Decidi dar-lhe uma rosa hoje. Não sei como me ocorreu a idéia, talvez tenha visto as rosas no canteiro da escola e tenha-as associado a ela e seu cabelo ruivo.
Soube que ela mereceria uma rosa no mesmo instante. Pensei em como faria para dar-lhe o presente, mas sabia que poderia entrega-lo antes dela entrar no Automovel Clube, onde tinha ensaio com a Banda Municipal.
Mas dinheiro não tinha para comprar um buquê, tinha talvez uns trocados, pensei um pouco mais e conclui que deveria entregar uma unica rosa, que seria mais poético e mais belo.
Uma rosa cheia de adornos não seria cara e seria discreta, ou mais discreta que um buquê enorme. O Resto foi puro impulso. No instante seguinte desci a rua a procura de uma floricultura, meio correndo, meio andando.
Tudo o que eu fazia era consequencia de outro fato, era como se eu fosse um robô e seguisse pelo único caminho que poderia, não havia nunca entregado-lhe nenhum presente e uma rosa parecia me ser o mais cheio de significado, logo procurava uma floricultura, então comprar a rosa, e depois entrega-la. O que diria eu não sabia. Não estava pensando muito sobre o que estava fazendo, tinha uma idéia e ia realiza-la.
Atravessei a Praça Rui Barbosa e avistei ali o Automovel Clube e convenientemente havia uma floricultura na outra esquina, não hesitei, entrei e comprei uma rosa que não me saiu muito caro.
E era um rosa bonita, vermelha como eu havia imaginado, os espinhos haviam sido tirados e tinha pequenas outras florzinhas brancas enroladas em seu caule. Tinha um plástico e um papel em tons avermelhados como adornos. Uma fita vermelha prendia tudo em conjunto.
Eram a essa altura umas uma e meia da tarde e ela chegaria para o ensaio as duas, tinha que esperar ali meia hora. Recolhi-me a uma cobertura pois havia começado a chuviscar e parecia que iria chover mesmo, em pouco tempo, pois o céu tinha um ar cinzento de tempestade e o sol já havia sido engolido pelas nuvens acinzentadas. Era como se tentasse nadar em meio a um mar de tons cinzas.
Esperei ali uma hora, quando deu duas e meia e ninguém da banda havia aparecido, fui até o Clube e perguntei meio angustiado ao guarda que fazia a segurança do lugar:
- Com licença, o senhor sabe me dizer porque ninguém apareceu hoje para o ensaio?
Ele fez uma cara triste, como que por compaixão, devia ter visto a rosa na minha mão.
- Sinto muito, hoje não tem ensaio. Ensaiam somente nas terças e nas quintas. E hoje é segunda-feira.
Nessa hora, a chuva que era fina, engrossou.
Foi como se Deus estivesse caçoando de mim. Olhei pro céu e blasfemei algo como um obrigado sarcástico.
Ia atravessando a rua, indo na direção da praça, quando a vi.
Estava ali como se sempre estivesse. Como, não sei, uma árvore ou um banco. Vestia um conjunto branco, como que de propósito, para fazer saltar a vista o cabelo ruivo, bem no meio da praça, onde havia uma cobertura para lhe proteger da chuva.
Pessoas passavam, iam e viam, mas lá estava ela, parada, alheia a chuva, ao verde, a correria das pessoas que se protegiam!
Só então me dei conta de que ainda estava com a Rosa na mão. Atravessei a rua meio correndo, alegre, com um sorriso enorme no rosto! Destino, pensei, Destino! E quando pus os pés na praça, um garoto bem vestido, com uniforme de escola e calça jeans, tênis de marca e bolsa cara, a comprimentou com um belo beijo na boca.
Ela parecia tão gentil, tão suave! Era tão belo o jeito que se erguia na ponta dos pés para beija-lo, até o jeito que ela o abraçava parecia suave. Tão suave que tornava ela mais delicada que algodão ou seda.
Tudo nela me apaixonava de novo que até esqueci que era outro que ela beijava, não eu. Então eles conversaram, deram as mãos e saíram em direção a uma rua bem movimentada e comercial.
De repente, me vi ali, na chuva, sem saber se avançava ou se recuava, com uma flor em uma das mãos e meu coração que se desfazia na chuva, na outra. Não tinha mais forças, estava encharcado e continuava a me molhar. Eu havia parado pra ver a cena logo na calçada da praça, onde não havia coberto.
Eu pensava milhões de coisas, mas de repente brotou um sorriso no meu rosto. Sabia o que faria. Entregaria a rosa amanhã. Era simples, eu a amava e não havia nada que eu pudesse fazer mais.
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Sim, isto é um fato real, aconteceu comigo, faz parte de mim, como um braço ou uma perna.