que vou contar agora.
Eu estava sentado num dos bancos da faculdade quando passou ali um gato cinza e preto, muito bonito, com um olho meio fechado, talvez por mordida de algum inseto. Vivem muitos gatos assim por ali, meio abandonados, mas não passam fome nem são maltratados. Passou por mim e foi beber agua na torneira que havia ali do lado. Senti-me tentado a abrir a torneira pra dar de beber à ele que ficava sempre levantando a cabeça, meio assustadiço, mas se eu fizesse um movimento muito brusco, ele se levantaria e correria de maneira que achei melhor não incomoda-lo.
Passado um tempo, começou a brincar de querer pegar vespas com as garras, não achei muito esperto, mas ele se mostrou muito capaz, extremamente capaz e conseguiu pegar duas ou tres. Logo depois disso me olhou nos olhos. E, nossa, foi um olhar profundo, senti como se ele pudesse ler meus pensamentos ou ver a minha alma, nunca, nenhum ser humano olhou-me com tamanha serenidade e profundidade. Me senti tonto por um tempo que não posso dizer o quanto, pois me perdi. Ele desviou o olhar. Olhou pro lado, pra uma garota que passava. Depois olhou pra mim de novo. E eu ali, pasmo. De repente eu soube que ele era macho. Que não tinha nascido ali, na faculdade, nem mesmo nessa cidade. Havia sido trazido de outro estado por uma familia, numa caixa de papelão, ainda novo. Antes disso, só se lembrava da grama de uma provavel casa de campo. Tinha sido criado por uma menina, filha caçula de um casal muito unido que vivia perto da faculdade, depois de algum mato, num condominio fechado. Teve uma boa vida ali até ficar grande e mais independente. Amou. Amou muitas gatas. Deve ter uns dez filhotes, pelo menos, espalhados por aí. Se arrependia de não ter visto nenhum, nenhuma vez. Quando a dona cresceu, perdeu o interesse nele e ele passou a se sentir isolado, a ir mais longe fora de casa, chegou a atravessar a pista uma vez. Jamais faria isso de novo, nunca teve tanto medo.Fez muitos cachorros de idiotas, muitos, mais do que podia lembrar. Era como um passa-tempo, já que a dona passava mais tempo no telefone e sempre tirava ele de cima da cama dela e o expulsava do quarto. Só parou quando um cachorro pegou ele e quase o matou. Ele só conseguiu escapar daquele enorme pastor alemão depois de uma briga de garras e dentes da qual ele só escapou por ter encontrado um lugar pequeno que o cachorro não conseguia entrar. Ele sangrou muito aquele dia, perdeu a consciencia, ficou desmaiado um dia inteiro. Depois disso sobreviveu comendo lixo aqui e ali, estava meio perdido, meio morto. Achou que fosse morrer, mas não tinha medo. Uma senhora o encontrou e cuidou dele, uma boa senhora, aquela. Ele podia ter vivido ali, com certeza, e teria sido feliz. Mas tanto ele quanto a velha senhora que todo dia lhe alimentava e lhe fazia carinho sabiam que ele tinha uma dona e que ele voltaria pra ela, ela poderia estar preocupada, poderia estar chorando, poderia estar procurando por ele. Uma noite ele saiu da casa da velha senhora e caminhou pela rua sem olhar pra trás. Quando chegou na sua antiga casa, não viu ninguém. Estava tudo apagado, tudo fechado. Tudo meio morto. As esculturas do jardim não estavam mais lá. Nem o cesto de lixo, nem os passarinhos, nem sua tijela de água e de comida. Tudo tinha sido levado. Roubado? Ele não era tão burro… Tinha visto outros gatos serem abandonados, esquecidos. Já até esperava isso. Preferiu ter morrido. Pensou se voltaria pra casa daquela senhora, mas teve medo de ser abandonado de novo seguiu sozinho, esperando que algum carro ou cachorro o pegasse, ignorando até mesmo os passarinhos que passaram perto deles. Andou por dois dias, dormindo na grama e no mato, comendo insetos e lagartos. Se tornou um bicho. Ele era um com a selva. Gostava disso. Mas tinha medo, acho que como todos temos, de ficar sozinho. Agonizar sozinho. Depois chegou na faculdade, encontrou outros gatos que viviam ali e descobriu que eram medrosos e arrogantes. Evitavam-no. Mas que comiam bem e não estavam sós. Havia água e estudantes que passavam aqui e ali, as vezes fazendo carinho. Tinha até cachorros! Ha! Cachorros! Nunca nem chegaram perto dele. Ele os amedrontava só com a sua calma, um olhar de quem lutaria até a morte ali mesmo.
Recuperei minha mente quando ele desviou o olhar por causa de outra estudante. Ele adorava as estudantes daqui, eu soube, elas faziam ele se lembrar de sua dona. Talvez ela fosse uma delas, afinal, e parasse e olhasse pra ele e o acolhesse de novo.
Eu ainda estava pasmo.
Ele me dirigiu um ultimo olhar e bocejou, ou mostrou os dentes afiadissimos.
Saiu de baixo da torneira e parou ali, entre as plantas do jardim da faculdade, olhando pro portão de entrada. Talvez estivesse pensando em sair. Talvez estivesse esperando alguém entrar. Talvez só tomando sol na terra úmida.
Só então me dei conta de que tinha imaginado aquilo tudo. Mais uma das minhas viagens casuais.
Bom, a verdade é que nenhum cachorro ousou perturbar o gato enquanto eu estive ali, olhando pra ele de costas pra mim, vigiando o portão da entrada.
mas a verdade é que ser humano algum pode conhecer a historia daquele gato, quem pode dizer que eu imaginei errado?

