Como eu me vejo

19 09 2009

A Grande Reunião

Rafael Rabelo


Reuniu-se então todo o mundo-eu. Todas as coisas que me formavam dirigiram-se ao Castelo Coração para tomarmos uma posição sobre um certo assunto, sobre uma certa mulher e o retorno dela – ou do sentimento dela. Reunimo-nos todos, pernas, mãos, braços, pêlos, barbas e até as casas foram, o próprio castelo daria a opinião dele, que seria o consenso da opinião dos seus tijolos e das suas vigas. Os cabelos quiseram opinar, também, olhos queriam se fazer ouvir ao passo que os ouvidos queriam mesmo é fazer fofoca com as bocas que, sozinhas, não sabiam o que estava acontecendo. Iam também as pessoas ilustres que tenho em mim, que eram o Rei, a Princesa, O Trovador, a Mente (que nada mais era do que um grande computador) e todo um séqüito de personalidades famosas, como O Sade (Que era sádico, obviamente), tinha um gay, uma lésbica, que não eram assim tão ilustres mas chamavam a atenção, haviam os filhos que nunca tive e que sonhava ter.

Reuniu-se a matéria toda. O meu mundo de sonho parou de girar e de repente era só o castelo, já que alguma coisa deveria existir para que se houvesse um lugar onde se fazer tal reunião. Veio até o Sol e fez questão de sentar-se na mesa principal, motivo: Não era do reino, foi convidado. No Reino não há sol. O Rei não gostava dele. Vieram astros intergalácticos também, a Lua, e a grande maioria das estrelas, outras ficaram no céu de preguiçosas, as nuvens quiseram vir todas, pois o vento viria, e é de conhecimento público que são inseparáveis. Os átomos estavam agitados e vibravam de emoção. Só havia tido outro grande conselho destes e já se faziam uns bons dois anos, que se sabe, quando é no mundo de sonho, viram milênios.

Enfim, haviam chegado todos. O Trovador cumprimentou cada um que veio e levou-se aí alguns anos. Houve um burburinho que logo foi calado pelo Rei. Mas não tardou (tanto) e teve inicio o debate. Quem abriu-o foi o Trovador, dizendo que era de suma importância a decisão de mais aquele conselho e que não era somente uma opinião, era tomar uma frente, uma posição, então o assunto deveria ser levado com seriedade, e por um instante olhou para os palhaços, que fizeram não ver a encarada.

Então começaram as bocas, disseram que os dentes estavam pouco se importando e que os lábios gostavam dos beijos dela, a moça em questão, e a língua também, e era então a favor da volta dela, os cabelos até se arrepiaram quando lhes contaram os ouvidos.

Os pêlos pouco se importavam, uma vez que ela não os arrancava, mas votaram não, pois sabiam que isso, com efeito, os fariam arrepiar-se. As unhas não chegaram a conhecê-la bem, mas agora estavam compridas e curiosas, votaram sim. Disseram as bocas que os ouvidos haviam sido menosprezados por ela antes e por isso votaram não. As mãos e os pés não a queriam, necessariamente, queriam qualquer uma, então votaram sim e os braços os acompanharam, as pernas estavam cansadas e cochilaram. O Rei ordenou que as deixassem dormir. Os olhos disseram que iam votar depois. Começaram as idéias a votar. As palavras votaram sim, adoravam ler-se nos textos daquela menina. A Mente era ferrenhamente contra. Apesar de não ser contra a maioria, era extremamente nociva a presença daquela menina, escutou-se nessa hora um suspiro do Masoquista que havia acabado de chegar. Tinha se matado e tinha ainda a faca ao peito. Uma risada percorreu o grande salão, e logo ela foi mandada presa e é uma pena, não ia poder votar.

Enfim, todo o julgo intelecto de escritores famosos e intelectuais votaram não, eram do partido da Mente, e sabiam do mal que a menina causaria. O Rei falou que ia abster-se do voto por enquanto, queria saber a opinião do povo. Disse que as personas de mim votariam depois e o Trovador quase gemeu alto demais, pois era tudo um grande drama e ele adorava.

A camisa era contra, porque era branca e, portanto, pura, não queria sujar-se e todas as camisas eram brancas, só haviam algumas pretas que estavam ausentes, a Rede de balançar-se não podia falar nada, era branca também mas estava suja, absteu-se de votar.

