O Medo de sonhar…

27 07 2009

O Medo de sonhar…

Rafael Rabelo

Tenho muito medo do sonhar. Temo o dormir tanto que até me impedi, algumas vezes, de lembrar-me do que sonho.

Digo isso porque o sonhar em mim atingiu um grau tão elevado que, em primeiro lugar, no sonho não sei o que sou exatamente.

Porque não sei se sou a criança que corre, um gato que é espancado, ou o taco que o espanca, nem se sou o menino que empunha o taco, nem se sou a menina de olhos azuis que faz gritar a boca, que também pode ser eu, um “Pare com isso!”.

E mesmo a frase posso ser, mesmo o pensamento pode ser-me. O tempo, também, poderia ser eu. A morte me é também, assim como o nascer.

Quando sonho, crio um mundo independente de mim, que existe como outro mundo como este, real.

Tenho medo, lhe digo, pois morro sempre nesses sonhos. Nascem também muitos eu’s em muitos lugares deste mundo-eu, mas morrem muitos de mim’s.

E a sensação de nascer eu conheço, mas a de morrer não. Apenas a sonho, mas a sonho de maneira tã dolorosamente real que não me parece sonho.

Estou eu morto. E o pior, quem matou-me fui eu. Fui eu o assassino, a arma do crime, o pensamento assassino e a psicologia assassina que me matou…

Sou eu tudo o que no mundo-eu existe de mal. Sou também o bem dele, mas este não o anula, nem o desculpa. Tantas pessoas em mim, quando sonho! Tantas vidas a serem vividas em tão poucas meias-horas de devaneios!

E além de tudo, nunca é o mesmo mundo. Sempre que sonho é um mundo diferente, outras pessoas, outros sóis e luas e cometas e céus.

Só há um mundo em mim que é fixo, sonhado e controlável, onde reino impossível sobre mim mesmo. Neste mundo sou-me sem medo de ser-me tudo o que há em mim.

E… Que terrível ver os sonhos das pessoas que eu sonho, que são eu’s meus!

Que terror ver sonhos meus ali, como se fossem de outros!

Que terrível ver um outro eu sonhando um mundo-eu-ele, onde esse eu é tudo, desde do gato que apanha, do taco que o fere, do garoto que o bate, da menina que grita, da frase que é gritada ao pensamento que todos pensam.

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As vezes, a imaginação pode ser uma maldição.





Espectador da Vida e do Sonho

20 07 2009

Espectador da Vida e do Sonho

Rafael Rabelo

Estou no ônibus lotado de gente e estou de pé em frente a um banco para sentar-se duas pessoas, onde se encontram dois jovens, uma garota com olhar tímido e jeito frágil, usando uma blusa de lã com gola role que me causa calores ao repará-la, e ao seu lado um jovem rapaz, possivelmente de igual timidez, mais alto que ela, de cabelos mais escuros, porém não negros e um olhar distante. Está a ouvir música. Reparei que não se conheciam e vinham ambos de colégios diferentes e deveriam ter a mesma idade.

A menina aparentava ser mais jovem, mas tinha um ar de madura que marcava no rosto uma expressão quase que filosófica.

Vi que combinavam perfeitamente numa pintura ou fotografia e se tivesse eu uma câmera ali, e não estivesse o ônibus tão lotado e fosse eu invisível, de certo, tiraria aquela foto. Se soubesse eu pintar, os pintaria. Tentei imaginar porque não conversavam, pois era óbvio que estavam ambos interessados um no outro, mas ou eram tímidos ou era o ambiente que os intimidava e eu não os culpo. De repente, quase que me inclino ao jovem para dizer-lhe algo sobre a menina, mas retive-me, não poderia, não ali.

A menina percebeu que eu a olhava e ficou constrangida, desviei o olhar imediatamente, constrangido também. Tinha eu estragado todo o clima que não existia.

Imaginei-a dizendo “Olá” ao moço vizinho de assento e quase dei um pulo com o susto da surpresa de imaginar, mas foi mais incrível ainda ver o moço sorrindo-lhe e respondendo com um aceno de cabeça e um perguntar de nomes se seguiu e logo depois uns risos e trocas de confidencias, um olhar demorado, um sorrir, um contar histórias ambos, seguido de risadas e desabafos, já eram como amigos de infância ambos um do outro, o ônibus não existia, as pessoas a sua volta eram apenas restos do mundo que teimava em existir e resistir aquela realidade paralela que se criava em torno dos dois.

Calma lá que veio agora um carinho na mão, e a menina envergonhou-se, chegou a corar e num sobressalto o rapaz tentou beijá-la e até eu me indignei a essa altura, e a menina recuou transtornada, com a mão na boca de espanto.

O rapaz recuou e calou-se.

Fez-se o silêncio constrangedor e agudo. Esperávamos que Deus se pronunciasse sobre o ocorrido, mas nada aconteceu. O rapaz desculpou-se, educado e polido. Tentaram refazer aquela amizade amor outrora destruída, mas fora em vão, o mal havia sido feito e agora havia malicia no olhar de ambos.

Passou ali uma loira que ia descer num ponto e o moço olhou-a como todos os homens no ônibus, e a menina lhe apertou o braço num beliscão que o fez grunhir meio alto e a moça olhou-o e sorriu, desceu logo ali e foi-se como vento, ou queimou-se como álcool, deixando os dois, uma com ciúmes e outro com saudades.

