Como eu me vejo

19 09 2009

A Grande Reunião

Rafael Rabelo


Reuniu-se então todo o mundo-eu. Todas as coisas que me formavam dirigiram-se ao Castelo Coração para tomarmos uma posição sobre um certo assunto, sobre uma certa mulher e o retorno dela – ou do sentimento dela. Reunimo-nos todos, pernas, mãos, braços, pêlos, barbas e até as casas foram, o próprio castelo daria a opinião dele, que seria o consenso da opinião dos seus tijolos e das suas vigas. Os cabelos quiseram opinar, também, olhos queriam se fazer ouvir ao passo que os ouvidos queriam mesmo é fazer fofoca com as bocas que, sozinhas, não sabiam o que estava acontecendo. Iam também as pessoas ilustres que tenho em mim, que eram o Rei, a Princesa, O Trovador, a Mente (que nada mais era do que um grande computador) e todo um séqüito de personalidades famosas, como O Sade (Que era sádico, obviamente), tinha um gay, uma lésbica, que não eram assim tão ilustres mas chamavam a atenção, haviam os filhos que nunca tive e que sonhava ter.

Reuniu-se a matéria toda. O meu mundo de sonho parou de girar e de repente era só o castelo, já que alguma coisa deveria existir para que se houvesse um lugar onde se fazer tal reunião. Veio até o Sol e fez questão de sentar-se na mesa principal, motivo: Não era do reino, foi convidado. No Reino não há sol. O Rei não gostava dele. Vieram astros intergalácticos também, a Lua, e a grande maioria das estrelas, outras ficaram no céu de preguiçosas, as nuvens quiseram vir todas, pois o vento viria, e é de conhecimento público que são inseparáveis. Os átomos estavam agitados e vibravam de emoção. Só havia tido outro grande conselho destes e já se faziam uns bons dois anos, que se sabe, quando é no mundo de sonho, viram milênios.

Enfim, haviam chegado todos. O Trovador cumprimentou cada um que veio e levou-se aí alguns anos. Houve um burburinho que logo foi calado pelo Rei. Mas não tardou (tanto) e teve inicio o debate. Quem abriu-o foi o Trovador, dizendo que era de suma importância a decisão de mais aquele conselho e que não era somente uma opinião, era tomar uma frente, uma posição, então o assunto deveria ser levado com seriedade, e por um instante olhou para os palhaços, que fizeram não ver a encarada.

Então começaram as bocas, disseram que os dentes estavam pouco se importando e que os lábios gostavam dos beijos dela, a moça em questão, e a língua também, e era então a favor da volta dela, os cabelos até se arrepiaram quando lhes contaram os ouvidos.

Os pêlos pouco se importavam, uma vez que ela não os arrancava, mas votaram não, pois sabiam que isso, com efeito, os fariam arrepiar-se. As unhas não chegaram a conhecê-la bem, mas agora estavam compridas e curiosas, votaram sim. Disseram as bocas que os ouvidos haviam sido menosprezados por ela antes e por isso votaram não. As mãos e os pés não a queriam, necessariamente, queriam qualquer uma, então votaram sim e os braços os acompanharam, as pernas estavam cansadas e cochilaram. O Rei ordenou que as deixassem dormir. Os olhos disseram que iam votar depois. Começaram as idéias a votar. As palavras votaram sim, adoravam ler-se nos textos daquela menina. A Mente era ferrenhamente contra. Apesar de não ser contra a maioria, era extremamente nociva a presença daquela menina, escutou-se nessa hora um suspiro do Masoquista que havia acabado de chegar. Tinha se matado e tinha ainda a faca ao peito. Uma risada percorreu o grande salão, e logo ela foi mandada presa e é uma pena, não ia poder votar.

Enfim, todo o julgo intelecto de escritores famosos e intelectuais votaram não, eram do partido da Mente, e sabiam do mal que a menina causaria. O Rei falou que ia abster-se do voto por enquanto, queria saber a opinião do povo. Disse que as personas de mim votariam depois e o Trovador quase gemeu alto demais, pois era tudo um grande drama e ele adorava.