As calças cruzaram as pernas, porque não tinham braços, sabiam que seriam tiradas antes do sexo, mesmo, mas seriam tiradas também antes do banho, e as vezes antes de dormir, quando me dava de dormir pelado.

As casas fizeram um grande discurso e acompanhou-as um ilustre, que era o próprio Castelo, defendiam que se resistir a vinda daquela garota, haveria guerra e, como de praxe, as casas seriam as mais destruídas, logo, eram a favor da vinda pacifica da garota.

O Exercito se dividiu, eram aqueles mesmo que morreriam por nós e aqueles que tinham medo. As armas tinham sede e votaram não.

Queriam sangue. Já os escudos e armaduras disseram sim, pois estavam cansados e desgastados, mesmos os mais novos. Fora difícil expulsá-la, seria mais difícil ainda mantê-la longe. O Povo todo votou não. Não gostavam de ver o Rei sofrer. Era um bom povo, esse.

E também só chovia e tudo se destruía quando o Rei estava triste. Já os ministros! Esses votaram sim, queriam mudanças, a grande maioria, queriam reformas, republicas e dividir o Reino e o Rei só os atrapalhava, que saísse de seus caminhos tortos.

O chão em si votou não. Gostava de ser campo de batalha, as nuvens e a maioria dos astros e coisas naturais votaram que sim pois achavam belo ver o drama se desenrolando. As lágrimas disseram que não queriam mais rolar e descer pelo rosto e todos se comoveram, alguns até mudaram seus votos para não. Os olhos apoiaram-se nas lágrimas e nem necessitou de justificativa. Só um olhar.

Sade disse que estava mais para a volta dela, e os filhos sonhados disseram que não queriam ver nela, uma mãe. Os palhaços que estavam fazendo rir as crianças do povoado disseram que eram contra a tristeza e votaram não e quando o Masoquista exclamou um sim tão sofrido e tão exultante seguido de um breve e chatíssimo discurso sobre sofrer, sofrer e sofrer começou um caos e muita gente quis bater nele e socá-lo, pela sacanagem de querer fazer todos sofrerem. Alguns quiseram mudar os votos, principalmente os astros que estavam começando a se cansarem, tanto que uns, depois dos votos, foram embora. Os lápis, borrachas e livros e os materiais desse tipo votaram que sim, pois isto resultaria em mais escrita.

Votou a Princesa e votou pelo não, implicava em guerra mas em menos sofrimento para o Rei, mesmo ele não tendo certeza de que iria sofrer com o caso. Mas era simples, havia sofrido antes, por ela, sofreria de novo. A Mulher que estava calada votou não, também. Chegou a tão esperada vez do Trovador, que votou Não. O que era raro, pois sempre adorava drama e desprezava a guerra. Fora um não tão simplista que formou-se um burburinho que nem a guarda real conseguiu impedir e calar.

Todos estavam ansiosos e agitados pelo voto do Rei que era agora o último, mas estava calado. O Trovador anunciou que ele esperava alguém especial e veio logo assim, depois do anuncio uma bela mulher ruiva, baixa e infernocelestial, a Anjo, uma doce mulher alta de cabelos lisos dourados, conhecida como Deusa e outra ainda, de cabelos castanhos encaracolados, de um olhar muito confuso e amante, A Rosa. Eram os Amores. Inimigos do Reino. As Amazonas. Houve mais caos e dessa vez a própria guarda real estava entre os indignados e escandalizados. As armas se sacaram, prontas. Mas o Rei mandou-as de volta às suas bainhas. Chegaram as três bem próximas do trono do Rei e mesmo elas não tinham coragem de se aproximar mais. Sussurraram algo que nem mesmo os ouvidos mais atentos ouviram. Nem mesmo as palavras souberam dizer o que elas diziam. O Trovador abriu um sorriso que saiu correndo pelo saguão e o Rei fez abaixar a cabeça, em aprovação. Elas viraram e saíram e fecharam-se as portas que estavam curiosas e incrédulas. O Rei sorriu triste para a Lua, que estava calada, com seus cabelos negros encaracolados, ela não havia votado, mas sabia-se seu voto, justo ela que tinha sido uma das Amazonas agora era amiga do Rei.

O Rei levantou-se e fez seu pronunciamento.

Passou-se mais de uma década até que ele terminasse de falar e explicar porque havia chegado àquela conclusão.