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Pela escrita, pelo tema e pela abordagem, acho uma das melhores cronicas que eu já escrevi. ^^
Fiquei muito feliz quando terminei.
A Lua foi a primeira que leu. :D





Rito das Horas iguais ao Minutos

22 08 2009

Rafael Rabelo

Dizem que se você olhar para o relógio e as horas forem iguais aos minutos, a pessoa que você ama estará pensando em você.
Eu me considero uma pessoa muito racional. Eu penso antes de agir, penso antes de acreditar. As vezes penso demais.
Porém, quando eu olho para o relógio e vejo que as horas são iguais aos minutos, eu penso: será que ela está pensando em mim?
Não há nenhuma lógica nisso. Ela talvez nem se lembre que eu exista… Mas ainda assim, é o primeiro pensamento que me ocorre.
“Será que ela está pensando em mim?”
Tornou-se um ritual. As vezes, quando falta um ou dois minutos para as horas serem iguais aos minutos, eu espero.
Fico ali, que nem bobo, olhando para o relógio esperando os minutos mudarem. E quando isso acontece, fico imagindo se ela estará pensando em mim.
Mas é como se eu não pudesse não pensar isso.
Talvez pela esperança… “Será que ela está pensando em mim?”
É algo que eu não posso controlar. Não que eu fique esperando esse momento a cada cinquenta e nove minutos, longe disso.
As vezes nem me lembro que o tempo existe. Mas quando estou aqui, em frente ao computador e vejo a hora e as horas são iguais aos minutos eu instantaneamente paro o que estiver fazendo.
E penso nela.
E penso se ela estará pensando em mim.
E penso que isso é besteira, mas que seria legal se estivesse. E então os minutos mudam rápido e aquele instante acaba. E eu volto a fazer o que estava fazendo.
É um ritual que eu faço sem nem perceber, talvez por ter um coração cheio de baixa-estima.
Talvez eu queira simplesmente acreditar que, um dia, ela estará pensando em mim.
Você pode achar que eu sou um idiota, mas quando as horas forem iguais aos minutos e você olhar para o relógio, você pensará em quem gosta.
É isso o que isso é. Um rito, um simbolo. Não há nenhuma lógica nisso, há toda lógica nisso. Porque se a pessoa que você gosta conhecer esse rito e gostar de você, ela pensará em você.
Pensará: “Será que ele está pensando em mim?” e você estará pensando nela: “Será que ela está pensando em mim?”, porque as horas são iguais aos minutos nesse instante.
É isso o que isso é, um rito, um simbolo.

