Arquivos do Autor:Rafael Rabelo

Sobre Rafael Rabelo

"Porque eu sou do tamanho daquilo que sinto, que vejo e que faço, não do tamanho que os outros me enxergam" Carlos Drummond de Andrade, meu Mentor

O Rato

Lá estava eu, escrevendo, como sempre, e um barulho me incomodava. Sempre este barulho. No começo, pensei que o estivesse imaginando, mas agora eu duvidava. De alguma maneira, tal barulho existia alheio a minha vontade onde nada poderia existir se eu não desejasse que existisse. Ergui uma sobrancelha e apurei os ouvidos: estava vindo de trás do sofá. Num pulo, agarrei o sofá e o virei, mas não encontrei a origem do tal som, então passeei pelo quarto, ouvidos ainda atentos e o escutei de novo atrás de uma pilha de livros encostados na perna de uma mesa e dessa vez me aproximei silencioso. Já havia feito isso dezenas de vezes, não importava como me esgueirasse, pulasse ou me atirasse, o som fugia. Era rápido demais. Ou não existia e eu o estava imaginando. Mas a questão é: Se eu o imaginava, e eu era capaz de criar qualquer coisa que eu imaginasse naquele lugar que era MEU, ele não se criaria? Arrumei o sofá em seu lugar e sentei, pensativo. Examinei de longe uma coisa que chamou minha atenção, os livros que eu derrubara para constatar que o som não estava vindo deles estavam todos marcados com pequenas mordidas nas capas e nas folhas. Fiquei chocado. Me aproximei e analisei o que pareciam ser mordidas de um roedor. Talvez um rato? O resto de alguma poesia que fora escrita a muito tempo? Como teria parado ali? Sentei de novo no sofá. Era desconfortável, estava ficando velho, mas me trazia muitas recordações para jogá-lo fora, mas já era hora. Ratos, quem diria. Tirei as almoçadas pensando em usá-las no novo sofá que eu fosse trazer e para meu espanto ali estava um enorme buraco que exalava um certo mal-cheiro, iluminei seu interior com uma antiga lanterna e vi um rato muito gordo, que parecia estar sofrendo e cansado. Provavelmente tinha feito um enorme esforço para se enfiar pelo buraco pequeno de baixo do sofá, ofegando da provavel corrida que tinha feito para fugir de mim. Fiquei intrigado. Desfiz o sofá e o rato permaneceu, tentando se afastar de mim, mas estava muito exausto e eu sorri triunfante, embora confuso e curioso. O rato não desaparecia por mais que eu desejasse que se fosse e o que poderia ser isso? Aqui era o reino onde eu imperava, um lugar que não existia para onde eu fugi quando minha antiga morada foi destruída por um coração partido. Eu havia criado este lugar do nada, da não-existência. Teria vindo comigo, este rato? Sobrevivido como eu? Teria vivido das minhas poesias? Dos meu livros e contos? O rato soltou um guincho de dor e tive a impressão de que sua barriga se inchara um pouquinho mais, mas afastei o pensamento, pois de repente ele pareceu desfalecer. Ousei me aproximar um pouco, mas recuei quando vi, novamente, sua barriga inchar um pouco mais. Tive a leva impressa de que ia explodir quando… Poff, explodiu. Fui invadido por cores e sons em uma turbulência violenta de imagens passando muito rápido. Senti sabores que havia esquecido com uma intensidade que poderia deixar um homem louco, vi cores que não existiam, soterrado por imagens e palavras que lutava para ocupar um espaço. Fiquei espremido entre sons que se gritavam. Violentado por toques e arrepios e dores inimagináveis, agarrei meu próprio corpo em uma tentativa desesperada de me proteger: grande erro. Aquela realidade se aproveitou de minha fraqueza para tomar todo o lugar e eu fechei os olhos para não ver meus livros serem devorados pela matéria que precisava de espaço para existir. Resisti por que era eu. Recobrei a consciência em um Bosque que eu conhecia muito bem. Eu nascera ali. Acompanhei civilizações crescerem e morrerem através de eras que passavam em minutos, vi arvores crescerem e estas eram mais antigas que as sementes que as geraram, mas nada destas coisas estavam ali naquele momento. Tudo deserto, nada além de um bosque. O bosque da solidão. Me lembrei de repente. O rato comeu o retrato que sobrara do reino que antes era a minha casa. O rato que sobrara. E agora, de alguma maneira, o reino voltara a existir a partir daquele rato, a partir daquele resto, daquela lembrança irrisível. Da sobra.


