Fingidor & Dor

27 02 2008

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Edvard Munch – The Scream

O Fingidor da Dor

Rafael Rabelo

E se eu te dissesse que dói?
Que duma dor tão enorme
Não me cabe ao peito pequeno
Nem a sombra ou a ponta?

Dói, e Como dói!
Existir assim nesse mundo
Ser tão só, tão ínfimo
que se sumisse não mudaria
nem um tiquinho do que é
e não deixaria ser por sua causa

Você sente pena de mim?
Sei, está vendo minha dor
talvez esteja até chorando
sofrendo por mim, que bonito

Mas e se eu te disser que não dói?
Que minha dor me alimenta
que o mundo me despreza e me alegra
Tenho na face o sorriso dos desesperados
a alegria cega de quem nada perde
pois entende que nada tem

E se eu dissesse coisas absurdas?
como que a felicidade me assusta
Que me matei o amor, por ama-lo
e deseja-lo perfeito é não deseja-lo.

Matei em mim qualquer romance possivel
Pois faço exatamente o que é de se fazer
E por isso não sou amado,
sou real e possível, estou aqui.
E se deseja o que não se tem!
Não sou sonho de ninguém.

E se eu te dissesse que é mentira?
Que sou um poeta mentiroso
Não verso, não rimo, não invento
Só minto minhas poesias…
.

.

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Ah, se isso fosse um quadro, seria um quadro horrivel. Imagino uns rabiscos negros como não se existe e os rabiscos engolem tudo. Sinto tanta raiva que até me dói. Fernando Pessoa passava mal fisicamente quando algum sentimento o atormentava, pois quando minha raiva tenta escapar da prisão que lhe impus ela me fere, me fere fisicamente, como que sentindo a pele rasgar-se de dentro pra fora, vertendo sangue aos litros. Sinto a dor mas não há ferida, nem sangue. Mas a dor está lá.





Tentado ser algo…

24 02 2008

 

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Entre Nada e Completo

Rafael Rabelo

Estou sempre entre uma coisa e outra
incompetente pra ser músico
preguiçoso demais pra escrever em prosa
sou uma criança que finge fazer poemas
pois os poemas são como eu
Entre a prosa e a música

Na ansia de ser algo, sou nada
Não sou bom pra prosear
Não sei musicar um texto
Resta-me os versos, incompletos
como eu, que viram meus
Sempre tentando ser outra coisa

Uns nem rimam, são descarados
Outros rimam demais, forçados
Tentam ser prosa ou música, tentam.
E como acho bela uma boa melodia rimada!
Ou ainda uma de prosa escrita emocionada
Mas me falta sempre algo de essência.

Sempre me indago se verso, se proso, canto
ou então tento tudo e nada consigo.
Falta-me a estética da música
Falta-me a coragem da prosa
Restam-me os versos, incompletos
Tentando inutilmente se completarem.
.

.

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Todo poeta sabe que não é poeta.  Se se julga poeta é arrogante. Ou é  aprendiz, ou pseudo, ou amador, ou ainda não o é. Julgar ser alguma coisa é  ser nada. Os únicos poetas verdadeiros são aqueles que já morreram.





Simplicidade e Tudo…

20 02 2008

 

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Simples Poema

Rafael Rabelo

Eu quero um poema simples
sem rodeios ou delongas
Sem mistérios e coisa do tipo

Quero um poema que se olhe
e entenda, que seja transparente
como vidro, como água, alma

Um poema risonho e brincalhão
que não busque resposta nem pergunta
poema não afetado, sincero

Poema feito jóia diamante
sem rima, sem metro, sem tamanho
sem dor, até, sem amor, só um poema

quero só falar da simplicidade
de viver, de ver o desabrochar
dos botões de rosas na primavera

Só quero uns versos toscos
sobre amar ser bom, ser feliz
e simples, quero versos retos

Um poema ingênuo de si mesmo
quero palavras puras de sabor
de candura, de desprezo de si

Quero palavras sinceras sobre
tudo, e sobre nada, por que
alguma coisa seria demais

quero poder falar dos copos
falar de óculos, de mesas
sem devaneios, sem rodeios

Não quero questionar nada
e talvez nem procurar, só
parar o mundo com as palavras

Quero o menos complexo
de si mesmo, do mundo, de tudo
Ah! Talvez nem queira coisa alguma

Mas, enfim, colho palavras no ar
e monto um poema como a alma pura
um poema sobre nada e coisa alguma
ou um poema sobre a verdade e doçura
.