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Heh… E eu tava indo tão bem com a minha vida.
Sabe como eu me sinto? Como um viciado que depois de 2 anos de abstinencia foi obrigado a participar do vício de novo.
Eu estava realmente bem. Definitivamente não precisava voltar a vê-la ou falar com ela. Eu sentia saudades, claro. Mta saudades… Mas não era necessário. Seria melhor se eu não tivesse nem lido o nome dela. Mas faz parte.
Destino, acho. Ou Deus. Se for Deus, agora é oficial, ele não gosta de mim.
Bom, agora vou ficar aqui, no frio e sozinho, na dúvida de se eu quero vê-la de novo ou se volto a me afastar dela, sabendo que qualquer uma das duas coisas será inutil.
(Como estar na duvida entre sal e açucar sendo que o que vc quer é orégano)
E claro, sem a mínima esperança dela aparecer de novo em menos de 1 ano…





O Garoto que amava

15 08 2009

Rafael Rabelo

“Que ninguém diga que ele nunca amou.”

Ele era um garoto doce. Gentil. Conhecia muito de muitas coisas e amava a vida e a beleza das coisas mais do que as pessoas jamais compreenderiam se ele lhes contasse. Ele era simples. Tratava-se apenas de uma parte de mim, ou uma parte de você. Uma parte que se perde em algum momento de nossa infancia mas que não se perdeu nele pois isso era tudo o que ele era. Ele crescia, claro. Garoto era modo de falar, já era quase um homem e era um homem feliz. Tinha um bom emprego, uma boa casa, ótimos amigos e se divertia com frequencia. Porém, é óbvio, sua diversão e seus bons amigos não eram para ele o que seriam para pessoas como nós. Eram mais profundos. Alguns desses amigos nem o conheciam. Nunca nem ouviram falar dele. Outros nem existiam. Algumas coisas que ele fazia pra se divertir eram impossiveis e impraticaveis. Para nós, eu digo.
Porém, apesar de tudo ser ótimo, não era perfeito para ele, já que havia algo que seu espírito simples não podia atrair.
O amor. De todos os sentimentos esse era o que mais lhe intrigava e o fascinava. Ele queria amar. Queria muito.
E um dia aconteceu, quase que naturalmente. Um “oi”, um sorriso, uma pausa. Outro sorriso e tudo aconteceu. Estava ali, ele podia sentir! E percebeu que fora iludido, enganado e feito de bobo. O amor era muito mais, era alheio e exterior, agora ele compreendia. Precisava, claro, que a pessoa também lhe amasse, o que não aconteceu. Não dessa vez. E então ele sofreu, chorou e sentiu o gosto salgado de suas proprias lágrimas amargas. Mas ele continuava simples, continuava suave e gentil. Esperava que alguma garota como ele aparecesse e lhe entregasse o seu coração ao mesmo tempo que ele lhe entregava o dele. A garota veio, claro, mas seus olhos se cruzaram e suas almas, não. Deixaram assim.
Depois de diversas dores, diversos amores mal-resolvidos e essas coisas, ele resolveu que mudaria. Era um fato quase incontestável que era impossível as pessoas gostarem dele como ele era e que talvez se ele mudasse, alguém o amaria. Não deu certo, claro. Não que as pessoas não amassem o “novo” ele que ele havia criado baseado em jornais e revistas, mas era dificil manter aquela imagem. Dificil do tipo impossivel. Enfim, observando os outros percebeu que não ser amado era comum e normal. Alguns diziam que era a regra, “se você ama, então não te amam”.
Ele pensou o seguinte, que se dando às pessoas o que elas queriam, elas não o amavam, bastava que não desse. Bastava que recusasse e pôs em práitca o que havia pensado.
Esperou amar uma garota. E amou mesmo e não pense você que por não ser, como se diz “espontaneo”, não foi verdadeiro, por que ele sabia que era. Tendo amado ela, a conheceu. Ficaram amigos, mas não muito. Sairam juntos algumas vezes e então ele conheceu outra garota (essa sim, uma qualquer) e começou beijá-la de vez enquando. Foi ai que a garota que ele amava realmente olhou para as costas dele e o amou. Amou e amou muito. E se sentiu triste pois ele abraçava outra, beijava outra, acariciava outra, sem saber que era justamente esse o motivo daquele amor.
Ela, num dia frio, depois de irem ao cinema, lhe confessou que o amava. Ele olhou com indiferença disfarçada e fingiu que fingia um sorriso. A abraçou, não muito forte e sem muito ânimo, passou a mão entre seus cabelos e a beijou na testa e depois nos lábios, um beijo seco de noite fria. Ele guardou pra si toda a felicidade e alegria que sentiu e fez isso muito bem.
Com o tempo, começaram a namorar e até moraram juntos. Porém, ele não deixava de sair algumas noites, sem ser claro aonde ia. Se embranhava no escuro das pessoas que não podem se mostrar completamente à quem amam, tudo isso para não pertencer à ela pois se pertencesse, ela o deixaria.
Enquanto isso a mulher que ficava para trás estava feliz por ter conseguido fazer o coração frio daquele homem derreter diante de seu encanto e o amava “como jamais alguém amara outro alguém”.
Que nunca digam que o garoto não amou.