Havia optado por uma decisão até então inédita: A simples omissão daquilo tudo. Era o esquecer dela, ou o sentimento dela, um mandar enforcá-la… Ou antes, nem lembrar-se de enforcá-la.

Ela viria e ele a olharia nos olhos e a cumprimentaria, mas não a amaria. Não iria amá-la nunca mais. Pois a amava ainda.

Não haveria guerra, nem drama. Nada de esganar-se ou engasgar-se com nada. Não era um fim, e sim um esquecer-se do começo.

Esquecê-lo justamente por lembrá-lo demais. Era um perdão, ou antes, um esquecer-se do crime e da criminosa.

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Juro, do fundo do meu coração, que quando escrevi esse texto nem sabia da existencia de Sandman ou de Neil Gaiman. Acreditem se quiserem.
Esse é um dos meus textos antigos.
Da época da minha garotinha ruiva.
Resolvi publicar pq ela voltou de novo, então achei bem contextual. Eu poderia dizer que houve outra Grande Reunião como essa quando ela re-re-re-reapeceu, mas tudo hoje em dia é bem mais inconsciente.
É um texto bom, e poucas pessoas já leram ele.
Algumas pessoas vão se reconhecer em alguns personagens. Essa é a graça de ser meu amigo, huh? Você ganha um lugar em alguma história que eu invento por ai e um nome legal, tipo Lua, Anjo ou coisas do tipo.

9.

Sou tudo o que poderia ser, ou sou então o reflexo da minha história. Se não gosto de ervilhas é pelo seu gosto.

Mas é-o também por não ter história em meu passado que me fizesse gostar. Nenhuma historinha ou conto pra que eu

gostasse de ervilhas.

No final, sou o que me fizeram de mim. Se sou rebelde é por que me forçaram a sê-lo, se sou casto, sou por que assim

me ensinaram, ou assim vi. Tudo tem um certo fundo antigo, tudo tem um aspecto que não foi decidido por nós.

Um filme que vimos, um livro que lemos, uma frase que nos dizem e nos comove, sou algo entre o que me ensinaram e o

o que o mundo me mostrou. Se tomo certas decisões é por que assim me cabe a lembrança de que aquilo é o certo, ou

o melhor a ser feito, pois assim me mostraram os meus parentes, a vida, o Destino, ou seja lá quem.

Mas não me caiu do céu a idéia. Não concebemos formas que não vimos, nem inventamos algo de verdade.

Somos frutos do mundo…





Hum…

6 09 2009

Fiquei aqui pensando que texto publicar essa semana. Eu já tinha um em mente, desde segunda-feira, um daqueles que eu escrevi recentemente. Mas quando sentei na frente do PC pra publicar o post comecei a escrever um texto que vim ruminando a semana inteira. E acabei de terminar de escreve-lo.
Achei legal publicar ele agora, é um texto muito bom, apesar de grande. Tenho certeza que não vão se arrepender de ler.

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A história do gato cinza-preto