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Claro que escrever algo que tenha milhões de significados, ocultos, escondidos, à mostra etudo mais é bom, mas escrever só isso fere o conceito de poeta que tinha Fernando Pessoa. Devemos nós, os aprendizes, tentar ter de tudo um pouco em nós. Complexo e Simples. Ser você mesmo, sendo todos.





Atos e Peças, mentiras verdadeiras.

20 02 2008

Caixinha de Balas

Hoje fiz algo horrivel. Sim, fiz algo terrivel, tão vil, tão desvirtuoso e rude, tão não-eu. Hoje, eu menti.
Disse eu uma mentira deslavada, daquelas que fazem torcer o nariz quem escuta e sabe que é mentira. Eu torci o nariz quando a disse. Eu ODEIO mentiras ditas. Mentir pra si mesmo, tentar se enganar, tentar viver você de um jeito que lhe é impossivel vá lá, mas mentir a outra pessoa, real, tão existente quanto você tão carne quanto você, ah, isso é terrivel, fede. E o pior, menti eu pra minha mãe. Deus sabe que estou me martirizando, pessando em dizer a verdade enquanto é tempo, contar tudo e esclarecer os fatos ocorridos, mas não é tão simples. Estou aqui, agora, filosofando deitado numa rede aos fundos de casa com olhar soturno e admirando a beleza do anoitecer sem pôr-do-sol, vendo o céu numa faixa entre o muro e o telhado da casa. Estou a devorar balas.
Devoro por impulsividade. Minha mãe as trouxe, o que me deixa mais mal ainda, nunca me traz caixinha de balas. Deve você te-las experimentado já em algum ponto da vida, uma caixinha de balas pequeninas com sabor artificial de laranja. Até soltei um riso me lembrando da propaganda. Esta com uma na boca, era a quarta ou quinta balinha e eu a salivava afim de consumi-la o mais rápido possivel. Fazia isso por prazer. Me sentia sujo e o prazer de sentir aquele doce, aquele sabor da bala quando acaba, aquele açucar com sabor alaranjado me fazia esquecer do meu pecado.
Minha mãe veio ao fundo e disse a ela para não ascender a luz. Não gosto de luz quando estou deitado e pensando, me incomoda.
E ve-la me faria chorar, implorar perdão e me trair. Enfiei mais uma bala na boca.
Sim, eu havia mentido, mas como não mentir, naquela situação? Minha irmã havia traído a confiança de minha mãe e eu a havia pego em flagrante. Deveria relatar a ela! Delatar minha irmã! Ser fiel ao meu dever de ser sincero no que for possivel pensar em minha irmã como sendo inconsequente e irresponsavel e passivel de punição. E disse isso a ela! Disse que falaria que diria tudo como houve, como vi, o que vi, diria até que não foi culpa dela, a defenderia perante a corte de jurados que se formaria para julga-la. Mas como recusar uma súplica de joelhos? como rebater aqueles argumentos que diziam a respeito de liberdade e do castigo que viria ligeiro e injusto? Ah! Veio a minha memória a imagem do rosto de minha mãe e a súplica dela “Ajuda a cuidar de sua irmã, filho, que ela tem cabeça fraca…” Tratei de colocar mais tres balas de uma vez na boca e a balançar a rede levemente, tão levemente que me ninava. Mas o determinante foi o choro do meu irmão, ainda bebia leite na mamadeira e agora desatava a chorar com o rosto enfiado no sofá. Chorava o choro da minha irmã. Chorava com ela, por ela. Que eles nunca saibam, mas quase chorei também. Tanto que disse que pensaria, que iria refletir sobre o que fazer e dispensei minha irmã da sua auto-flagelação. E justo nessa hora, como que por destino, por sobrenatural ou metafísico, chegou minha mãe. Tentei fazer parar meu irmão e não consegui.
Minha irmã estava no quarto. Abri o portão com minha mãe me questionando sobre o choro do meu irmão. Primeira atitude: Não sei.