CaminhanteNoturno

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As vezes, caminhando por trilhas desconhecidas você pode ter a impressão de estar perdido, mas lembre-se de que você é sua casa, à sua frente está seu norte e que enquanto houve chão haverá pra onde ir…





Balanço

9 08 2009

Rafael Rabelo

A rede balança ou o mundo balança? Sou eu que estou me balançando ou estou parado e é o mundo que vai, e volta?
Não sou eu que me movo nunca, é o mundo que se move. Sempre que ando é a Terra que avança sobre a fricção dos meus pés.
Não sou eu que me molho, é a chuva que se atrai a mim.
Penso assim pois não faço parte do mundo, para me balançar nele, sou o observador da vida e não seu conteúdo.
Existo ali como uma pedra, ou árvore e estou vendo o mundo crescer e girar e brincar com todos, que são seus brinquedos.
Estou preso dentro de mim, sozinho, buscando alguma coisa ou alguém para me fazer companhia, mas é em vão, sei.
Jamais irei encontrar outro observador do mundo que já não tenha morrido e deixado talvez um livro.
E se encontrasse, se lhe pudesse tocar o rosto e ver a face daqueles que não sorriem com sinceridade nunca a não ser por ver felicidade no mundo, ou alegria no mundo, mas nunca em si, se pudesse tocar o rosto! Mas não sei se o reconheceria…
Passam-me centenas de rostos por dia diante dos meus olhos e não me reconhecem nunca, passam centenas de rostos e não reconheço nenhum. Por isso me esforço para conhecer bem as pessoas que encontro, quero saber-lhes tudo, absorver cada sentido da vida que há neles e prová-los, para saber se tem o mesmo gosto que reconheço em mim, para saber se é vida ou simulacro de vida.
E não me reconheceriam os outros de mim, se eu não os reconhecesse. Sou somente a idéia que fazem de mim e, portanto, sou pessoa diferente para cada pessoa que me conhece, ou pensa que me conhece.
Mas é só hoje que me reconheço assim. É o balançar da rede. Ele me faz pensar coisas absurdas, como saber quem sou sem amar.

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Mais um texto de uma época distante… Estou acabando com esses textos esquecidos, pra não correr o risco de esquece-los de novo.
Eles ficam comodamente numa pasta no meu computador, todos num arquivo só. Precisam de MUITA revisão.
Bom… Logo logo haverão mais quadros, fotos e muito mais no blog.
Tudo que eu preciso é de um poco de força de vontade…





O Medo de sonhar…

27 07 2009

O Medo de sonhar…

Rafael Rabelo

Tenho muito medo do sonhar. Temo o dormir tanto que até me impedi, algumas vezes, de lembrar-me do que sonho.

Digo isso porque o sonhar em mim atingiu um grau tão elevado que, em primeiro lugar, no sonho não sei o que sou exatamente.

Porque não sei se sou a criança que corre, um gato que é espancado, ou o taco que o espanca, nem se sou o menino que empunha o taco, nem se sou a menina de olhos azuis que faz gritar a boca, que também pode ser eu, um “Pare com isso!”.

E mesmo a frase posso ser, mesmo o pensamento pode ser-me. O tempo, também, poderia ser eu. A morte me é também, assim como o nascer.

Quando sonho, crio um mundo independente de mim, que existe como outro mundo como este, real.

Tenho medo, lhe digo, pois morro sempre nesses sonhos. Nascem também muitos eu’s em muitos lugares deste mundo-eu, mas morrem muitos de mim’s.

E a sensação de nascer eu conheço, mas a de morrer não. Apenas a sonho, mas a sonho de maneira tã dolorosamente real que não me parece sonho.