Rafael Rabelo

Não é mistério que eu imagino demais as coisas. Não há segundo ocioso na minha mente, todos trabalham. Procuro novas rimas, novas historias, novos problemas, soluções para contas interminaveis. Faço calculos e poemas enquanto espero um onibus passar, pra que eu possa atravessar a rua.
É uma dessas historias que imagino nos momentos vagos que vou contar agora.
Eu estava sentado num dos bancos da faculdade quando passou ali um gato cinza e preto, muito bonito, com um olho meio fechado, talvez por mordida de algum inseto. Vivem muitos gatos assim por ali, meio abandonados, mas não passam fome nem são maltratados. Passou por mim e foi beber agua na torneira que havia ali do lado. Senti-me tentado a abrir a torneira pra dar de beber à ele que ficava sempre levantando a cabeça, meio assustadiço, mas se eu fizesse um movimento muito brusco, ele se levantaria e correria de maneira que achei melhor não incomoda-lo.
Passado um tempo, começou a brincar de querer pegar vespas com as garras, não achei muito esperto, mas ele se mostrou muito capaz, extremamente capaz e conseguiu pegar duas ou tres. Logo depois disso me olhou nos olhos. E, nossa, foi um olhar profundo, senti como se ele pudesse ler meus pensamentos ou ver a minha alma, nunca, nenhum ser humano olhou-me com tamanha serenidade e profundidade. Me senti tonto por um tempo que não posso dizer o quanto, pois me perdi. Ele desviou o olhar. Olhou pro lado, pra uma garota que passava. Depois olhou pra mim de novo. E eu ali, pasmo. De repente eu soube que ele era macho. Que não tinha nascido ali, na faculdade, nem mesmo nessa cidade. Havia sido trazido de outro estado por uma familia, numa caixa de papelão, ainda novo. Antes disso, só se lembrava da grama de uma provavel casa de campo. Tinha sido criado por uma menina, filha caçula de um casal muito unido que vivia perto da faculdade, depois de algum mato, num condominio fechado. Teve uma boa vida ali até ficar grande e mais independente. Amou. Amou muitas gatas. Deve ter uns dez filhotes, pelo menos, espalhados por aí. Se arrependia de não ter visto nenhum, nenhuma vez. Quando a dona cresceu, perdeu o interesse nele e ele passou a se sentir isolado, a ir mais longe fora de casa, chegou a atravessar a pista uma vez. Jamais faria isso de novo, nunca teve tanto medo.Fez muitos cachorros de idiotas, muitos, mais do que podia lembrar. Era como um passa-tempo, já que a dona passava mais tempo no telefone e sempre tirava ele de cima da cama dela e o expulsava do quarto. Só parou quando um cachorro pegou ele e quase o matou. Ele só conseguiu escapar daquele enorme pastor alemão depois de uma briga de garras e dentes da qual ele só escapou por ter encontrado um lugar pequeno que o cachorro não conseguia entrar. Ele sangrou muito aquele dia, perdeu a consciencia, ficou desmaiado um dia inteiro. Depois disso sobreviveu comendo lixo aqui e ali, estava meio perdido, meio morto. Achou que fosse morrer, mas não tinha medo. Uma senhora o encontrou e cuidou dele, uma boa senhora, aquela. Ele podia ter vivido ali, com certeza, e teria sido feliz. Mas tanto ele quanto a velha senhora que todo dia lhe alimentava e lhe fazia carinho sabiam que ele tinha uma dona e que ele voltaria pra ela, ela poderia estar preocupada, poderia estar chorando, poderia estar procurando por ele. Uma noite ele saiu da casa da velha senhora e caminhou pela rua sem olhar pra trás. Quando chegou na sua antiga casa, não viu ninguém. Estava tudo apagado, tudo fechado. Tudo meio morto. As esculturas do jardim não estavam mais lá. Nem o cesto de lixo, nem os passarinhos, nem sua tijela de água e de comida. Tudo tinha sido levado. Roubado? Ele não era tão burro… Tinha visto outros gatos serem abandonados, esquecidos. Já até esperava isso. Preferiu ter morrido. Pensou se voltaria pra casa daquela senhora, mas teve medo de ser abandonado de novo seguiu sozinho, esperando que algum carro ou cachorro o pegasse, ignorando até mesmo os passarinhos que passaram perto deles. Andou por dois dias, dormindo na grama e no mato, comendo insetos e lagartos. Se tornou um bicho. Ele era um com a selva. Gostava disso. Mas tinha medo, acho que como todos temos, de ficar sozinho. Agonizar sozinho. Depois chegou na faculdade, encontrou outros gatos que viviam ali e descobriu que eram medrosos e arrogantes. Evitavam-no. Mas que comiam bem e não estavam sós. Havia água e estudantes que passavam aqui e ali, as vezes fazendo carinho. Tinha até cachorros! Ha! Cachorros! Nunca nem chegaram perto dele. Ele os amedrontava só com a sua calma, um olhar de quem lutaria até a morte ali mesmo.
Recuperei minha mente quando ele desviou o olhar por causa de outra estudante. Ele adorava as estudantes daqui, eu soube, elas faziam ele se lembrar de sua dona. Talvez ela fosse uma delas, afinal, e parasse e olhasse pra ele e o acolhesse de novo.
Eu ainda estava pasmo.
Ele me dirigiu um ultimo olhar e bocejou, ou mostrou os dentes afiadissimos.
Saiu de baixo da torneira e parou ali, entre as plantas do jardim da faculdade, olhando pro portão de entrada. Talvez estivesse pensando em sair. Talvez estivesse esperando alguém entrar. Talvez só tomando sol na terra úmida.
Só então me dei conta de que tinha imaginado aquilo tudo. Mais uma das minhas viagens casuais.
Bom, a verdade é que nenhum cachorro ousou perturbar o gato enquanto eu estive ali, olhando pra ele de costas pra mim, vigiando o portão da entrada.
mas a verdade é que ser humano algum pode conhecer a historia daquele gato, quem pode dizer que eu imaginei errado?

