Caixinha de Balas
Hoje fiz algo horrivel. Sim, fiz algo terrivel, tão vil, tão desvirtuoso e rude, tão não-eu. Hoje, eu menti.
Disse eu uma mentira deslavada, daquelas que fazem torcer o nariz quem escuta e sabe que é mentira. Eu torci o nariz quando a disse. Eu ODEIO mentiras ditas. Mentir pra si mesmo, tentar se enganar, tentar viver você de um jeito que lhe é impossivel vá lá, mas mentir a outra pessoa, real, tão existente quanto você tão carne quanto você, ah, isso é terrivel, fede. E o pior, menti eu pra minha mãe. Deus sabe que estou me martirizando, pessando em dizer a verdade enquanto é tempo, contar tudo e esclarecer os fatos ocorridos, mas não é tão simples. Estou aqui, agora, filosofando deitado numa rede aos fundos de casa com olhar soturno e admirando a beleza do anoitecer sem pôr-do-sol, vendo o céu numa faixa entre o muro e o telhado da casa. Estou a devorar balas.
Devoro por impulsividade. Minha mãe as trouxe, o que me deixa mais mal ainda, nunca me traz caixinha de balas. Deve você te-las experimentado já em algum ponto da vida, uma caixinha de balas pequeninas com sabor artificial de laranja. Até soltei um riso me lembrando da propaganda. Esta com uma na boca, era a quarta ou quinta balinha e eu a salivava afim de consumi-la o mais rápido possivel. Fazia isso por prazer. Me sentia sujo e o prazer de sentir aquele doce, aquele sabor da bala quando acaba, aquele açucar com sabor alaranjado me fazia esquecer do meu pecado.
Minha mãe veio ao fundo e disse a ela para não ascender a luz. Não gosto de luz quando estou deitado e pensando, me incomoda.
E ve-la me faria chorar, implorar perdão e me trair. Enfiei mais uma bala na boca.
Sim, eu havia mentido, mas como não mentir, naquela situação? Minha irmã havia traído a confiança de minha mãe e eu a havia pego em flagrante. Deveria relatar a ela! Delatar minha irmã! Ser fiel ao meu dever de ser sincero no que for possivel pensar em minha irmã como sendo inconsequente e irresponsavel e passivel de punição. E disse isso a ela! Disse que falaria que diria tudo como houve, como vi, o que vi, diria até que não foi culpa dela, a defenderia perante a corte de jurados que se formaria para julga-la. Mas como recusar uma súplica de joelhos? como rebater aqueles argumentos que diziam a respeito de liberdade e do castigo que viria ligeiro e injusto? Ah! Veio a minha memória a imagem do rosto de minha mãe e a súplica dela “Ajuda a cuidar de sua irmã, filho, que ela tem cabeça fraca…” Tratei de colocar mais tres balas de uma vez na boca e a balançar a rede levemente, tão levemente que me ninava. Mas o determinante foi o choro do meu irmão, ainda bebia leite na mamadeira e agora desatava a chorar com o rosto enfiado no sofá. Chorava o choro da minha irmã. Chorava com ela, por ela. Que eles nunca saibam, mas quase chorei também. Tanto que disse que pensaria, que iria refletir sobre o que fazer e dispensei minha irmã da sua auto-flagelação. E justo nessa hora, como que por destino, por sobrenatural ou metafísico, chegou minha mãe. Tentei fazer parar meu irmão e não consegui.
Minha irmã estava no quarto. Abri o portão com minha mãe me questionando sobre o choro do meu irmão. Primeira atitude: Não sei.
Salivou-me a boca e o garoto não parava, manhoso agora por chorar demais. E o pior, ao perguntar sobre por que chorava, me culpou!
Ah, minha alma rendeu-se ali. Era eu o motivo do choro daquele garoto. Eu era mal. Vilão. Arquinimigo. Pouco tempo atras ele chorava para compadecer da minha irmã, a quem eu flagelava. E co minha mãe me perguntando do que ele falava, algo sobre “contar mãe uma coisa” tratei de por minha imaginação a trabalhar para aquele mal vil. Disse que ele havia comido doce e que eu ia delata-lo. O pestinha tinha me colocado naquela posição e eu agora era forçado a mentir. Olhar nos olhos de minha mãe e dizer: “Sim senhora, só isso”.
Minha alma estava trespassada por aquelas palavras e por aquele sorriso de mãe satisfeita. Fez carinho no meu irmão. Entendera que ele estava arrependido e por isso chorara. E logo depois o presente do mercado, uma caixinha de balas pra cada um.
Não aguentei e aqui estou, deliberando sobre o ocorrido. Me ferindo ao pensar nisso. Acabei traindo-me por algo maior. E isto foi trair-me mais. A verdade é que eu quis manter a ordem em casa, pois ordem era raro e valiosa. Também tive muita dó de minha irmã, normalmente não sentiria dó, posto que dó, para mim é algo tão horrivel quanto a mentira (Não minta, não sinta pena de mim) mas e para
ela? Ela já não era livre, contar a verdade seria cobrir com pano preto a gaiola de uma pássaro, tirar dela o vislumbre de céu.
Quem era eu pra fazer isso? E minha mãe não a julgaria. Tinha o préconceito digno das mãe superprotetoras e corujas, não ía ouvi-la, simplemente decretar-se-ía a prisão perpétua daquela alma jovem. Quem era eu para atirar minha irmã assim, aos leões?
Mas isso não justifica meu erro. Estou entre Spinoza e Kant. Mas numa questão assim ficaria ao lado de Kant. Primeiro a Verdade, depois a dor. Já consumi metade da caixinha de balas e o mais interessante, estou mordendo-as. Chupar uma bala doce é como fazer sexo para quem sabe apreciar uma bala, primeiro, a saliva consome a resistencia da bala, o ato se consumando e logo depois, aquele centro que é como que puro açucar, o prazer enfim realizado. Ao passo que morde-la foi como drogar-me. Prazer rápido e de mesma intensidade mas sempre requerindo mais e mais e mais, que quase me considerei viciado em balas e morde-las. Tentando destrair-me imaginei quantas balas tinham havido naquela caixa, se eram o mesmo número em todas, se era por peso aproximado que colocavam a quantia de balas em cada caixa, tanto que imaginei
as fábricas de guloseimas e as balinhas brancas pequenas sendo colocadas nas caixinhas laranjadas e trasparentes.
Definitivamente estava eu viciado em balas. Havia virado a caixinha na boca e tinha cinco balas que faziam minha boca salivar muito e não conseguia morde-las, tive de esperar ficarem moles e frageis pra romper com meus dentes a agora fragil estrutura. Estava enjoado e com ansia. Açucar demais e muito depressa. Levantei-me com o peso de ser mentiroso e desvirtuoso, mas com a responsabilidade de ter feito algo que julgava o mais correto. Bati com força a caixinha de balas encima do forno microondas afim de minha mãe perguntar-me o que havia de errado. Mas não, nem virou-se. Ocorreu-me que eu sempre ficava ali, ruminando coisas filosoficas em minha rede aos fundos de casa e ela nunca se dava ao trabalho de perguntar o que era. Eram sempre assuntos sérios e exigiam uma atenção exclusiva e exaustiva, mas ela me via nesse esforço e nem me indagava sobre nada do pensamento. É, nunca me indagava e nada. Pois deveria.
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Coloco isso como maneira de redimir a alma que se afoga em si mesma. Não teve nada de mim nisso, teve tudo de mim.