Estou eu morto. E o pior, quem matou-me fui eu. Fui eu o assassino, a arma do crime, o pensamento assassino e a psicologia assassina que me matou…

Sou eu tudo o que no mundo-eu existe de mal. Sou também o bem dele, mas este não o anula, nem o desculpa. Tantas pessoas em mim, quando sonho! Tantas vidas a serem vividas em tão poucas meias-horas de devaneios!

E além de tudo, nunca é o mesmo mundo. Sempre que sonho é um mundo diferente, outras pessoas, outros sóis e luas e cometas e céus.

Só há um mundo em mim que é fixo, sonhado e controlável, onde reino impossível sobre mim mesmo. Neste mundo sou-me sem medo de ser-me tudo o que há em mim.

E… Que terrível ver os sonhos das pessoas que eu sonho, que são eu’s meus!

Que terror ver sonhos meus ali, como se fossem de outros!

Que terrível ver um outro eu sonhando um mundo-eu-ele, onde esse eu é tudo, desde do gato que apanha, do taco que o fere, do garoto que o bate, da menina que grita, da frase que é gritada ao pensamento que todos pensam.

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As vezes, a imaginação pode ser uma maldição.





Espectador da Vida e do Sonho

20 07 2009

Espectador da Vida e do Sonho

Rafael Rabelo

Estou no ônibus lotado de gente e estou de pé em frente a um banco para sentar-se duas pessoas, onde se encontram dois jovens, uma garota com olhar tímido e jeito frágil, usando uma blusa de lã com gola role que me causa calores ao repará-la, e ao seu lado um jovem rapaz, possivelmente de igual timidez, mais alto que ela, de cabelos mais escuros, porém não negros e um olhar distante. Está a ouvir música. Reparei que não se conheciam e vinham ambos de colégios diferentes e deveriam ter a mesma idade.

A menina aparentava ser mais jovem, mas tinha um ar de madura que marcava no rosto uma expressão quase que filosófica.

Vi que combinavam perfeitamente numa pintura ou fotografia e se tivesse eu uma câmera ali, e não estivesse o ônibus tão lotado e fosse eu invisível, de certo, tiraria aquela foto. Se soubesse eu pintar, os pintaria. Tentei imaginar porque não conversavam, pois era óbvio que estavam ambos interessados um no outro, mas ou eram tímidos ou era o ambiente que os intimidava e eu não os culpo. De repente, quase que me inclino ao jovem para dizer-lhe algo sobre a menina, mas retive-me, não poderia, não ali.

A menina percebeu que eu a olhava e ficou constrangida, desviei o olhar imediatamente, constrangido também. Tinha eu estragado todo o clima que não existia.

Imaginei-a dizendo “Olá” ao moço vizinho de assento e quase dei um pulo com o susto da surpresa de imaginar, mas foi mais incrível ainda ver o moço sorrindo-lhe e respondendo com um aceno de cabeça e um perguntar de nomes se seguiu e logo depois uns risos e trocas de confidencias, um olhar demorado, um sorrir, um contar histórias ambos, seguido de risadas e desabafos, já eram como amigos de infância ambos um do outro, o ônibus não existia, as pessoas a sua volta eram apenas restos do mundo que teimava em existir e resistir aquela realidade paralela que se criava em torno dos dois.

Calma lá que veio agora um carinho na mão, e a menina envergonhou-se, chegou a corar e num sobressalto o rapaz tentou beijá-la e até eu me indignei a essa altura, e a menina recuou transtornada, com a mão na boca de espanto.

O rapaz recuou e calou-se.

Fez-se o silêncio constrangedor e agudo. Esperávamos que Deus se pronunciasse sobre o ocorrido, mas nada aconteceu. O rapaz desculpou-se, educado e polido. Tentaram refazer aquela amizade amor outrora destruída, mas fora em vão, o mal havia sido feito e agora havia malicia no olhar de ambos.

Passou ali uma loira que ia descer num ponto e o moço olhou-a como todos os homens no ônibus, e a menina lhe apertou o braço num beliscão que o fez grunhir meio alto e a moça olhou-o e sorriu, desceu logo ali e foi-se como vento, ou queimou-se como álcool, deixando os dois, uma com ciúmes e outro com saudades.