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Pela escrita, pelo tema e pela abordagem, acho uma das melhores cronicas que eu já escrevi. ^^
Fiquei muito feliz quando terminei.
A Lua foi a primeira que leu. :D





O Garoto que amava

15 08 2009

Rafael Rabelo

“Que ninguém diga que ele nunca amou.”

Ele era um garoto doce. Gentil. Conhecia muito de muitas coisas e amava a vida e a beleza das coisas mais do que as pessoas jamais compreenderiam se ele lhes contasse. Ele era simples. Tratava-se apenas de uma parte de mim, ou uma parte de você. Uma parte que se perde em algum momento de nossa infancia mas que não se perdeu nele pois isso era tudo o que ele era. Ele crescia, claro. Garoto era modo de falar, já era quase um homem e era um homem feliz. Tinha um bom emprego, uma boa casa, ótimos amigos e se divertia com frequencia. Porém, é óbvio, sua diversão e seus bons amigos não eram para ele o que seriam para pessoas como nós. Eram mais profundos. Alguns desses amigos nem o conheciam. Nunca nem ouviram falar dele. Outros nem existiam. Algumas coisas que ele fazia pra se divertir eram impossiveis e impraticaveis. Para nós, eu digo.
Porém, apesar de tudo ser ótimo, não era perfeito para ele, já que havia algo que seu espírito simples não podia atrair.
O amor. De todos os sentimentos esse era o que mais lhe intrigava e o fascinava. Ele queria amar. Queria muito.
E um dia aconteceu, quase que naturalmente. Um “oi”, um sorriso, uma pausa. Outro sorriso e tudo aconteceu. Estava ali, ele podia sentir! E percebeu que fora iludido, enganado e feito de bobo. O amor era muito mais, era alheio e exterior, agora ele compreendia. Precisava, claro, que a pessoa também lhe amasse, o que não aconteceu. Não dessa vez. E então ele sofreu, chorou e sentiu o gosto salgado de suas proprias lágrimas amargas. Mas ele continuava simples, continuava suave e gentil. Esperava que alguma garota como ele aparecesse e lhe entregasse o seu coração ao mesmo tempo que ele lhe entregava o dele. A garota veio, claro, mas seus olhos se cruzaram e suas almas, não. Deixaram assim.
Depois de diversas dores, diversos amores mal-resolvidos e essas coisas, ele resolveu que mudaria. Era um fato quase incontestável que era impossível as pessoas gostarem dele como ele era e que talvez se ele mudasse, alguém o amaria. Não deu certo, claro. Não que as pessoas não amassem o “novo” ele que ele havia criado baseado em jornais e revistas, mas era dificil manter aquela imagem. Dificil do tipo impossivel. Enfim, observando os outros percebeu que não ser amado era comum e normal. Alguns diziam que era a regra, “se você ama, então não te amam”.
Ele pensou o seguinte, que se dando às pessoas o que elas queriam, elas não o amavam, bastava que não desse. Bastava que recusasse e pôs em práitca o que havia pensado.
Esperou amar uma garota. E amou mesmo e não pense você que por não ser, como se diz “espontaneo”, não foi verdadeiro, por que ele sabia que era. Tendo amado ela, a conheceu. Ficaram amigos, mas não muito. Sairam juntos algumas vezes e então ele conheceu outra garota (essa sim, uma qualquer) e começou beijá-la de vez enquando. Foi ai que a garota que ele amava realmente olhou para as costas dele e o amou. Amou e amou muito. E se sentiu triste pois ele abraçava outra, beijava outra, acariciava outra, sem saber que era justamente esse o motivo daquele amor.
Ela, num dia frio, depois de irem ao cinema, lhe confessou que o amava. Ele olhou com indiferença disfarçada e fingiu que fingia um sorriso. A abraçou, não muito forte e sem muito ânimo, passou a mão entre seus cabelos e a beijou na testa e depois nos lábios, um beijo seco de noite fria. Ele guardou pra si toda a felicidade e alegria que sentiu e fez isso muito bem.
Com o tempo, começaram a namorar e até moraram juntos. Porém, ele não deixava de sair algumas noites, sem ser claro aonde ia. Se embranhava no escuro das pessoas que não podem se mostrar completamente à quem amam, tudo isso para não pertencer à ela pois se pertencesse, ela o deixaria.
Enquanto isso a mulher que ficava para trás estava feliz por ter conseguido fazer o coração frio daquele homem derreter diante de seu encanto e o amava “como jamais alguém amara outro alguém”.
Que nunca digam que o garoto não amou.