Salivou-me a boca e o garoto não parava, manhoso agora por chorar demais. E o pior, ao perguntar sobre por que chorava, me culpou!
Ah, minha alma rendeu-se ali. Era eu o motivo do choro daquele garoto. Eu era mal. Vilão. Arquinimigo. Pouco tempo atras ele chorava para compadecer da minha irmã, a quem eu flagelava. E co minha mãe me perguntando do que ele falava, algo sobre “contar mãe uma coisa” tratei de por minha imaginação a trabalhar para aquele mal vil. Disse que ele havia comido doce e que eu ia delata-lo. O pestinha tinha me colocado naquela posição e eu agora era forçado a mentir. Olhar nos olhos de minha mãe e dizer: “Sim senhora, só isso”.
Minha alma estava trespassada por aquelas palavras e por aquele sorriso de mãe satisfeita. Fez carinho no meu irmão. Entendera que ele estava arrependido e por isso chorara. E logo depois o presente do mercado, uma caixinha de balas pra cada um.
Não aguentei e aqui estou, deliberando sobre o ocorrido. Me ferindo ao pensar nisso. Acabei traindo-me por algo maior. E isto foi trair-me mais. A verdade é que eu quis manter a ordem em casa, pois ordem era raro e valiosa. Também tive muita dó de minha irmã, normalmente não sentiria dó, posto que dó, para mim é algo tão horrivel quanto a mentira (Não minta, não sinta pena de mim) mas e para
ela? Ela já não era livre, contar a verdade seria cobrir com pano preto a gaiola de uma pássaro, tirar dela o vislumbre de céu.
Quem era eu pra fazer isso? E minha mãe não a julgaria. Tinha o préconceito digno das mãe superprotetoras e corujas, não ía ouvi-la, simplemente decretar-se-ía a prisão perpétua daquela alma jovem. Quem era eu para atirar minha irmã assim, aos leões?
Mas isso não justifica meu erro. Estou entre Spinoza e Kant. Mas numa questão assim ficaria ao lado de Kant. Primeiro a Verdade, depois a dor. Já consumi metade da caixinha de balas e o mais interessante, estou mordendo-as. Chupar uma bala doce é como fazer sexo para quem sabe apreciar uma bala, primeiro, a saliva consome a resistencia da bala, o ato se consumando e logo depois, aquele centro que é como que puro açucar, o prazer enfim realizado. Ao passo que morde-la foi como drogar-me. Prazer rápido e de mesma intensidade mas sempre requerindo mais e mais e mais, que quase me considerei viciado em balas e morde-las. Tentando destrair-me imaginei quantas balas tinham havido naquela caixa, se eram o mesmo número em todas, se era por peso aproximado que colocavam a quantia de balas em cada caixa, tanto que imaginei
as fábricas de guloseimas e as balinhas brancas pequenas sendo colocadas nas caixinhas laranjadas e trasparentes.
Definitivamente estava eu viciado em balas. Havia virado a caixinha na boca e tinha cinco balas que faziam minha boca salivar muito e não conseguia morde-las, tive de esperar ficarem moles e frageis pra romper com meus dentes a agora fragil estrutura. Estava enjoado e com ansia. Açucar demais e muito depressa. Levantei-me com o peso de ser mentiroso e desvirtuoso, mas com a responsabilidade de ter feito algo que julgava o mais correto. Bati com força a caixinha de balas encima do forno microondas afim de minha mãe perguntar-me o que havia de errado. Mas não, nem virou-se. Ocorreu-me que eu sempre ficava ali, ruminando coisas filosoficas em minha rede aos fundos de casa e ela nunca se dava ao trabalho de perguntar o que era. Eram sempre assuntos sérios e exigiam uma atenção exclusiva e exaustiva, mas ela me via nesse esforço e nem me indagava sobre nada do pensamento. É, nunca me indagava e nada. Pois deveria.

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Coloco isso como maneira de redimir a alma que se afoga em si mesma. Não teve nada de mim nisso, teve tudo de mim.