Passado um minuto de conversas desinteressadas a moça olhou-me e me sorriu, de repente, senti-me objeto de causar ciúmes e vingança, recuei e abaixei a cabeça, ela entristeceu e partiu meu coração, mas logo o moço pegou-lhe a mão de novo e foi sussurrar-lhe um “você é linda”, todo constrangido e envergonhado, para ganhar então um beijo e uma mão suave acariciando o rosto quase barbado. Casaram-se ali mesmo e vi-os tendo seus filhos e também os filhos deles crescerem. Vi quando se divorciaram. A mulher com o rosto a verter lágrimas pela traição. Vi o fim daquele casal, ambos brigados e amargurados, mas depois de um tempo voltaram e se enamoraram de novo, dando o que falar aos filhos, agora já todos em faculdades ou formados. Vi-os morrer.

E angustiou-me tudo aquilo. Não porque morriam, mas porque não haviam se falado ainda. Não haviam trocado uma palavra se quer e era isto que me angustiava mais do que a minha própria vida me angustia. Estavam calados a olhar fixo para fora do ônibus, ou para o nada dentro dele.

E eu ia indo descer, avancei por entre todas as pessoas até o mesmo local onde havia estado a mulher loira que imaginei, e estava angustiado, sentia-me descrente no destino, mas pouco antes de descer, num segundo quase que ínfimo, pude jurar ouvir um “Olá” de voz feminina e sorri ao ver aquele ônibus partir. Nunca saberei se ouvi mesmo aquilo, ou se sonhei, como sonho sempre.

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Esse é um texto antigo eim… Mas muito bom, fiquei surpreso quando li.
Acontece as vezes de eu pegar um texto e pensar: “Nossa! Eu escrevi isso?”
Esse é um dos casos.
Gosto muito dele pq é uma coisa que eu fazia e as vezes ainda faço.
Não sou muito de ficar comerando datas desse tipo, mas feliz dia do amigo à todos os meus amigos e à todos em geral.
Acho que é bom pensar nesse dia como um dia pra fazer novas amizades (como se fosse preciso um dia pra isso) do que pra homenagear os amigos. Amigos não precisam de homenagens… Se precisassem, seriam somente interesseiros e não amigos. XD





Romeo and Juliet

5 07 2009

Dizei-me: Que mal há na estória de Romeu e Julieta? Que faz dela tão triste que comova durante tantas gerações, tantos corações?

Que se amaram e morreram? E isso é infortúnio? Ao menos amaram… Que a morte a todos busca e a nenhum perde de vista.

Se mesmo que por um dia encontra um amor pelo qual que valha a pena morrer, morre por ele.

Antes isso que acabar aos braços de outro ou outra.
Que venha a morte mais cedo à mim, mas que eu encontre o amor! Que eu viva um dia como Romeu, mas que tenha minha Julieta, mesmo que esse dia seja o último dia.

E tais quais as pessoas que morrem ser ter encontrado jamais o amor!
E eis uma história triste e que temo à mim e que, sabemos todos, a muitos aflige, anônimos estes não-amantes que desgraçados são e nem sabem… E sois um pouco felizes ainda se não sabem! Pois sou eu uma dessas almas e sei-me bem disto. Sou portanto mais desgraçado…

Que morra eu depois de encontrar o amor, pois morro feliz.

Que a minha alma encontre a agonia da morte nos braços do amor.

E à Deus, pergunto: Que acontece ao amante que se mata, pela morte do amado?

Se vai para o inferno, irei eu também se encontro o amor e ele me deixa…
E estará o inferno cheio de amantes que não deixam que o sabor da vida lhes estrague o sabor do amor.

Diz-me, Deus, que sois misericordioso e que entre as leis do destino está escrito que se um amante morre, a alma à ele atrelada tem direito de seguir o caminho ao teu lado.

Ou sois muito cruel de fazer com que viva o amante, condenado a viver pela metade, até que a morte olhe em seus olhos e diga: Só vim gelar-te o corpo. Tu, morto já estais.

Oh Deus, eu que nem creio em ti, suplico, não leva sozinha uma alma que ao lado de outra caminha! E se não me escuta, escute-me a morte então! Leva ambos os amantes e poupa dor, sofrimento e esforço…

Por que se é verdadeiro o amor e ele finda, com ele finda a vida.

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Disse eu que sobre o amor não mais escreveria. Mas que outra coisa faz um poeta se não contar mentira?