Espectador da Vida e do Sonho
Rafael Rabelo
Estou no ônibus lotado de gente e estou de pé em frente a um banco para sentar-se duas pessoas, onde se encontram dois jovens, uma garota com olhar tímido e jeito frágil, usando uma blusa de lã com gola role que me causa calores ao repará-la, e ao seu lado um jovem rapaz, possivelmente de igual timidez, mais alto que ela, de cabelos mais escuros, porém não negros e um olhar distante. Está a ouvir música. Reparei que não se conheciam e vinham ambos de colégios diferentes e deveriam ter a mesma idade.
A menina aparentava ser mais jovem, mas tinha um ar de madura que marcava no rosto uma expressão quase que filosófica.
Vi que combinavam perfeitamente numa pintura ou fotografia e se tivesse eu uma câmera ali, e não estivesse o ônibus tão lotado e fosse eu invisível, de certo, tiraria aquela foto. Se soubesse eu pintar, os pintaria. Tentei imaginar porque não conversavam, pois era óbvio que estavam ambos interessados um no outro, mas ou eram tímidos ou era o ambiente que os intimidava e eu não os culpo. De repente, quase que me inclino ao jovem para dizer-lhe algo sobre a menina, mas retive-me, não poderia, não ali.
A menina percebeu que eu a olhava e ficou constrangida, desviei o olhar imediatamente, constrangido também. Tinha eu estragado todo o clima que não existia.
Imaginei-a dizendo “Olá” ao moço vizinho de assento e quase dei um pulo com o susto da surpresa de imaginar, mas foi mais incrível ainda ver o moço sorrindo-lhe e respondendo com um aceno de cabeça e um perguntar de nomes se seguiu e logo depois uns risos e trocas de confidencias, um olhar demorado, um sorrir, um contar histórias ambos, seguido de risadas e desabafos, já eram como amigos de infância ambos um do outro, o ônibus não existia, as pessoas a sua volta eram apenas restos do mundo que teimava em existir e resistir aquela realidade paralela que se criava em torno dos dois.
Calma lá que veio agora um carinho na mão, e a menina envergonhou-se, chegou a corar e num sobressalto o rapaz tentou beijá-la e até eu me indignei a essa altura, e a menina recuou transtornada, com a mão na boca de espanto.
O rapaz recuou e calou-se.
Fez-se o silêncio constrangedor e agudo. Esperávamos que Deus se pronunciasse sobre o ocorrido, mas nada aconteceu. O rapaz desculpou-se, educado e polido. Tentaram refazer aquela amizade amor outrora destruída, mas fora em vão, o mal havia sido feito e agora havia malicia no olhar de ambos.
Passou ali uma loira que ia descer num ponto e o moço olhou-a como todos os homens no ônibus, e a menina lhe apertou o braço num beliscão que o fez grunhir meio alto e a moça olhou-o e sorriu, desceu logo ali e foi-se como vento, ou queimou-se como álcool, deixando os dois, uma com ciúmes e outro com saudades.
Passado um minuto de conversas desinteressadas a moça olhou-me e me sorriu, de repente, senti-me objeto de causar ciúmes e vingança, recuei e abaixei a cabeça, ela entristeceu e partiu meu coração, mas logo o moço pegou-lhe a mão de novo e foi sussurrar-lhe um “você é linda”, todo constrangido e envergonhado, para ganhar então um beijo e uma mão suave acariciando o rosto quase barbado. Casaram-se ali mesmo e vi-os tendo seus filhos e também os filhos deles crescerem. Vi quando se divorciaram. A mulher com o rosto a verter lágrimas pela traição. Vi o fim daquele casal, ambos brigados e amargurados, mas depois de um tempo voltaram e se enamoraram de novo, dando o que falar aos filhos, agora já todos em faculdades ou formados. Vi-os morrer.
E angustiou-me tudo aquilo. Não porque morriam, mas porque não haviam se falado ainda. Não haviam trocado uma palavra se quer e era isto que me angustiava mais do que a minha própria vida me angustia. Estavam calados a olhar fixo para fora do ônibus, ou para o nada dentro dele.
E eu ia indo descer, avancei por entre todas as pessoas até o mesmo local onde havia estado a mulher loira que imaginei, e estava angustiado, sentia-me descrente no destino, mas pouco antes de descer, num segundo quase que ínfimo, pude jurar ouvir um “Olá” de voz feminina e sorri ao ver aquele ônibus partir. Nunca saberei se ouvi mesmo aquilo, ou se sonhei, como sonho sempre.
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Esse é um texto antigo eim… Mas muito bom, fiquei surpreso quando li.
Acontece as vezes de eu pegar um texto e pensar: “Nossa! Eu escrevi isso?”
Esse é um dos casos.
Gosto muito dele pq é uma coisa que eu fazia e as vezes ainda faço.
Não sou muito de ficar comerando datas desse tipo, mas feliz dia do amigo à todos os meus amigos e à todos em geral.
Acho que é bom pensar nesse dia como um dia pra fazer novas amizades (como se fosse preciso um dia pra isso) do que pra homenagear os amigos. Amigos não precisam de homenagens… Se precisassem, seriam somente interesseiros e não amigos. XD