Just one Day…

17 02 2008

Dia Indiferente

Rafael Rabelo

Eu escreveria felicidades
se eu me sentisse feliz
Não que eu triste esteja
mas tudo perdeu sua beleza

Giro o lápis em meus dedos
pensando no que escrever
Não há nada para ser imitado
Além da Chuva, choro e desespero
mas quem disse que se importam?

Estou sereno e sinlencioso
Penso no que pode ser imitado
que já não o tenha sido.
Hoje o mundo se recolheu para si.

É verdade quando digo que não estou triste
me sinto pequeno e inútil
e fico aqui, sonhando que sou poeta
escrevendo bobagens e besteiras

Escrevo o que sinto mesmo não sentindo nada
e sobre esse vazio muito já escrevi
O dia não está alegre
nem parece querer morrer
Só está indiferente e distante de mim.

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Escrever sobre não conseguir escrever, fazer uma poesia sobre não ser poeta, dizer ao mundo com lágrimas nos olhos que não se sente dor… No fundo, essas contradições são apenas o contrário de contradição. É um dizer o avesso de algo, dizendo avessa-mente.





Sentir-se.

13 02 2008

10.
Hoje senti-me de maneira diferente, tinha eu a pele queimada de sol e estava roseado todo, vermelho carne-viva. E não podiam-me encostar a mão que gritava de dor ardente. Eu estava queimado, literalmente. Primeiramente me senti ao inferno. Tudo me doía, ardia e a pele parecia até chiar-se ao toque, de tão quente. Mesmo a sombra me ardia, o passar do vento me arrancava horrores de gritos, sentar-se então, era impossível. Minha mãe mandou-me ir ao mar e me esfriar, protestei, mas fui. Ao sentar no mar, na água fria, percebi que tudo aquilo era muito menos do que eu imaginava. Quando o sol nos queima, nos deixa a pele sensivel por demais e logo, todo encostar-se era como me bater com a maior força, o mínimo calor me queimava quase num forno e agora percebia que o menor frio me congelava. Ah, aquele era o mar mais gelado do mundo. Entendi os pescadores quando se referiam ao mar dos pólos como milhares de facas percorrendo o corpo ao caírem na água. E as ondas então! Que me batiam como que me açoitando! Repetidas vezes tive que engolir um grito para não espantar todo o pessoal da praia. Mas pela primeira vez o corpo sentiu na pele o que a alma sentia sempre. Sentia demais. E comecei a sentir-me, a ver e tocar-me com aquela sensibilidade rósea de sol. Pude sentir cada póro do meu corpo, senti a delicadeza dos meus fios de cabelo mal cuidados, ah, a barba por fazer! Pude passar-lhe a mão, o braço até quase o ombro. Toquei cada fio de pêlo da perna e soltei um suspiro a cada toque. E superando a dor, que Sol! Superando o frio, que Mar! Pude perceber cada gota de água que me tocava! E se um peixe me roçava a perna eu tremia, se alguém me relava sem querer no cambalear marítimo eu quase o comprimentava e lhe perguntava o nome, pois de repente éramos íntimos! Como não saber o nome de cada pessoa que me tocava?! Eu a sentia tanto… Tive de controlar-me para não agarrar ali mesmo uma desconhecida que respirou de leve em meu pescoço. E fazer amor naquele estado então deveria ter sido sublime, arrisco dizer que nem nos sonhos meus seria tão vivo, nem nos sonhos de ninguém. Nunca me conheci tanto e nunca me admiti que há tanto por conhecer-me.

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Só temo realmente uma coisa. Ser feliz.

Ser feliz me assusta. Ter algo a perder me desespera.





Um Poema sobre O Poema

11 02 2008

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O Poema que se fez

Rafael Rabelo

Me formei de mim mesmo
ajuntei-me e fui crescendo
não sei como surgi, mas estou aqui
como um big bang de palavras
originando um universo de versos

fiz como fazem as bactérias
que de uma, surgem infinítas
Acaso lhe perguntam como surgiu
os átomos, os eletrons, a matéria?
Não? Então não pergunte como surgi!