CaminhanteNoturno

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As vezes, caminhando por trilhas desconhecidas você pode ter a impressão de estar perdido, mas lembre-se de que você é sua casa, à sua frente está seu norte e que enquanto houve chão haverá pra onde ir…





Atos e Peças, mentiras verdadeiras.

20 02 2008

Caixinha de Balas

Hoje fiz algo horrivel. Sim, fiz algo terrivel, tão vil, tão desvirtuoso e rude, tão não-eu. Hoje, eu menti.
Disse eu uma mentira deslavada, daquelas que fazem torcer o nariz quem escuta e sabe que é mentira. Eu torci o nariz quando a disse. Eu ODEIO mentiras ditas. Mentir pra si mesmo, tentar se enganar, tentar viver você de um jeito que lhe é impossivel vá lá, mas mentir a outra pessoa, real, tão existente quanto você tão carne quanto você, ah, isso é terrivel, fede. E o pior, menti eu pra minha mãe. Deus sabe que estou me martirizando, pessando em dizer a verdade enquanto é tempo, contar tudo e esclarecer os fatos ocorridos, mas não é tão simples. Estou aqui, agora, filosofando deitado numa rede aos fundos de casa com olhar soturno e admirando a beleza do anoitecer sem pôr-do-sol, vendo o céu numa faixa entre o muro e o telhado da casa. Estou a devorar balas.
Devoro por impulsividade. Minha mãe as trouxe, o que me deixa mais mal ainda, nunca me traz caixinha de balas. Deve você te-las experimentado já em algum ponto da vida, uma caixinha de balas pequeninas com sabor artificial de laranja. Até soltei um riso me lembrando da propaganda. Esta com uma na boca, era a quarta ou quinta balinha e eu a salivava afim de consumi-la o mais rápido possivel. Fazia isso por prazer. Me sentia sujo e o prazer de sentir aquele doce, aquele sabor da bala quando acaba, aquele açucar com sabor alaranjado me fazia esquecer do meu pecado.
Minha mãe veio ao fundo e disse a ela para não ascender a luz. Não gosto de luz quando estou deitado e pensando, me incomoda.
E ve-la me faria chorar, implorar perdão e me trair. Enfiei mais uma bala na boca.
Sim, eu havia mentido, mas como não mentir, naquela situação? Minha irmã havia traído a confiança de minha mãe e eu a havia pego em flagrante. Deveria relatar a ela! Delatar minha irmã! Ser fiel ao meu dever de ser sincero no que for possivel pensar em minha irmã como sendo inconsequente e irresponsavel e passivel de punição. E disse isso a ela! Disse que falaria que diria tudo como houve, como vi, o que vi, diria até que não foi culpa dela, a defenderia perante a corte de jurados que se formaria para julga-la. Mas como recusar uma súplica de joelhos? como rebater aqueles argumentos que diziam a respeito de liberdade e do castigo que viria ligeiro e injusto? Ah! Veio a minha memória a imagem do rosto de minha mãe e a súplica dela “Ajuda a cuidar de sua irmã, filho, que ela tem cabeça fraca…” Tratei de colocar mais tres balas de uma vez na boca e a balançar a rede levemente, tão levemente que me ninava. Mas o determinante foi o choro do meu irmão, ainda bebia leite na mamadeira e agora desatava a chorar com o rosto enfiado no sofá. Chorava o choro da minha irmã. Chorava com ela, por ela. Que eles nunca saibam, mas quase chorei também. Tanto que disse que pensaria, que iria refletir sobre o que fazer e dispensei minha irmã da sua auto-flagelação. E justo nessa hora, como que por destino, por sobrenatural ou metafísico, chegou minha mãe. Tentei fazer parar meu irmão e não consegui.
Minha irmã estava no quarto. Abri o portão com minha mãe me questionando sobre o choro do meu irmão. Primeira atitude: Não sei.
Salivou-me a boca e o garoto não parava, manhoso agora por chorar demais. E o pior, ao perguntar sobre por que chorava, me culpou!