A camisa era contra, porque era branca e, portanto, pura, não queria sujar-se e todas as camisas eram brancas, só haviam algumas pretas que estavam ausentes, a Rede de balançar-se não podia falar nada, era branca também mas estava suja, absteu-se de votar.

As calças cruzaram as pernas, porque não tinham braços, sabiam que seriam tiradas antes do sexo, mesmo, mas seriam tiradas também antes do banho, e as vezes antes de dormir, quando me dava de dormir pelado.

As casas fizeram um grande discurso e acompanhou-as um ilustre, que era o próprio Castelo, defendiam que se resistir a vinda daquela garota, haveria guerra e, como de praxe, as casas seriam as mais destruídas, logo, eram a favor da vinda pacifica da garota.

O Exercito se dividiu, eram aqueles mesmo que morreriam por nós e aqueles que tinham medo. As armas tinham sede e votaram não.

Queriam sangue. Já os escudos e armaduras disseram sim, pois estavam cansados e desgastados, mesmos os mais novos. Fora difícil expulsá-la, seria mais difícil ainda mantê-la longe. O Povo todo votou não. Não gostavam de ver o Rei sofrer. Era um bom povo, esse.

E também só chovia e tudo se destruía quando o Rei estava triste. Já os ministros! Esses votaram sim, queriam mudanças, a grande maioria, queriam reformas, republicas e dividir o Reino e o Rei só os atrapalhava, que saísse de seus caminhos tortos.

O chão em si votou não. Gostava de ser campo de batalha, as nuvens e a maioria dos astros e coisas naturais votaram que sim pois achavam belo ver o drama se desenrolando. As lágrimas disseram que não queriam mais rolar e descer pelo rosto e todos se comoveram, alguns até mudaram seus votos para não. Os olhos apoiaram-se nas lágrimas e nem necessitou de justificativa. Só um olhar.

Sade disse que estava mais para a volta dela, e os filhos sonhados disseram que não queriam ver nela, uma mãe. Os palhaços que estavam fazendo rir as crianças do povoado disseram que eram contra a tristeza e votaram não e quando o Masoquista exclamou um sim tão sofrido e tão exultante seguido de um breve e chatíssimo discurso sobre sofrer, sofrer e sofrer começou um caos e muita gente quis bater nele e socá-lo, pela sacanagem de querer fazer todos sofrerem. Alguns quiseram mudar os votos, principalmente os astros que estavam começando a se cansarem, tanto que uns, depois dos votos, foram embora. Os lápis, borrachas e livros e os materiais desse tipo votaram que sim, pois isto resultaria em mais escrita.

Votou a Princesa e votou pelo não, implicava em guerra mas em menos sofrimento para o Rei, mesmo ele não tendo certeza de que iria sofrer com o caso. Mas era simples, havia sofrido antes, por ela, sofreria de novo. A Mulher que estava calada votou não, também. Chegou a tão esperada vez do Trovador, que votou Não. O que era raro, pois sempre adorava drama e desprezava a guerra. Fora um não tão simplista que formou-se um burburinho que nem a guarda real conseguiu impedir e calar.

Todos estavam ansiosos e agitados pelo voto do Rei que era agora o último, mas estava calado. O Trovador anunciou que ele esperava alguém especial e veio logo assim, depois do anuncio uma bela mulher ruiva, baixa e infernocelestial, a Anjo, uma doce mulher alta de cabelos lisos dourados, conhecida como Deusa e outra ainda, de cabelos castanhos encaracolados, de um olhar muito confuso e amante, A Rosa. Eram os Amores. Inimigos do Reino. As Amazonas. Houve mais caos e dessa vez a própria guarda real estava entre os indignados e escandalizados. As armas se sacaram, prontas. Mas o Rei mandou-as de volta às suas bainhas. Chegaram as três bem próximas do trono do Rei e mesmo elas não tinham coragem de se aproximar mais. Sussurraram algo que nem mesmo os ouvidos mais atentos ouviram. Nem mesmo as palavras souberam dizer o que elas diziam. O Trovador abriu um sorriso que saiu correndo pelo saguão e o Rei fez abaixar a cabeça, em aprovação. Elas viraram e saíram e fecharam-se as portas que estavam curiosas e incrédulas. O Rei sorriu triste para a Lua, que estava calada, com seus cabelos negros encaracolados, ela não havia votado, mas sabia-se seu voto, justo ela que tinha sido uma das Amazonas agora era amiga do Rei.