Sei que vim e me escrevi
apossei-me de uma mente humana.
Sou também consciência imaginada,
sou palavra abastada e acumulada.
Me escrevi pra que outros me vissem.

e falei dos pássaros bonitos voando
falei sobre a liberdade ansiada
me descrevi como um amor puro
me recitei como uma paixão desastrada
cantei sobre uma ruiva mal amada…

e então me apossei de outras mentes!
encantei em livros diversos
saí em jornais e em revistas
fui poema famoso, pop star e rico
Tema de debates acalorados
entre intelectuais formados!

hoje já sou velho, antigo
mas não ultrapassado, não!
sou daqueles poemas eternos, atemporais
falo de coisas que sempre vão se falar
de um jeito bonito que nunca vai falhar

e sou colocado em provas
de vestibular, de fim de ano, bimestrais
saio em sites sobre temas diversos
debatido em salas de aula,
no colegial, ginasial e na faculdade
mas enfim, poema quando nasce e SE faz
É eterno, infinito e imortal.

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7.
As vezes me pego escrevendo tão rápido quanto posso e ainda assim as palavras me fogem, escapam em meio a um tubilhão como se viessem de um mar acima de mim do qual não tenho conhecimento e só se passassem a mim através de um buraquinho que se faz funil e eu tento ou tenho que agarrar a todas… Tento apanha-las, mas as safadas são rápidas e escorregadias, me escapam a mente, e no final, resta o resto. Sinto vontade de apagar o que fiz e começar tudo de novo, mas sei que não saíria melhor do que fiz, antes  saíria  pior, que ja fiz isto e assim foi. Cabe-me uma única solução possível. Aprender a escrever mais rápido. Ou ainda não escrever. Mas esta ultima não me cabe.





Sombra de Pessoa

6 02 2008

O Castelo Coração

Rafael Rabelo

Dentro de mim há um reino.
Daqueles medievais, rústicos…
e nele há Rei, povo, inimigo.
O inimigo queria morto o Rei
E eram umas amazonas ruivas
Umas mortas andantes feridas
Umas demonios tentadoras!

No Reino nunca havia sol
O terra brilhava, o chão era luz
no céu era sempre noite.
Assim o Rei desejava, queria
Não gostava do Sol, não gostava.
Morava na cidade única
Que com o castelo do Rei se fez
capital e cidade grande.
Cheia de gente, de soldados
de armas armamentos armeiros.

Chovia as vezes, não muito.
Raras vezes caia o céu em chuva
pesada e ritmada, e fazia musica
fazia poesia, fazia tudo
À chuva que destruia.
Ventava e uivava, dos bosques
vinham os gritos inimigos…

E o castelo era lindo, branco,
cinza, azul, variava e misturava,
o humor do rei o mudava em tudo
forma, tecido, estilo, cor,
O Rei imaginava e era dito.

Ah! O Rei, que era tudo e nada
Já tinha feito ao mundo
o maior bem, o maior mal.
Já foi vampiro, herói e general
Ditador, corrupto e generoso
Alto, baixo, gorducho, esqueleto e osso

O Rei era de tudo um poco
Homem, mulher, aldeão, ferreiro
Até fazendeiro de fora do reino
inimigo que espreitava o bosque
Chefe da guarda dos Cavaleiros.

Tinha tudo e não tinha nada
Era tudo e era, afinal, nada
Foi traído por sí mesmo, deposto
Expulso e exilado de sí, viveu com lobos
tinha tiques, tinha tacs, viva sozinho
e cercado, sempre, por sí

As vezes se enfurecia e era
um aldeão traído, ou cúmplice num crime
que ele mesmo cometera por completo.
Pois era vítima, ladrão, guarda…
E era também a coisa roubada.

Vivia suntuoso em castelo de prada
ou em casa de madeira baixa
defendia o reino e atacava-o
Expandia, conquistava, se conhecia

Chamavam o Reino de Coração
E aos inimigos demos o nome de Amores
que nos assolavam, como praga
bem vinda e mal vista.
Pois nunca fomos correspondidos.

Já morreu o Rei um tempo
Vítima de um tal Amor-Ruiva
Dizem que se matou, falou que se morreu
A lança em seu peito era dela…
E o sorriso em seu rosto também…

Ficou morto um tempo
Mas depois voltou, desenterrou do peito
a lança e aclamou o trono, que era então
comandado por quem vos fala.
Bobo da corte, amigo leal
Trovador e bardo real.