Eu choro enquanto escrevo isso. Me dói, como os antigos textos que escrevia na adolescência, so que pior, hoje estou adulto. Eu fico aqui fingindo que estou bem, ótimo, mas tudo desmorona. Nada sobrevive.
Minha mãe, doente. Os outros da família, infelizes. Os estudos andam difíceis e o dinheiro, pouco.
É como se eu tivesse feito todas as escolhas certas no tempo errado, e tudo cai como num castelo de cartas. Sinto até um pouco de falta da época em que pouco importava.
E como de todos sou o mais forte, não posso contar pra ninguém, além de você, caro desconhecido que lê, pois ninguém o faz além de você.

No fim, sei que não vou aguentar, muitos projetos meus vão morrer ou nem existirão, tudo por que o mundo não facilitou pra mim e praqueles que eu amo. E como um adolescente, me permito dizer: que doce será o derradeiro fim.


Um ótimo monstro

Eu jamais serei tão bom quanto vocês, afinal, eu sempre terei meu pé na escuridão e essa mancha no meu passado. Mas quer saber? Vocês também jamais serão tão bons quanto eu. Não verão as coisas como eu vejo, nem serão capaz do que eu sou capaz, de se entregar por completo a um ideal no qual ninguém mais acredita. Fazer o que ninguém mais faz.
Vocês são um bom par de Príncipe e Princesa. Eu sou um ótimo monstro.


Medieval

Nunca escondi, nem nunca esconderei, minha admiração pelos romances medievais. Pelas histórias de dragões, pelos castelos, pelas espadas. O primeiro livro que li, As Batalhas do Castelo, de Domingos Pellegrini, inunda meus pensamentos até hoje. Era mais honrado um homem viver pela sua espada e a vida mais dificil nos tornava talvez não melhores, mas mais merecedores.
Não atoa, hoje nos sentimos vazios e débeis, sem rumo, não existem mais obrigações que sejam necessarias para que sobrivevamos. Até as guerras eram melhores, os homens se olharam nos olhos antes de morrer defendendo ou atacando para sobreviver, era preciso ser forte pra puxar um arco, se enfrentava o inverno com relativamente pouca roupa e comiam comida que podiam, mesmo suja, mesmo estragada – passar mal era melhor que morrer de fome.
Sei que talvez seja errado pensar assim, mas o ser humano é melhor quando está próximo da miséria e da ruína, pois é quando se esforça e quando brilha, quando tem coragem, ou então morre.
Não acho que as pessoas deveriam morrer, mas talvez nos lembrar que a morte existe e está sempre tão próxima que podemos ouvir sua respiração no silêncio, para que nos faça aproveitar melhor a vida.


A pequena flor

A flor é pequena e nova
Vagorosa, não tem pressa
Mas também não se demora
Tem seu tempo, sua hora
Rompe o bulbo e se flora

Lentamente espledorosa
Diminuta, não se apavora
Não há quem apresse a flor
Ainda é miuda agora
Luta, florzinha, luta!

De uma cor a outra, se supera
à pequena flor,  aquerela
Ganhando vida, se embeleza
Teu tamanho é tua  promessa
De serena doçura e ternura
Num mundo enorme de amargura.