Ah, minha alma rendeu-se ali. Era eu o motivo do choro daquele garoto. Eu era mal. Vilão. Arquinimigo. Pouco tempo atras ele chorava para compadecer da minha irmã, a quem eu flagelava. E co minha mãe me perguntando do que ele falava, algo sobre “contar mãe uma coisa” tratei de por minha imaginação a trabalhar para aquele mal vil. Disse que ele havia comido doce e que eu ia delata-lo. O pestinha tinha me colocado naquela posição e eu agora era forçado a mentir. Olhar nos olhos de minha mãe e dizer: “Sim senhora, só isso”.
Minha alma estava trespassada por aquelas palavras e por aquele sorriso de mãe satisfeita. Fez carinho no meu irmão. Entendera que ele estava arrependido e por isso chorara. E logo depois o presente do mercado, uma caixinha de balas pra cada um.
Não aguentei e aqui estou, deliberando sobre o ocorrido. Me ferindo ao pensar nisso. Acabei traindo-me por algo maior. E isto foi trair-me mais. A verdade é que eu quis manter a ordem em casa, pois ordem era raro e valiosa. Também tive muita dó de minha irmã, normalmente não sentiria dó, posto que dó, para mim é algo tão horrivel quanto a mentira (Não minta, não sinta pena de mim) mas e para
ela? Ela já não era livre, contar a verdade seria cobrir com pano preto a gaiola de uma pássaro, tirar dela o vislumbre de céu.
Quem era eu pra fazer isso? E minha mãe não a julgaria. Tinha o préconceito digno das mãe superprotetoras e corujas, não ía ouvi-la, simplemente decretar-se-ía a prisão perpétua daquela alma jovem. Quem era eu para atirar minha irmã assim, aos leões?
Mas isso não justifica meu erro. Estou entre Spinoza e Kant. Mas numa questão assim ficaria ao lado de Kant. Primeiro a Verdade, depois a dor. Já consumi metade da caixinha de balas e o mais interessante, estou mordendo-as. Chupar uma bala doce é como fazer sexo para quem sabe apreciar uma bala, primeiro, a saliva consome a resistencia da bala, o ato se consumando e logo depois, aquele centro que é como que puro açucar, o prazer enfim realizado. Ao passo que morde-la foi como drogar-me. Prazer rápido e de mesma intensidade mas sempre requerindo mais e mais e mais, que quase me considerei viciado em balas e morde-las. Tentando destrair-me imaginei quantas balas tinham havido naquela caixa, se eram o mesmo número em todas, se era por peso aproximado que colocavam a quantia de balas em cada caixa, tanto que imaginei
as fábricas de guloseimas e as balinhas brancas pequenas sendo colocadas nas caixinhas laranjadas e trasparentes.
Definitivamente estava eu viciado em balas. Havia virado a caixinha na boca e tinha cinco balas que faziam minha boca salivar muito e não conseguia morde-las, tive de esperar ficarem moles e frageis pra romper com meus dentes a agora fragil estrutura. Estava enjoado e com ansia. Açucar demais e muito depressa. Levantei-me com o peso de ser mentiroso e desvirtuoso, mas com a responsabilidade de ter feito algo que julgava o mais correto. Bati com força a caixinha de balas encima do forno microondas afim de minha mãe perguntar-me o que havia de errado. Mas não, nem virou-se. Ocorreu-me que eu sempre ficava ali, ruminando coisas filosoficas em minha rede aos fundos de casa e ela nunca se dava ao trabalho de perguntar o que era. Eram sempre assuntos sérios e exigiam uma atenção exclusiva e exaustiva, mas ela me via nesse esforço e nem me indagava sobre nada do pensamento. É, nunca me indagava e nada. Pois deveria.

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Coloco isso como maneira de redimir a alma que se afoga em si mesma. Não teve nada de mim nisso, teve tudo de mim.