Os Amores foram vencidos
por serem a nós, nocivos.
Tivemos paz, tivemos guerra
Mas éramos nós de novo
Eramos o um que sempre tinhamos sido.

E havia tudo em nós
Era eu o Rei, o Reino, o Castelo
Até a noite era Eu, até o chão
Até o ranho que tirava do nariz um menino
O estrume da vaca, o mais bonito diamante
Era até meus Amores-inimigos
Eu sou tudo o que sou,
Desde a lança que me feriu
Até a mulher que a lançou.

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As vezes me pego escrevendo tão rápido quanto posso e ainda assim as palavras me fogem, escapam em meio a um tubilhão como se viessem de um mar acima de mim do qual não tenho conhecimento e só se passe a mim através de um buraquinho que se faz funil. E Eu tento ou tenho que agarrar a todas… Tento apanha-las, mas as safadas são rápidas e escorregadias, me escapam da mente e no final resta o resto, que sinto vontade de apagar para começar tudo de novo, mas sei que não sairia melhor do que fiz antes, sairia até pior, que já fiz isto e assim foi. Cabe-me uma única solução possível. Aprender a escrever mais rápido. Ou ainda não escrever. Mas esta ultima não e cabe.


E eu vou pra praia… Pra Santos… Há! Deus sabe que se fosse pro Rio eu estaria animado… Mas vou pra um lugar ficar com minha familia e pessoas desconhecidas, com cheiro de maresia, agua salgada e areia grossa e cinzenta… Isso não é nada poético.

Quero meus amigos.

PS. Sem tempo pra imagens…





Temporada de Noite “?”

4 02 2008

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Amada Noite

Rafael Rabelo

Eu andava perdido por uns cantos
procurava algo e meu sorriso era vidro,
os olhos não eram janelas
e nem os braços eram portos e se eram
estavam fechados, por causa do tempo
fechado também, nebuloso e sombrio.

Chegou a noite escura e me envolveu
acolheu em seu frio e não disse
palavras de amor ou juras
só se mostrou pra mim, se entregou.
Estava ali, me esperando e sussurrando
meu nome, meu signo, minha senha…

E minha alma tão escura quanto a noite
se misturou ao breu e se apaixonou
pela escuridão, e se regozijou
remexendo-se em seu túmulo-mundo
pois amava e era amada!

E eu sorri um sorriso amarelo
os dentes brancos saltavam na escuridão
assustavam e impressionavam pessoas
pois já não se viu eu, não se via a noite
éramos um, ela e eu, nos dominavamos

Sim, um amor correspondido
e a noite era minha, e eu era dela
(É na noite que os rejeitados encontram
abrigo e um abraço e um amor amigo)
nos abraçavamos e riamos de quem nos via
e não nos via, pois eu, a noite éramos um.
.

.

.

“Devemos tolerar-nos mutuamente, porque somos todos fracos, inconseqüentes, sujeitos à mutabilidade, ao erro. Um caniço vergado pelo vento sobre a lama porventura dirá ao
caniço vizinho, vergado em sentido contrário: ‘Rasteja a meu modo, miserável, ou farei
um requerimento para que te arranquem e te queimem’?”

Voltaire.





Poema do Barco-Coração

1 02 2008

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Barco-Coração

Rafael Rabelo

Meu coração cheio de lágrimas
Não é nada
Além de um barco que afunda.
Está furado e fazendo água,
Mas flutua, insistente,
tentando chegar a uma praia,
amor qualquer fora da água salgada.
Fura tempestade e segue.
Avança firme sobre as ondas
e o tempo frio não o pára.
Não desiste, não se rende.
Pensa no amor que virá,
se virá!

Do céu chove o que for
canivete, mulher pelada, dor
Ele segue, cego
Talvez dormindo, talvez sonhando
Uma ilha perdida ensolarada,
santuário onde descansa o amor.
E será feliz o coração,
que todo ferido, sorrirá.
Mas é só sonho distante.
Só há a noite agora.
E numa calmaria, uma suplica:
Lua que sorri para os amantes amados
espero que um dia
também pra mim sorria!
.

.

.

Eu caminho na noite como quem sonha e sorrio pro escuro como quem crê. Nunca estarei sozinho, a Noite sempre estará comigo…