Passado um minuto de conversas desinteressadas a moça olhou-me e me sorriu, de repente, senti-me objeto de causar ciúmes e vingança, recuei e abaixei a cabeça, ela entristeceu e partiu meu coração, mas logo o moço pegou-lhe a mão de novo e foi sussurrar-lhe um “você é linda”, todo constrangido e envergonhado, para ganhar então um beijo e uma mão suave acariciando o rosto quase barbado. Casaram-se ali mesmo e vi-os tendo seus filhos e também os filhos deles crescerem. Vi quando se divorciaram. A mulher com o rosto a verter lágrimas pela traição. Vi o fim daquele casal, ambos brigados e amargurados, mas depois de um tempo voltaram e se enamoraram de novo, dando o que falar aos filhos, agora já todos em faculdades ou formados. Vi-os morrer.

E angustiou-me tudo aquilo. Não porque morriam, mas porque não haviam se falado ainda. Não haviam trocado uma palavra se quer e era isto que me angustiava mais do que a minha própria vida me angustia. Estavam calados a olhar fixo para fora do ônibus, ou para o nada dentro dele.

E eu ia indo descer, avancei por entre todas as pessoas até o mesmo local onde havia estado a mulher loira que imaginei, e estava angustiado, sentia-me descrente no destino, mas pouco antes de descer, num segundo quase que ínfimo, pude jurar ouvir um “Olá” de voz feminina e sorri ao ver aquele ônibus partir. Nunca saberei se ouvi mesmo aquilo, ou se sonhei, como sonho sempre.

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Esse é um texto antigo eim… Mas muito bom, fiquei surpreso quando li.
Acontece as vezes de eu pegar um texto e pensar: “Nossa! Eu escrevi isso?”
Esse é um dos casos.
Gosto muito dele pq é uma coisa que eu fazia e as vezes ainda faço.
Não sou muito de ficar comerando datas desse tipo, mas feliz dia do amigo à todos os meus amigos e à todos em geral.
Acho que é bom pensar nesse dia como um dia pra fazer novas amizades (como se fosse preciso um dia pra isso) do que pra homenagear os amigos. Amigos não precisam de homenagens… Se precisassem, seriam somente interesseiros e não amigos. XD





Desencontro

13 07 2009

Desencontro palavras pra descrever
Pois não é como se eu não as tivesse
E sim como se me fugissem

Desencontro o amor, do mesmo modo.
Ali, sempre à espreita, mas nunca comigo

Desencontro os dias da minha vida
Desencontro o tempo todo, as horas e minutos

Desencontro o riso do meu rosto
Se o vejo, é forçado e sem graça

Desencontro minha fome, meu silêncio…
Desencontro tudo que eu tenho, mas me escapa.

Desencontro momentos, também
Sempre um momento cedo ou tarde demais

A vida pra mim é um grande desencontrar
de abraços e olhares perdidos.

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Se, por acaso, encontrarem um monstro andando cabisbaixo pela rua em um dia nublado de chuva, catando músicas anos 80 e 90, e que todos ignoram… Tenha certeza de que sou eu.





Romeo and Juliet

5 07 2009

Dizei-me: Que mal há na estória de Romeu e Julieta? Que faz dela tão triste que comova durante tantas gerações, tantos corações?

Que se amaram e morreram? E isso é infortúnio? Ao menos amaram… Que a morte a todos busca e a nenhum perde de vista.

Se mesmo que por um dia encontra um amor pelo qual que valha a pena morrer, morre por ele.

Antes isso que acabar aos braços de outro ou outra.
Que venha a morte mais cedo à mim, mas que eu encontre o amor! Que eu viva um dia como Romeu, mas que tenha minha Julieta, mesmo que esse dia seja o último dia.

E tais quais as pessoas que morrem ser ter encontrado jamais o amor!
E eis uma história triste e que temo à mim e que, sabemos todos, a muitos aflige, anônimos estes não-amantes que desgraçados são e nem sabem… E sois um pouco felizes ainda se não sabem! Pois sou eu uma dessas almas e sei-me bem disto. Sou portanto mais desgraçado…

Que morra eu depois de encontrar o amor, pois morro feliz.

Que a minha alma encontre a agonia da morte nos braços do amor.

E à Deus, pergunto: Que acontece ao amante que se mata, pela morte do amado?

Se vai para o inferno, irei eu também se encontro o amor e ele me deixa…
E estará o inferno cheio de amantes que não deixam que o sabor da vida lhes estrague o sabor do amor.

Diz-me, Deus, que sois misericordioso e que entre as leis do destino está escrito que se um amante morre, a alma à ele atrelada tem direito de seguir o caminho ao teu lado.

Ou sois muito cruel de fazer com que viva o amante, condenado a viver pela metade, até que a morte olhe em seus olhos e diga: Só vim gelar-te o corpo. Tu, morto já estais.

Oh Deus, eu que nem creio em ti, suplico, não leva sozinha uma alma que ao lado de outra caminha! E se não me escuta, escute-me a morte então! Leva ambos os amantes e poupa dor, sofrimento e esforço…

Por que se é verdadeiro o amor e ele finda, com ele finda a vida.

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Disse eu que sobre o amor não mais escreveria. Mas que outra coisa faz um poeta se não contar mentira?