O Rei levantou-se e fez seu pronunciamento.

Passou-se mais de uma década até que ele terminasse de falar e explicar porque havia chegado àquela conclusão.

Havia optado por uma decisão até então inédita: A simples omissão daquilo tudo. Era o esquecer dela, ou o sentimento dela, um mandar enforcá-la… Ou antes, nem lembrar-se de enforcá-la.

Ela viria e ele a olharia nos olhos e a cumprimentaria, mas não a amaria. Não iria amá-la nunca mais. Pois a amava ainda.

Não haveria guerra, nem drama. Nada de esganar-se ou engasgar-se com nada. Não era um fim, e sim um esquecer-se do começo.

Esquecê-lo justamente por lembrá-lo demais. Era um perdão, ou antes, um esquecer-se do crime e da criminosa.

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Juro, do fundo do meu coração, que quando escrevi esse texto nem sabia da existencia de Sandman ou de Neil Gaiman. Acreditem se quiserem.
Esse é um dos meus textos antigos.
Da época da minha garotinha ruiva.
Resolvi publicar pq ela voltou de novo, então achei bem contextual. Eu poderia dizer que houve outra Grande Reunião como essa quando ela re-re-re-reapeceu, mas tudo hoje em dia é bem mais inconsciente.
É um texto bom, e poucas pessoas já leram ele.
Algumas pessoas vão se reconhecer em alguns personagens. Essa é a graça de ser meu amigo, huh? Você ganha um lugar em alguma história que eu invento por ai e um nome legal, tipo Lua, Anjo ou coisas do tipo.

9.

Sou tudo o que poderia ser, ou sou então o reflexo da minha história. Se não gosto de ervilhas é pelo seu gosto.

Mas é-o também por não ter história em meu passado que me fizesse gostar. Nenhuma historinha ou conto pra que eu

gostasse de ervilhas.

No final, sou o que me fizeram de mim. Se sou rebelde é por que me forçaram a sê-lo, se sou casto, sou por que assim

me ensinaram, ou assim vi. Tudo tem um certo fundo antigo, tudo tem um aspecto que não foi decidido por nós.

Um filme que vimos, um livro que lemos, uma frase que nos dizem e nos comove, sou algo entre o que me ensinaram e o

o que o mundo me mostrou. Se tomo certas decisões é por que assim me cabe a lembrança de que aquilo é o certo, ou

o melhor a ser feito, pois assim me mostraram os meus parentes, a vida, o Destino, ou seja lá quem.

Mas não me caiu do céu a idéia. Não concebemos formas que não vimos, nem inventamos algo de verdade.

Somos frutos do mundo…


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4 respostas

23 09 2009
MAS

Cara, gostei muito desse texto. Não sei como comentar, simplesmente achei genial a personificação dos elementos que compõe a identidade e a consciência, mascarados como outra coisa ou não. Me lembrou como algumas pessoas te marcam a tal ponto de ser delas algumas das muitas vozes que brigam para ser a que fala mais alto dentro de você, quando existe um conflito interno.

Sobre Neil gaiman e Sandman, já tinha ouvido falar muito, e muito bem inclusive. Única coisa que li dele até hoje foi a introdução que ele escreveu para “Coisas frágeis”, mas mesmo assim me chamou atenção. Agora que você me lembrou, botei a baixar e assim que tiver algum tempo pretendo ler, valeu.

25 09 2009
M. Obregon

que texto bonito! muito legal esses personagens. ;)

25 09 2009
O Trovador

Que bom que gostou ^^

Au revoir o/

26 09 2009
poetriz

Adorei o final do rei.
Nem condenar, nem enaltecer.
Esquecer é de longe, o maior dos castigos…

Bjs!

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