Simples assim

- Então você me pertence – Perguntei
- Sim – Ela respondeu, simples.
Cocei a barba, ponderando a situação até que consegui formular uma pergunta mais complexa
- Você tem consciência de que se eu acreditar em você, e você me ferir, vai me machucar como ninguém machucou outra pessoa na história das pessoas feridas?
- Tenho, completamente – Permaneceu enfática
Não havia muito mais o que fazer. Ela tinha aquele brilho no olhar, que só as pessoas apaixonadas possuem, e apesar de eu saber que ia doer, eu acreditei nela.
Na pior das hipoteses, renderia uma bela poesia, pensei.


Banho

Eu saio puro de um banho bem tomado. Iluminado, limpo, novo. Porém, ao me enxugar com a toalha da realidade, me preparando para voltar ao mundo, me sujo e me inundo de suor e ranho de outras pessoas que usaram também essa já desgastada toalha, perco todo o frescor e volto a ser o que eu era antes: humano, imperfeito e impuro.


No fim…

Estamos todos sozinhos, sempre.


No escuro

Eu fiquei ali, no  meu quarto, encolhido e com medo.
Medo sim, sempre tive muito medo.
Fiquei imaginando se ela não ia me abandonar, se ela não ia me trocar, se ela não ia deixar de me amar. Fiquei pensando centenas de coisas e entrei naquele velho redemoinho de emoções que eu conhecia tão bem.
Eu disse umas coisas bem horríveis, é verdade. Fui sincero como não se deve ser, como diz uma certa música.
E eu estava sendo punido por isso.
Eu estava tão arrependido e tão terrívelmente assustado esses dias, tão paranóico com o fato de que ela talvez me largasse que eu já considerava isso por só, uma bela punição, e olhe que eu estou acostumado a me punir. 
Nunca me senti tão arrependido de algo, de ter dito tais palavras. Palavras horríveis pra se dizer e toda vez que eu revejo a conversa eu choro incontrolávelmente, mas estar sozinho num quarto escuro é imensamente pior. Uma mistura de insônia e culpa e dor que daria um bom drink se fosse servida gelada.
É aquela sensação conhecida já, de que eu me traío e me saboto em tudo o que eu faço, sempre me destruindo no último momento.
O jeito é dar um suspiro longo e esperar os meus fantasmas se aquietarem e torcer pra que eles não acordem meu demônio interior, por que se isso acontecer então não terei sussego por um bom tempo. 


Poesia d’Amore Perfetto

Princesa, princesa minha,
Doce amada e desejada.
Teu cabelo, minha barba
Teus olhos de mel lambusada.

Doce sorriso terno e gentil:
Tenra inocência infantil.
Minha pequena, meu tesouro
Meu amor e meu ouro.

Teu cavaleiro aqui jurado
pra lhe salvar de teus amargos medos
E proteger de teus receios.
Roubar teu coracao e enamorá-lo

Os dias com morangos gelados,
As noites com o calor abafado.
Os toques secretos, olhares roubados:
Segredos jamais revelados.

Minha confidente, minha sina
Pequena Princesa amada minha,
De terrível bravura determinada,
Cheia de raiva e furia, se provocada

De triste beleza tocada
Carente, desajeitada,
Deslocada: pelo mundo ignorada
Mas jamais por ele derrotada.

E no calor de teu forte espírito
Me encontro bem aquecido,
Nas noites de frio, desprotegido
Teu toque sincero está comigo.

Caminha comigo pela vida, princesa
Te protejo, e do mal te  resguardo,
Serena donzela para mim perfeita,
Senhora do meu triste coração quebrado,
Por ti conquistado e consertado.

.

.

.

Claro, pra minha namorada linda que eu amo tanto, Lais Mastelari.
Faz muito tempo que não escrevo algo exclusivamente dedicado, ahco que quer dizer alguma coisa neh?
Ela fez mais do que me trazer do fundo do poço negro e úmido, ela cuidou de mim e me aceitou.
Me aceita.
Eh amor. 
E eu a amo mais do que tudo.


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.