
[infelizmente, desconheço o autor, se souber, email-me]
VII
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.
- Uma Didática da Invenção,
Manoel de Barros in “O Livro das Ignorãças”
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Bom, como começar?
Acho que seria mais conveniente dizer “Como terminar”, ou ainda “Como triturar” esse começo… Por que não faz SENTIDO começar a explicar isso.
Vou explicar como FOI.
Porque começo, começo mesmo, não sei, não têm.
Nem começo nem explicação, óbvio.
“Era uma tarde comum, como são todas as tardes comuns. Então o Daniel entrou. Conversa vai, conversa vem ele, me disse pra tentar uma ‘desconstrução’ como ensinava o poema Uma Didática da Invenção, que ele havia me passado um dia antes. Sinceramente, não estava pra poemas no dia, estava mais concentrado na minha amada, mas afinal, brotou algo de minha mente, algo louco, porque ele disse: ‘quero criar uma girafa pra cobradora de ônibus em bauru’ e não isso fazia sentido.”
Chamei de Paródia, mas o nome não significa NADA.
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Paródia
Daniel & Rafael
Caçar as pedras que rolam no ar, esgueirando as borboletas
pra então chegar ao mantes do momento da lótus que cagava melindres de várias cores cacofônicas de vinho dragão
que evapora formando nuvens de variados sons e cegam aqueles que a cheiram, deixando loucos os loucos que sempre foram lúcidos
, os que cospem peixes de verde, mais verdes que o povo do reino da dor. o álcool que flui nas veias pedregosas do seio da mulher terrorista não tem santo
e alimenta bebês mentirosos, que não choram, cantam óperas surreais e fingem que são abóboras ou estrume de cachorro
As esfinges não deixam mais nada como querem, só querem sujar as roupas de Deus com sabão de azul de metileno
Pois os anjos negros como bolas de cristais fazem dançar a Deus e toda sua corja de ratos, dando-lhe chibatadas com finas tiras couro de insetos que já não existem, e nem existiram
para sapatear os céus de cogumelo com surrupiações de estrelas da mais fina areia de ouvido e de balas de preta fulô
E o homem vê o espetaculo dum picadeiro de vidro azul, a platéia é o espetaculo. a morte é a felizarda que sempre perde e sorri sempre e há o silencio, o silencio que nunca cala as cores…
Ah, o que não se cala. Não, só fecha a boca quando vem verão pelo lado molhado da xícara de moinhos asfaltados. O brilho de seu sovaco dissecava as flores de lama
lama limpa, lama lupina, luma-lua, que gira e gira e gira e forma padrões de pores-do-sol entumescidos de cinza e laranjada da fruta seca, que a flor dera.
eu espremi a flor, de tão seca que era, vertia anos e mais anos de pedra-pomes
que se desfaziam antes de chegar ao chão
como se passassem através dos calendários de chocovertigem ameríndia
e virassem ventos do oeste, que sopram calmos em águas rasas, como o sopro das aguas-vivas mortas
e o sopro suave do coração de maria, que mata a todos os frágeis
mas restaura os desgraçadamente fortes
a vaca de teia dupla, a única deusa por aqui, é a verdadeira rainha do funk do patriarca
que só dança hip-hop feito por rockeiros que cultuam deuses de luz
os que preferem beber creme de decepção de antojos. Mas, de todos os maiores males maiores de mais grande e maior grandeza, não tem mal mais mau que a maleza da mala maligna maleita malthus matusalém mallitus
desenterram dentes de destroços dos domos dominados de dotados da dor desvituosa datada de diminutos divisões divididas demais, divinas, doutrinadas do doutor dá dadaísmo
a geleira cada vez mais sorridente, lambe as gotas do disco voador de metil-parabenzeno, feitas unicamente de mentol
A as montanhas de deliciosidade repugnante pulsa com vida não-própria. A loucura está nos olhos de quem a cheiro
e os cigarros lavam a alma envergonhada de tudo que é relíquia de jardim africano.queima, queima, queima o queijo que julga demais
escorre por paredes transversais de feiura tão bela que envergonha os anjos de pudor e vertigem. tola faca cega que não corta, não fura, não brilha, não é mais que um pedaço de pau
um pedaço de carne, uma torre sem coluna. um invólucro de couro que só serve para fazer homem e mulher sofrer
e trazer medo às pedras que caçam borboletas
pedrinhas marteladas aos prantos pela menina de cabelo bonito e cabaça de feltro
e cabelos ruivos de pecado e doçura
o futuro é isso. e ai de quem dizer que meus carros não são infláveis
e que suas botas não são de calor.
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[Salvador Dali]