A Primeira Rosa

14 01 2008

Decidi dar-lhe uma rosa hoje. Não sei como me ocorreu a idéia, talvez tenha visto as rosas no canteiro da escola e tenha-as associado a ela e seu cabelo ruivo.
Soube que ela mereceria uma rosa no mesmo instante. Pensei em como faria para dar-lhe o presente, mas sabia que poderia entrega-lo antes dela entrar no Automovel Clube, onde tinha ensaio com a Banda Municipal.
Mas dinheiro não tinha para comprar um buquê, tinha talvez uns trocados, pensei um pouco mais e conclui que deveria entregar uma unica rosa, que seria mais poético e mais belo.
Uma rosa cheia de adornos não seria cara e seria discreta, ou mais discreta que um buquê enorme. O Resto foi puro impulso. No instante seguinte desci a rua a procura de uma floricultura, meio correndo, meio andando.
Tudo o que eu fazia era consequencia de outro fato, era como se eu fosse um robô e seguisse pelo único caminho que poderia, não havia nunca entregado-lhe nenhum presente e uma rosa parecia me ser o mais cheio de significado, logo procurava uma floricultura, então comprar a rosa, e depois entrega-la. O que diria eu não sabia. Não estava pensando muito sobre o que estava fazendo, tinha uma idéia e ia realiza-la.
Atravessei a Praça Rui Barbosa e avistei ali o Automovel Clube e convenientemente havia uma floricultura na outra esquina, não hesitei, entrei e comprei uma rosa que não me saiu muito caro.
E era um rosa bonita, vermelha como eu havia imaginado, os espinhos haviam sido tirados e tinha pequenas outras florzinhas brancas enroladas em seu caule. Tinha um plástico e um papel em tons avermelhados como adornos. Uma fita vermelha prendia tudo em conjunto.
Eram a essa altura umas uma e meia da tarde e ela chegaria para o ensaio as duas, tinha que esperar ali meia hora. Recolhi-me a uma cobertura pois havia começado a chuviscar e parecia que iria chover mesmo, em pouco tempo, pois o céu tinha um ar cinzento de tempestade e o sol já havia sido engolido pelas nuvens acinzentadas. Era como se tentasse nadar em meio a um mar de tons cinzas.
Esperei ali uma hora, quando deu duas e meia e ninguém da banda havia aparecido, fui até o Clube e perguntei meio angustiado ao guarda que fazia a segurança do lugar:
- Com licença, o senhor sabe me dizer porque ninguém apareceu hoje para o ensaio?
Ele fez uma cara triste, como que por compaixão, devia ter visto a rosa na minha mão.
- Sinto muito, hoje não tem ensaio. Ensaiam somente nas terças e nas quintas. E hoje é segunda-feira.
Nessa hora, a chuva que era fina, engrossou.
Foi como se Deus estivesse caçoando de mim. Olhei pro céu e blasfemei algo como um obrigado sarcástico.
Ia atravessando a rua, indo na direção da praça, quando a vi.
Estava ali como se sempre estivesse. Como, não sei, uma árvore ou um banco. Vestia um conjunto branco, como que de propósito, para fazer saltar a vista o cabelo ruivo, bem no meio da praça, onde havia uma cobertura para lhe proteger da chuva.
Pessoas passavam, iam e viam, mas lá estava ela, parada, alheia a chuva, ao verde, a correria das pessoas que se protegiam!
Só então me dei conta de que ainda estava com a Rosa na mão. Atravessei a rua meio correndo, alegre, com um sorriso enorme no rosto! Destino, pensei, Destino! E quando pus os pés na praça, um garoto bem vestido, com uniforme de escola e calça jeans, tênis de marca e bolsa cara, a comprimentou com um belo beijo na boca.
Ela parecia tão gentil, tão suave! Era tão belo o jeito que se erguia na ponta dos pés para beija-lo, até o jeito que ela o abraçava parecia suave. Tão suave que tornava ela mais delicada que algodão ou seda.
Tudo nela me apaixonava de novo que até esqueci que era outro que ela beijava, não eu. Então eles conversaram, deram as mãos e saíram em direção a uma rua bem movimentada e comercial.
De repente, me vi ali, na chuva, sem saber se avançava ou se recuava, com uma flor em uma das mãos e meu coração que se desfazia na chuva, na outra. Não tinha mais forças, estava encharcado e continuava a me molhar. Eu havia parado pra ver a cena logo na calçada da praça, onde não havia coberto.
Eu pensava milhões de coisas, mas de repente brotou um sorriso no meu rosto. Sabia o que faria. Entregaria a rosa amanhã. Era simples, eu a amava e não havia nada que eu pudesse fazer mais.

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Sim, isto é um fato real, aconteceu comigo, faz parte de mim, como um braço ou uma perna.